Como ser o melhor aluno da escola

O colegial é uma bosta horrenda. Não se sinta especial se essa época da sua vida foi um lixo, pois ela é assim pra todo mundo: sendo diferente, sempre tem alguém para esfregar isso na sua cara e tentar te deixar mal com o fato; sendo padrão ou popular, passa por uma constante fase de autoafirmação pública. É uma fase cheia de dramas de relacionamento e sentimentalidade exagerada, você odeia todos e ama todos, está começando a descobrir as coisas tendo a certeza que sabe de tudo. Não pertence a ninguém e a nenhum lugar.

Você fica preso naquele ambiente holístico-social onde não entende bem o fluxo das coisas, mas precisa nadar constantemente para não ser levado pela correnteza. É como criar sua própria história onde você é o protagonista, escolhendo algum papel já gasto e caricato para representar. Pode-se ser o revoltado, a vítima, a tímida, o sobrevivente, enfim, diversos arquétipos que infinitos atores já atuaram antes.

Não importa o que escolha ou calhe a ser, o foco está em você ser a estrela principal do show. O único problema nesse plano até então é acabar descobrindo que para toda narrativa se tornar mais dramática e tensa precisa-se de um antagonista muito forte para contrastar com essa luz imensa que é você. E eu não estou falando daquele cara inteligentíssimo de outra escola, adorado por todos, que gosta de bancar o fodão, mas é “pau no cu demais” na sua visão –  esse é seu anti-herói coadjuvante. Tem que ser alguém forte de verdade, que não tem a mínima possibilidade de estar certo sob qualquer ângulo concebível, alguém que a gente tema tanto que é assombrado pela inevitabilidade de acabar virando aquilo: um adulto.

Seja essa pessoa um dos seus pais, um professor ou diretor, ou algum político qualquer, você vai odiar essa pessoa como se fosse Hitler (e vai desenvolver uma habilidade especial de comparar tudo de ruim a Hitler, também). Não verá a menor justificativa para qualquer uma de suas ações, que são todas péssimas, pois esse personagem da sua história é o demônio encarnado sem sombra de dúvidas. Esse ser é tão vil que apenas faz de você mais merecedor da sua pequena vitória diária por conseguir permanecer vivo estando no mesmo planeta que essa força maligna. Agora você já é um herói de verdade.

“Mas herói também não. Não é bem assim, ser herói é muito chato. Eles são muito babacas, tipo o Capitão América. Aff, América? Maior país horrível; povo egoísta e retrógrado; e aí criam um Capitão (militar – detalhe) que é o símbolo da justiça, com as cores da bandeira dos Estados Unidos no uniforme. É brincadeira, né? As cores do nosso país ninguém quer vestir! Mas, enfim, herói não. Tem que ser algo bem mais sombrio e descolado, tipo aqueles justiceiros, agindo sempre por debaixo do pano e escapando bem debaixo do nariz das autoridades, que obviamente são opressoras. Autoridade, sinônimo, né?”

Ok, justiceiro então?

Esse seu jeito sinistro e esguio não enfrenta a batalha de cara, pela porta da frente, ele se escora por paredes e se arrasta por corredores para chegar lá no fundo do coração do seu inimigo e tentar quebrar justamente ali, no ponto mais bem guardado e profundo. Você deduz que com certeza irá abrir a mente de seu algoz, mostrar como a sua ideia e o seu mundo são os certos, tentar transformar o seu redor em algo mais bonito e especial, provando o quanto você é importante e o quanto sua existência vale para o universo. Seu ataque vindo das sombras da irrelevância irá moldar todos sob sua visão perfeita e plena, que você descobriu no começo da semana passada.

Acaba portanto formulando o plano perfeito sobre como as coisas devem ser, sobre o que você é e sobre o que não quer ser. Mas quando dá um tempo para calcular percebe que, no meio de tanto pensar e introspecção, você já decidiu um monte sobre sua vida e seus objetivos sem nem mesmo ter passado um mês do ano letivo.

No meio da jornada, coisas que se tornarão óbvias anos depois se revelam como surpresa. Você descobre, por exemplo, que nem só por que escolheu um adulto como antagonista que todos eles são iguais, e pode até demorar demais para descobrir que alguns deles podem ser seus parceiros ou aliados. Percebe que mesmo com algumas pessoas te apoiando as coisas ficam difíceis de suportar, afinal tudo deve ser muito penoso e sofrido, para aumentar ao extremo o potencial dramático da sua vida (ao menos na sua cabeça). Também acaba se dando conta de que a única coisa capaz de fazer todo esse inferno psicológico (que você mesmo ajuda a criar) ficar mais fácil de suportar é os amigos.

Eles aparecem na sua vida de diversas formas, e te tocam com diferentes intensidades. Tem um que você simplesmente deu oi um dia na escola e desde então nunca mais pararam de se falar. Tem também aquela menina que você nem gostava tanto dela da primeira vez que viu, tinha até uma leve implicância, mas depois que conheceu melhor decidiu que era “parça” demais. Eles estão ali do seu lado, alguns todo dia na sua casa, outros só aparecendo quando você dá um rolê por aí; mas sempre dispostos para o que der e vier.

Todos esses amigos também são protagonistas de uma história que estão bolando, cada um deles tão extremamente machucado e oprimido quanto você. Então acabam se espelhando um no outro e sabem o quanto é difícil o mundo ali naquele momento que só vocês entendem. Esse tipo de união faz desejar sempre estarem lutando juntos por mais um dia, para tentar suprir um ao outro mais um dia; só para poder lutar de novo lado-a-lado. Apenas consegue aturar mais um passo se apoiando neles, e usa a perna boa para servir de apoio quando for vez deles de dar o passo. Não sabe quanto tempo vai ter ao lado deles, então vive só por hoje, sem pensar em como vai ser quanto não estiverem lá.

Mas quase na mesma intensidade que você sentia o tempo passar vagarosamente com tanta coisa acontecendo, em meio às batalhas que pareciam não dar em nada, você chega ao fim do terceiro ano, que por sua vez é o fim de tudo. Aí olha pra trás e mesmo com todos esses bocados que passou, acaba sentindo que não foi tão horrível assim. Na verdade, com esses amigos do seu lado você até conseguiria passar por tudo de novo. Sente que não mudaria nem sequer um segundo da sua vida.

Quem sabe algumas dessas coisas nem tenha sido verdade na sua vida. Às vezes nem amigos teve durante essa época e era uma pessoa solitária carregando o mundo nas costas. Seja como foi, com certeza você criou uma máscara de como a realidade era; algo que não era você, mas como você gostaria que fosse. Essa máscara, e a história que ela gera, adornadas com outros personagens que encontramos ao longo desse período, colorem vívidamente uma época que de outra forma seria cinza. Na pior das hipóteses, essa camada de tinta faz você começar a próxima fase da sua vida pelo menos com uma pontada de esperança: nada pode ser tão difícil ou estranho como o que você viveu até ali. Mesmo que mais tarde isso descubra-se uma mentira, é no que você acredita naquele momento e é isso que importa.

Esse truque inconsciente acaba nos fazendo acreditar que o colegial nem foi tão ruim assim, pois todo mundo ao seu lado, coletivamente, também queria acreditar que não era tão ruim assim. Essa crença faz tal período soar forte, faz parecer que o colegial não é uma bosta tão horrenda assim. Por que na nossa cabeça cada um de nós fomos, individualmente, o melhor aluno que poderíamos ser do nosso próprio jeito.

Quero dizer, não é à toa que a gente gosta de Persona 5, né?

Hynx

Hynx

Gosto muito de videogames, mas gosto ainda mais de ficar pensando qual a próxima metáfora idiota que eu vou criar para exemplificar enchendo linguiça meus pontos de vista que poderiam ser resumidos em um parágrafo ou dois. É um vício nojento, sim, mas no final das contas eu acho que fica bem legal. A galera gosta...
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