Difícil crer que estou escrevendo sobre Mario na madrugada do meu aniversário

Sou um grande adepto da opinião de que as pessoas, principalmente fãs de video-game, não sabem o que querem. Isso não significa aceitar tudo que as empresas querem te enfiar goela abaixo, mas sim colocar as ideias mirabolantes de lado e ir experimentar algo novo com a cabeça limpa.

Amo Super Mario 64, amo Super Mario Sunshine de uma forma que eu entrava no jogo só pra experienciar o Hotel à luz do pôr-do-sol de Sirena Beach ou nadar em Jolly Roger’s Bay mais uma vez. Também amei Super Mario Galaxy 1 e 2, mesmo quando percebi que estavam cada vez mais se distanciando do que eu gostava nos jogos anteriores e quando foi cortado de vez em Super Mario 3D Land/World (dos quais, claro, também gostei). É aí que mora a questão: desde 2003 eu sentia falta de um novo Mario 3D de exploração, fases grandes e muito o que fazer e procurar, mas se essa fosse a única coisa que me preocupasse, eu não descobriria que o Galaxy 2 podia se transformar facilmente num dos meus videogames preferidos, ou a alegria de jogar o 3D World co-op. Talvez seja por causa disso que Super Mario Odyssey chegou ainda mais gostoso.

Todo o lore por trás da revelação do jogo foi muito peculiar: a primeira aparição dele foi no trailer inicial do Switch; não tinha nome e nem nenhuma indicação do que era pra ser aquilo na época. Não foi nem apresentado, só apareceu numa TV de relance. A partir daí os próximos dois trailers cada vez adicionavam mais camadas pro jogo – Mario agora vai andar numa cidade com pessoas proporcionais e pode atirar o chapéu, show de bola! Mas peraí, agora o Mario pode possuir o corpo de qualquer inimigo ou entidade que quiser e o jogo tem uma música tema com vocal e vai ser uma viagem pelo mundo, que porra é essa. Cada vez que as pessoas achavam que haviam entendido o escopo total do jogo, sempre tinha mais coisa pra apresentar (foi algo que durou até o dia que o jogo lançou). Inclusive utilizaram a exata mesma tática com Breath of the Wild mais cedo esse ano. Não duvido que se torne uma tendência para a Nintendo.

O que importa mesmo é que eu tinha tanta emoção misturada quando liguei o jogo que não sabia nem reagir ou o que sentir e só agora escrevendo sei mais ou menos o que aconteceu. Na verdade, tenho um costume estranho de ficar com medo de jogar jogo que tô muito ansioso logo de cara, mas acho que o fato de ser 2 da manhã e eu ter medo de exagerar na hora de dormir também contribuiu, e com razão, porque naquele dia fui dormir 6 da manhã. Super Mario Odyssey é um jogo onde você joga com o Mario e no qual ele atira o chapéu e pode controlar o inimigo. Eu já sabia disso, já sabia do dinossauro nas primeiras fases, já sabia resolver alguns puzzles, então porque diabos tava sorrindo maniacamente enquanto jogava?

Super Mario Odyssey não satisfaz exatamente meus desejos que ficaram desde a época do Super Mario 64 e do Sunshine, mas não porque ele é linear ou algo assim e sim porque aqueles jogos eram o que eles eram e Odyssey é o que é. Por mais que eu sentisse falta de missãozinha diferente pra pegar cada objetivo (embora isso apareça em menor escala), achar uma Power Moon simplesmente por se aventurar ou tentar algo inusitado é uma experiência dele e só dele, o universo todo ali foi feito pra ser explorado e é o mínimo que o jogo pede de você. Se eu fosse dar uma porcentagem que só faz sentido na minha cabeça pra Super Mario Odyssey, diria que ele é 70% exploração e 30% Plataforma. Pra referência, o mais alto em exploração é o Super Mario Sunshine (80%) e o mais alto em Plataforma é o Super Mario 3D Land (95%).

Mario é sempre conhecido pelos controles, e não tem nada de errado com eles em Odyssey, fora eu sentir necessidade de ter que mudar a velocidade da câmera no início. É engraçado, confundi o jogo no início com vários outros, desde Mario 3D World nos controles até Breath of The Wild enquanto estranhava porque o jogo estava me dizendo o que fazer. Depois esqueci completamente de tudo isso, não importava mais. Eu só queria pular por aí, sentir o rumble do controle emular cada pulo de forma sutil e descobrir coisas novas pra fazer. E vestir o Mario. Não posso sequer mentir que não ficava animado pra saber qual roupinha a próxima fase ia trazer, a maioria delas sendo referência a roupas que ele já usou por aí, seja em comerciais ou até em spin-offs, cada uma delas fazendo parte da história da série e sendo o passo mais natural pra se celebrar o grande ator pra qualquer papel que é o Mario.

Quando você percebe, está no arranha-céu de New Donk City tirando foto ou fazendo qualquer bosta só porque é gostoso se mover por aquele mundo. Eu fazia muito isso no Sunshine, gostava de ligar o jogo, não fazer nenhum objetivo e só ir vendo e pensando em cada lugar de Isle Delfino (particularmente gostava muito de Piña Park, Sirena Beach e Noki Bay). Odyssey te leva pelo mundo e, embora não tão conciso e confortável como Delfino, te faz viajar igual. Aliás eu fazia isso no GTA San Andreas também, e ainda faço em FFXIV. Talvez eu só goste de vagabundear por espaços virtuais mesmo, mas se o jogo torna gostoso sair por aí vagando quem sou eu pra recusar tal doce tentação.

Tal tentação é incentivada pela gama de movimentos do Mario. Há uma discussão antiga de que quanto mais o tempo passava menos atlético o Mario era. Ficava cada vez mais difícil sair do caminho que o jogo havia decidido pra você. De fato, de Super Mario Galaxy em diante a ideia era uma experiência mais linear e direta, com 3D Land levando isso ao máximo quando incluiu um timer em cada fase. Entretanto, Odyssey faz jus ao que veio antes: nunca foi tão bom ignorar seções do jogo simplesmente porque você pode. O importante mesmo é que se tem total liberdade de resolver o desafio como quiser, não num estilo BOTW onde há varias soluções na qual você precisa ser criativo, mas em um estilo realmente Mario (agradeço a meu amigo Rezende do Judog por me ajudar a enxergar isso com clareza). É um jogo mais direto, que te dá uma única solução, mas também convida a pensar – “Mas será que se eu não pular direitinho assim não da certo?”. E dá, sempre dá. É possível pular partes mais lentas de captura de inimigo apenas sabendo como, onde e quando pular, com exceção de raras partes fixas obrigatórias, como chefes.

Lutar contra chefe em Mario é geralmente meio sem graça e genérico, mas Super Mario Odyssey talvez tenha o que possa chamar da ODISSEIA dos chefes de Mario. A grande maioria é de altíssima qualidade, e curiosamente os melhores chefes são os que necessitam que você use a habilidade especifica de um inimigo para vencê-lo, sendo os mais criativos temática e mecanicamente da série. Os chefes que usam só o Mario de fato são mais tradicionais e meio chatinhos, com exceção do Bowser – Odyssey definitivamente ganha o troféu de melhor luta contra o Bowser da série (por curiosidade, a pior é a do Sunshine). Tal qual Mario + Rabbids, Odyssey trabalha pra acabar com o silencioso porém real UNIVERSO ESTÉRIL que a série ganhou desde o Galaxy. Sempre me identifiquei mais com o universo do Mario que criavam através dos RPGs e outros jogos do que a série principal (exceção: mais uma vez, Sunshine), mas Odyssey faz questão de beber de basicamente da mesma fonte e ir até um pouco mais além. O mundo é vivo e variado artisticamente, os dialogos são tão engraçados quanto os de um Paper Mario ou Mario & Luigi, e o jogo nunca perde, ou esquece, a essência do que é Mario.

Fiz 100% do jogo em uma semana, e mesmo assim ainda entro nele de vez em quando pra inventar qualquer coisa pra fazer. Não sei se isso é mérito do jogo ou doideira minha. Talvez um pouco dos dois. Escrevo pra soltar meus sentimentos, mas também pra ver se alguém consegue entender ou se interessar pelo que senti. Se isso acontecer com esse jogo, sinto que terei completado a etapa final da minha jornada com ele.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
Luiggi

Últimos posts por Luiggi (exibir todos)

Tags: