Bater uma bolinha

É engraçado como a bola é o objeto-zero do brincar. Mesmo não sabendo exatamente as histórias do brincar e da bola, não é imprudente dizer que um claramente veio antes do outro. Pessoas e não-pessoas brincam há milênios e mesmo assim talvez não haja nada tão fenomenicamente puro quanto o que acontece quando se deixa uma criança sozinha com uma bola.

Eu não sei o porquê disso. A resposta que tenho é pouco específica e, no mínimo, muito engenhosa: a bola é um objeto de pluri-instrumentalidade emergente. Claro que existem várias bolas e essas várias bolas têm vários formatos e esses vários formatos lhes garantem interações e funcionalidades diferentes, mas elas estão ali escondidas sob uma fina camada cujo lacre é rompido com a fagulha do espírito humano. Parece bobagem piegas, mas dê uma bola a uma criança e ela construirá inteiros mundos, sistemas e estruturas.

Color Switch [(CS) haHA] é um jogo eletrônico e nele o jogador toca a tela (ou clica no lugar certo) para que uma bola dê um pulinho leve. Dando esses pulinhos a bola supera obstáculos e cumpre objetivos, dando uns toques na tela o jogador supera obstáculos e cumpre objetivos. A “bola” – e aqui “bola” entre aspas mesmo, já que sua “bola” pode ser quadrada, o emoji de um gatinho, uma carinha triste e ter muitas outras skins -, pode ter quatro cores num jogo tradicional e ao tocar um objeto de cor diferente ela explode e o jogador perde. A essência do fenômeno ludoúrgico de Color Switch é tão simples quanto o da bola: “o que dá pra fazer com isso?”.

Talvez haja (por enquanto) mais jogos e esportes que utilizem bolas que modos de jogo em Color Switch. Sem nenhum tipo de ajuda consigo listar os seguintes jogos e esportes: futebol de gente normal, futebol americano, beisebol, handebol, voleibol, basquetebol, paredão, aquele jogo idiota em que a bola fica amarrada a uma corda num poste, tênis, sinuca, arremesso daquela bola de metal, bocha, aquele jogo com bola de gude, polo aquático, polo com cavalos, cricket, lacrosse, rugby, hóquei na grama, samuelbol (um esporte incipente que consiste em correr por uma quadra evitando que balões [BOLAS QUE FLUTUAM] toquem o chão). E é extremamente provável que haja muitos outros que deixei de fora, por via das dúvidas fica aqui a seção na qual os editores e revisores podem expor alguma falha ridícula: _samuel bicha______pogobol___________VIDEOBALL_________________________

E pode apostar que em cada um daqueles jogos e esportes variações interessantes e impossíveis foram ou serão inventadas. E isso tudo veio de uma brincadeira com a bola. Com CS não é diferente, de um objeto simples nasce um mundo de jogos. Você pode apostar corrida com outras bolas e ver quem chega primeiro no objetivo, você pode jogar o jogo como um “endless runner”, um jogo com mais ou menos cores que as quatro tradicionais, um jogo à la breakout cujo objetivo é utilizar a bola para destruir retângulos, um jogo em que a bola progride no sentido contrário.

Quando você é conquistado por essas coisinhas, as cores bonitas, as musiquinhas techno repetitivas, o desafio da precisão da jogabilidade, as nuances de cada um dos modos de jogo, não há volta, aquela embaixadinha virtual fica muito doce.

É verdade dizer que Color Switch é um joguinho daqueles pra jogar tempo fora, bobagem mesmo. Mas é uma bobagem tão especial quanto brincar com uma bola.

SamuelPX

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Deus mesmo, quando vier, que venha armado!
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