Se livrando das cinzas

Anteriormente, quando a primeira instância do ciclo foi apresentada, tudo à sua volta, em uma primeira impressão, ilustra a jornada do personagem como algo a se ter orgulho, um objetivo a se alcançar a todos os custos. Por isso você é chamado de “O Escolhido entre os Mortos Vivos” e quem irá trazer uma nova chama ao reino de Lordran. Não muito após a primeira impressão, lhe falam que esse título é dado para qualquer morto vivo que adentra ao reino de Lordran, e você é só mais um conquistado pelos floreios da Profecia. Acaba virando uma provação, essa jornada. Se essa pessoa não me considera um escolhido, então vou mostrar para ele como posso me tornar um. Eventualmente, após diversas mazelas, você se torna, de fato, o Escolhido (aparentemente) em seus próprios termos, optando pela opção que considera o melhor futuro ao mundo.

A maneira como os mundos de Souls se comunicam com você é através da decadência: não se conhece um reino em seu esplendor, apenas o que sobrou das eras anteriores à sua presença lá. Quando esses jogos querem comunicar que algo existiu em determinado lugar, é através de cadáveres, detalhes na arquitetura como estátuas, resquícios de outras áreas. Dark Souls 1 está o tempo todo te convencendo a escolher entre duas opções. Talvez por causa disso os cenários sejam lindíssimos, mas ao mesmo tempo à beira da ruína.

Então, se chega ao fim das eras. Não só você, mas vários outros passaram pela mesma jornada, talvez em outro reino, em outra era, com outras decadências a serem exploradas. Alguns desses se mostraram dignos de reacender as chamas do mundo e postergar o fim. A representação desse fim, a Era Das Cinzas, é a desistência daqueles aptos em continuar a Era Do Fogo. O mundo está acabando e para isso o sino é tocado, agora sem profecias de escolhidos, apenas indiferença — você não pode se tornar apto para trazer uma nova era ao mundo por si, mas a partir daqueles que foram anteriormente. Ao contrário da primeira vez, onde todas as coisas eram surpresas, aqui os temas são sempre reforçados pelas pessoas que frequentam seu templo central, pelas associações entre ciclos anteriores; e o mundo atual, pelo estado em que os chefes se encontram.

A convergência de todos os acontecimentos é um tema central. Existe uma representação física disso, com o mundo se tornando um lugar onde todos os passados literalmente se reúnem em volta de um ponto só. Por isso são momentos tão importantes encontrar as ruínas de Firelink Shrine, aquele do primeiro ciclo, afundado na área onde se enfrenta os Demônios de Dreg Heap, a utilização da Storm Ruler, as árvores de gigantes, ou o quadro em Irithyll. Finalizar a jornada significa encontrar, também, a convergência de todos aqueles que passaram pelas provações anteriormente e enfrentar, cara-a-cara, todo o legado que foi criado através dos Mortos Vivos e do adiamento do fim Era Do Fogo.

Talvez por causa de toda essa preparação, o momento de encontrar Filianore, a última filha de Gwyn a ser revelada, seja um dos pináculos narrativos dessa história. Você, o indiferente, inútil, símbolo da maldição dos Mortos Vivos, entra em contato com a última peça que mantém o mundo em uma forma viva, de certo modo, e o contato revela o verdadeiro estado de tudo. São cinzas. É onde todas as peças se encaixam, após encontrar a cidade no centro de tudo e conhecer as origens das maldições que assolam a Humanidade (e, que, talvez, sejam a essência da mesma), aquela garota segurando um ovo representa a ligação final a ser feita nessa história. Os progenitores da humanidade, suplicando por ajuda enquanto um humano, com origens parecidas com as suas, se alimenta dos mesmos a fim de absorver a suposta alma originária de todos os problemas dos mundos.

Acabar a jornada, enfrentando a alma das cinzas e utilizar-se dos antigos lordes, significava, tal qual a primeira vez, decidir um novo futuro ao mundo. Dessa vez, existe a terceira opção, onde pode-se abraçar todas as origens e maldições da humanidade, tomar as chamas para si mesmo, e começar, verdadeiramente, uma nova era; quebrar o ciclo.

Traçar o começo de tudo, encontrar esse outro Humano, absorvendo o começo de tudo, mostra uma opção que não é sua. Pigmentar a alma, e transformá-la em um novo mundo, uma nova casa, que provavelmente um dia irá também encontrar o seu final, talvez seja a decisão ideal. Sinceramente, o personagem parado naquele sótão observando a criação de um novo mundo parece o mais apropriado. A graça é que, em qualquer um dos caminhos, nós nunca presenciaremos o futuro.

Lucasq

Lucasq

A primeira vez em que ouviu Kyary Pamyu Pamyu o influenciou tanto quanto a primeira vez em que vestiu uma roupa preta. Gosta de jogos num geral mas quando dá pra fazer combo é especial.
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