Como não sobreviver em uma ilha deserta

Quais são as cinco coisas que você levaria para uma ilha deserta? Ao responder aqueles questionários gigantes feitos à mão por meninas da quinta série quando estava colégio, sempre colocava que levaria água, uma faca, chocolate, meu cachorro (meu falecido companheiro Link) e um livro.

A água acabaria ou se contaminaria em dois dias; a faca acabaria perdida ou enferrujada pelo sal do mar; o chocolate não duraria; o cachorro fugiria e seria comido por babuínos selvagens; o livro seria usado como combustível emergencial para qualquer tentativa de fogueira que, com certeza, não vingaria. Um mês até a morte por inanição, ou ainda uma semana para morte por desidratação, ou ainda algumas horas para morte por exposição ao clima; picada de insetos; ataque de predadores; tédio.

Quem vem com esse papo de que o ser humano é construído para sobreviver é porque nunca viu o que meninas da quinta série consideram prioritário. Bússula não vou saber usar, mapa vai estar sempre de cabeça para baixo, S.O.S. na areia da praia é pra quem tem visão matemática e, sinceramente, deus que me livre. Jogue todas elas em ilhas desertas espalhadas e as veja comer chocolate com o cachorro e então morrerem por intoxicação alimentar.

Isso se imaginarmos o cenário como uma ilha deserta real, estilo Lost, e não aquelas que tem três metros quadrados, um coqueiro e uma toca de caranguejo como nos Looney Tunes e nos comerciais da Redbull. Diria que deviam demitir quem teve essa primeira visão de mini-ilha e vendeu para milhares de crianças inocentes a ideia de que conseguiriam sobreviver em um lugar que com certeza é coberto toda noite pela maré, mas essa pessoa provavelmente já está velha, morta e pulverizada. Então sempre visualize uma ilha real, na qual você está encalhado sozinho por circunstâncias misteriosas. Não sendo uma menina da quinta série por um segundo, pense e responda: quais são as cinco coisas que você gostaria de ter, por coincidência, no bolso, ao acordar, confuso e ardido do sol, em uma ilha deserta?

Considere suas experiências passadas. Considere seus conhecimentos inatos e adquiridos naqueles anos de Lobinho, ou pelo menos daquela vez em que você abriu a latinha de cerveja por baixo com a chave do carro. E então considere a Pirâmide de Maslow, coloque do lado da pirâmide alimentar e pense: quantas dessas coisas você consegue suprir? E por quanto tempo? Lembre-se de subtrair os números da solidão, do dente cariado, da apendicite. Lembre-se de todos os exercícios que ficou com preguiça de fazer, de todas as alfaces que não comeu porque dava muito trabalho lavar, daquela vez que cuspiu uma formiga que estava na sua bebida ao invés de agradecer pelas proteínas e engolir.

A resposta certa é que não importa o que você leve, você não é o Tom Hanks. Não há guia no WikiHow no mundo que possa realmente ajudar. E é por isso que não nos perdemos em ilhas desertas nem fazemos pactos com O Mal em nome da ciência. Recarregamos nossos celulares até a bateria explodir, andamos no limite de velocidade, rezamos pro papai do céu antes de dormir e, caso ainda assim o avião caia, nos dignamos a morrer carbonizados antes mesmo de tocar o solo. Deixamos a experiência da ilha deserta para os videogames, como deixamos a exploração de cavernas, o treinamento avançado de galos de briga, a espionagem, e as guerras atômicas espaciais.

Don’t Starve, então, é um jogo sobre coisas que seres humanos são ruins em fazer. Imagine só você, aí lendo e coçando entre os dedos dos pés, criando uma armadilha para pássaros só com teias de aranha e força de vontade? Tecendo seu próprio chapéu de búfalo com pelos de búfalo e saliva? Criando estátuas mágicas com carne crua e pedaços dessa sua barba imunda? Nunca na vida. E não só porque você não é feito para isso, mas porque a soma das coisas não permite que essa sobrevivência com pedras e graminhas aconteça.

Poderia entrar em um discurso longo sobre como videogames servem bem pra isso, pra fazermos coisas nas quais num geral somos ruins, mas existe uma magia especial em Don’t Starve (e em seu irmão espacial em desenvolvimento, Oxygen Not Included). É muito satisfatório ser bom e habilidoso em coisas que não deveríamos ser bons e habilidosos principalmente quando essas habilidades são alienígenas também dentro do jogo. Em uma terra que não permite a ligação natural de a com b porque esse b é de bruxaria, realmente a melhor solução é trocar sapatos por ouro com porcos gigantes e torcer para as cavernas serem um lugar menos ruim que o esperado (não são).

Don’t Starve é um survival, só que real. Você não vai lá e faz uma casa e faz umas roupas e faz umas armas e vira o rei da selva; você junta uns gravetos, umas graminhas, faz um chapéu de palha e agradece porque é isso aí, nesses próximos cinco minutos. Em seguida a chuva leva seu chapéu embora, lava sua fogueira, desenterra seus vegetais, e teria sido uma ideia muito melhor fazer sua base mais perto daquelas árvores ali. Com o tempo você aprende, naquilo de morrer pros pinguins e pras abelhas assassinas e eventualmente entender como as estações funcionam. Os dias passam e se tornam longos e curtos, seu acampamento vai aumentando, o mapa vai se tornando mais vasto, até que chega a hora de dormir e você, ao contrário de Wilson,  tem até travesseiro.

Don’t Starve não vai te treinar para sobreviver em lugar nenhum, seja no outro mundo ou no mar ou em um meteoro perdido no espaço. Melhor seguir o wikihow. Mas, se perguntarem de novo quais são as cinco coisas que você levaria para uma ilha deserta, a resposta sempre pode ser pauzinho, graminha, pedrinha, tronco, cenoura. Quando nos tornamos bons em coisas que na verdade somos bastante ruins, conseguimos ver os dias subindo e subindo e seu acampamento aumentando e sua sanidade perigosamente baixa, mas nunca baixa o suficiente, e a resposta certa se torna sim, graminha e pauzinho. Na noite escura e cheia de temores, se você sobreviver até ela, em que as aranhas ficam corajosas e sambam na sua cabeça, essas coisas valerão muito dez, por mil, e salvarão não só a vida de Wilson, mas a sua também. Está nos videogames então é real, e se fomos feitos para algo, foi para tornar coisas pras quais não fomos estruturados a fazer realidade.

Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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