CONTINUE INDO, INDO

Absolut Drift é o tipo de jogo que me interesso enquanto navego despretensiosamente por lojas de jogos digitais e compro só para depois descobrir que é uma versão diferente de um jogo que saiu no mínimo três anos atrás para PC.

Perdão, pessoas, mas eu fisicamente não me permito clicar duas vezes no executável da Steam desde 2010.

Eu consigo apenas descrever Absolut Drift como o paraíso para as pessoas que iam assiduamente aos eventos de corrida de carro como os quais meu pai visitava quando eu tinha 6 anos. Tem até uma deidade que te recebe no começo do jogo falando sobre o Drift ter sido criado por um japonês que bebeu saquê demais – que desejo muito que seja verdade; aliás, pra mim já é.

Você controla um carro por cenários e menus com o objetivo de sujar tudo de pneu queimado e de criar movimentos contínuos saborosos. O jogo também não te para pra te ensinar a jogar, ele faz isso enquanto você dirige. Ele espalha dicas escritas pelo cenário; coisas como “DICA: tente girar o volante para o outro lado durante o drift para equilibrar o carro” ou “Você está batendo muito. O foco aqui não é velocidade, é controle”. As dicas são tão bem postas e naturalmente parte do cenário que às vezes você não percebe elas imediatamente, só depois de algum tempo dirigindo naquele mapa. Elas pulam na sua percepção como se alguém estivesse do seu lado e decidiu te falar aquilo. Quando isso acontece você só consegue ter em mente o momento em que seu pai te deu o carro para dirigir e ficava te sinalizando o tempo todo o que você estava fazendo de errado. Calma pai, eu vou tirar essa carteira!! Prometo!

Quando você inicia uma pista em Absolut Drift, você precisa se acostumar com ela. Por mais que saiba como o carro funciona, é preciso aprender como empregar esse conhecimento naquela pista com os objetivos que você tem. Repetir é parte essencial, mas não só como absorção da prática. É um exercício constante de memória muscular e meditação.

Você acelera com R2, freia e dá ré com L2, puxa o freio de mão com Bolinha e troca de música com R1 e L1. O mais importante, entretanto, é o analógico. Com o analógico você não controla um volante. É como se no paraíso você controlasse de uma forma pragmática, mas ao mesmo tempo mais … mágica o carro. Pragmágica?

Continue o movimento. Freie um pouco. Acelere só um pouquinho pra manter a estabilidade. Bata. Falhe. Recomece. Mantenha o equilíbrio e o controle pelo maior tempo possível. Pense. Faça os números crescerem. Esse jogo não é relaxante por si só, ele combate estresse com outro tipo de estresse. O foco de gerar ansiedade com esse jogo é tão magicamente confortante que depois de um tempo você está envolvido o suficiente naquilo para que o estresse se neutralize. A repetição afunda em você. Absolut Drift é white noise para pessoas que não conseguem ouvir.

Absolut Drift é exatamente o tipo de jogo no qual, enquanto dirigindo, você acaba criando desafios pessoais – principalmente no modo Free Roam. Será que consigo fazer três giros de drift seguidos? Quantos giros será que consigo fazer antes de cair se pular dessa rampa? Várias dessas perguntas surgem na sua cabeça como pisca-piscas numa árvore (feliz natal!). Você consegue algumas, outras não, até que a sua mãe pergunta “menino, tu não vai trabalhar?!” e você responde “como assim, mãe? só amanhã de manhã.” e ela responde “bom… já são quase 6 da manhã, melhor você ir fazer seu café”. O que aconteceu? Como que cheguei até aqui? Por que que estou até agora fazendo isso? Será que consigo terminar essa pista antes de precisar correr pra pegar o ônibus?

(A trilha sonora de Absolut Drift também é assustadoramente boa, ouçam).

 

Fellipe Mendes

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O estoico romântico
Fellipe Mendes

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