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Você não tinha uma banda na escola. Ter banda na escola era uma coisa muito especial, reservada ao pessoal mais legal e interessante, do qual você com certeza não fazia parte. Ou talvez fizesse — mas era, sei lá, o baterista ou o tecladista ou qualquer coisa assim. Vocalista não era, certeza. Vocalista era só quem já usava cinto de lona prendendo a calça jeans aos 12 anos ou quem prendia o uniforme com piranha de cabelo em todas as aulas, não só as de educação física.

Então você talvez não saiba, mas sua cidade (ou, dependendo do tamanho da sua cidade, sua região) tinha uma pequena oligarquia adolescente de bandas que, se não tocavam juntas, pelo menos ensaiavam. E iam nas casas uns dos outros pra tocar, compartilhar referências e gravar CDs com gravações próprias no Nero, com pouca circulação mas muita alegria e muitos covers de Red Hot Chili Peppers — Snow (Hey Oh).

Olhando hoje, era óbvio que essa cena ia acabar. Mesmo que todas as bandas se profissionalizassem (o que nunca aconteceu em nenhum lugar ou momento), o conjunto de bandas e esse estado geral das pessoas com rotinas dedicadas à banda e pequenos fã-clubes na escola deveria sumir em algum momento, no mínimo porque deixariam de ser bandas de escola e passariam a ser só bandas. Então é um fenômeno muito efêmero, mas absoluto e estático. Tem data de validade, mas todos os dias até lá dão a mesma impressão de novidade e de expectativa.

Não tem gênero melhor pra representar isso em um jogo do que gacha.

Bandori - Moca e Himari

Quando você lê as historinhas de BanG Dream! (Bandori, pros íntimos), você ri de quão triviais são os dramas das integrantes das cinco bandas do jogo. É tipo, “o festival da cidade foi cancelado! Vamos implorar pras pessoas voltarem atrás nessa decisão pra que a gente possa tocar nele”. As integrantes das bandas são personagens extremamente simples. Essa aqui é a guitarrista viciada em treinar guitarra. Essa outra é a tecladista que tocou piano desde criança e resolveu colocar a técnica a serviço de uma banda. Aquela ali tem que equilibrar a vida de baixista com a ajuda que tem que dar pros pais na padaria.

Mas, ainda assim, lançam músicas e tocam covers que você joga no maior estilo Guitar Hero. De modo geral, elas levam essa vida que não tem como dar em nada pra quem tá olhando de fora, mas é o topo do mundo mesmo assim pra quem está dentro. Talvez por isso mesmo, por ser um fim em si mesmo. Então as meninas são todas famosas em suas respectivas escolas, tocam nos festivais culturais, têm fãs e fazem coisas inimaginavelmente complicadas e responsáveis pra quem tem 14 anos de idade, tipo mandar fazer um flyer ou lidar com dinheiro.

(E, talvez a coisa mais chique de todas, têm amigas em outras escolas. Não sei você, mas eu achava muito chique ter amigo que estuda em outra escola.)

Bandori - Hina e Aya

Bandori é um jogo tão fugaz que a simpatia pelas pessoinhas ali e as situações pelas quais elas passam é inevitável. É meio besta, algumas personagens podem te irritar. Mas é inevitável. E tudo retorna à expectativa dos eventos novos e suas novas versões das mesmas meninas, novas roupas, novas músicas. Tudo volta ao gacha, já que o jogo gira em torno de gastar dinheiro fictício por um pacote de cartinhas aleatórias, algumas mais especiais que outras.

Existem muitos jogos desses focados em idols, quer dizer, daqueles grupos de cantoras e dançarinas que usam roupinha e são agenciadas e coisa e tal. Tipo Love Live e Idolm@ster. Bandori nos apresenta a um mundo mais próximo, um mundo que a gente consegue ver nos nossos próprios passados. Mas deixa eu te falar uma coisa sobre gacha de modo geral.

Quem tem menos de vinte e cinco, trinta anos e morou sempre no centro dos grandes centros urbanos talvez não entenda como funcionam e funcionavam divertimentos itinerantes. Biblioteca itinerante, circo, parque de diversões itinerante, essas coisas. Era sempre uma coisa estranhíssima quando você acordava um dia e tinha uma montanha russa no meio da cidade, daí você acordava no outro e não tinha mais.

Circo, mesma coisa — o circo é um evento, sai no jornal: “o circo está na cidade”. Ninguém gosta de circo hoje em dia, mas antigamente e no interior eles são coisas impressionantes, primeiro por serem eventos e segundo por serem coisas novas. São surpresas, você nunca sabe o que vai ter no show. E, enquanto eles estão lá, parecem um estado permanente e alterado da ordem pública e particular dos habitantes da cidade. São diversões gerenciadas por algo exterior, misterioso e imprevisível, que geram na criancinha um fervor que, ela sabe, não vai levar a nada.

Hoje, esse tipo de fervor fica associado nas nossas mentes ao gacha como instituição: você está fazendo parte de uma diversão que não depende de você pra acabar, mas fatalmente ela vai acabar. É uma diversão que vive de coisas novas, vive da imprevisibilidade. De modo que um gacha que encerre seus serviços, mas ofereça ao jogador de longa data vários eventos em loop já perdeu seu valor. Da mesma maneira, ele tem que se manter acessível pra quem resolver chegar agora. O gacha é um circo em sua contradição interna: a atração precisa se reinventar constantemente para quem já conhece enquanto preserva aquilo que a tornou famosa em primeiro lugar.

Bandori - Tela de Seleção de Música
Quem é eu aí nessa tela de seleção adivinha

Esse tipo de relação do consumidor com o entretenimento é muito delicada e não permite ao jogo a vida própria. Traçando outro paralelo aqui: um MMORPG é um parque de diversões itinerante. Assim como o circo, ele precisa se reinventar. Assim como o circo, ele precisa se manter acessível para quem está indo pela primeira vez. Mas, ao contrário do circo, ele existe mesmo se for abandonado.

Um MMORPG esquecido ou desativado pode existir pela força dos seus jogadores, que estão dançando sobre esqueletos, mas de toda maneira estão lá se aproveitando de algo mais ou menos palpável, que ganhou vida após ter sido inserido. Existe um esquema de progressão independente das adições novas e pode viver de repetição. O gacha é uma aposta dobrada: só existem os eventos, só existe a força de quem está fazendo o jogo, só existe a expectativa e a sensação meio amarga de que, algum dia que você não quer ver chegar, o circo vai embora.

E é nisso que Bandori condensa algo pelo que passamos, todos passamos, em um formato que vai passar, com certeza vai passar. Talvez demore. Nunca ouvi falar de um gacha que morreu de fato. Love Live comemorou recentemente, segundo duas das minhas melhores amigas me contaram, cinco anos. É um absurdo um jogo estruturado como serviço viver cinco anos, para pra pensar. Bandori mesmo tem uma versão japonesa que está um ano na frente da ocidental.

Bandori - Jogo de Ritmo

Mas é importante você pensar que não existe, na essência do jogo, um ponto final — assim como não existe, para a vida bandida de um circo, um ponto final. E isso é incompatível com a realidade: em algum momento, mesmo que seja quando as estrelas virarem pó, o jogo vai ter que ser abandonado ou desativado. Gachas são jogos naturalmente incompletos, naturalmente interrompidos, e nós estamos todos os dias vendo eles apenas sobreviverem até o próximo evento. Combina muito com a cena de bandas que sua escola ou cidade tinha.

Mas é por isso que a gente aproveita. A gente ia no circo de novo quando ele voltava pra nossa cidade, porque a equilibrista agora tinha uma filha que inclusive ajudava o palhaço. O mestre de cerimônias tinha agora uma roupa diferente. Tinha músicas novas, traziam coisas diferentes de outras cidades. Tocavam uma paródia do novo sucesso do Skank. Isso tudo ia acabar um dia, como acabou. Mas essa angústia não devia impedir a gente de entrar todos os dias no Bandori e ganhar estrelinhas pra guardar pro próximo evento.

Palas

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É o que é, Hicchan~! É o que é o que é o que é!
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