Escute o Chamado

Desde 2005, em momentos esporádicos da minha vida eu escuto um chamado, que bate assim meio sem querer mas é único e inquestionável, impossível de não ser respondido. Sempre que sou assim chamado eu respondo de prontidão, como ocorreu mais cedo essa semana, e logo estou de volta em Azeroth ou qualquer uma de suas inúmeras ramificações e/ou buracos que surgem com frequência na geografia local.

É difícil explicar os motivos do meu constante retorno, mas a ideia que mais se aproxima de definir uma razão para tal é exatamente essa sensação de que eu estou voltando para algum lugar. É realmente um mundo que está lá vivendo com todas as suas tramas políticas e pessoas de renome exercendo influência e moradores trabalhando para que todo o sistema funcione perfeitamente, mesmo quando eu não estou lá. Não bate aquela tristeza de ter ficado muito tempo longe como acontece em Animal Crossing, pois tudo por lá funciona (quase) perfeitamente sem a minha existência, todas essas existências estão lá vivendo e acontecendo pelo mundo e não por mim.

Pessoas mais chatas podem me interromper com “Aff … mas meu MMO tem isso também”, o que pode ser uma verdade, mas é algo que eu, hoje, não tenho nem como convencer ninguém de que WoW é mais ou faz melhor. Se você chegar lá hoje Azeroth para você vai ser só outro lugar virtual como qualquer outro, enquanto eu sou aquela pessoa que te diria “quando eu cheguei aqui tudo isso era só mato” enquanto a gente dá um passeio de carro metafórico pelo bairro.

Era tudo mato mesmo: chegando hoje e observando Orgrimmar, a cidade mais icônica da Horda, você mal consegue imaginar que ela só tá daquele jeito por causa de uma reforma de emergência da época que um dragão cortou literalmente a porra do continente ao meio. Não sabe a treta que foi para o ocasional Panda estar andando por aquela cidade, nem imagina que antigamente a gente tinha que andar de verdade por ela, nada de sair voando por aí a vontade. Descobre que tem uma mulher no comando da cidade (e de toda a Horda) e não tem nem noção do rolê e drama que foi pra ela chegar até aí. Todo esse impacto histórico em uma única cidade que se transformou e se moldou junto com o mundo ao seu redor sem que você necessariamente precisasse estar ali para tudo isso acontecer.

E essa fraqueza em não conseguir transparecer de maneira crua a sua grandiosidade talvez seja uma das belezas do jogo, pois hoje qualquer um pode começar a jogar World of Warcraft sem saber de tudo isso ou sem passar por todos esses pontos, simplesmente vivenciando os dilemas atuais que o mundo e sua população enfrenta. Você pode não sentir o peso de suas ações ou não saber exatamente o tão profundamente está deixando sua marca, mas está participando ativamente de uma mudança que irá afetar aquele mundo para sempre. Para todas as outras mudanças que ocorreram até ali você acaba percebendo que alguém tinha que estar ali no seu lugar, diversas pessoas coletivamente levando o mundo até o ponto atual onde ele se encontra.

Todas as grandes lutas e confrontos do jogo são uma resolução de algo grande que importa para o mundo: o fim de uma tirania, a queda de um deus, novos pactos e finais de alianças temporárias, o surgimento de novas lendas. As pessoas que participaram de mudanças grandiosas no passado acabam vendo os dilemas atuais como não apenas um mero envolvimento, mas como uma requisição das forças mais importantes daquele mundo para que se tome liderança no próximo passo que aquele universo e sociedades vão dar. Você que já se envolveu antes diversas vezes acaba se sentindo um personagem daquele mundo, tão real e importante quanto alguém que merece uma carta no Hearthstone.

São duas forças quase inacreditáveis que fazem desse universo algo tão único e especial. Quando você não está lá tudo continua respirando e vivendo, dia após dia. Quando você está acaba moldando o futuro daquele mundo. Talvez você tenha lutado em toda batalha que já existiu naquela realidade ou talvez tenha lutado apenas esporadicamente, de qualquer forma que seja você faz parte daquilo tudo que existe.

Transpondo isso para a vida real é impressionante como nos conectamos com o jogo em momentos diferentes da nossa vida, que vai se moldando e se reinventando assim como Azeroth. Esse é o jogo que eu joguei quando estava no final da faculdade só por curiosidade. Joguei também uma vez que eu parei de fumar e nem senti vontade de tanto que ficava conectado. Estava lá quando eu estava desempregado depois de ser demitido de um trabalho de seis anos (e estava fumando de novo). Joguei durante fortes decepções amorosas e joguei durante os preparativos do meu casamento. Hoje eu estou em um momento da minha vida completamente diferente de todos esses de antes, que eu nem mesmo sei definir, mas que provavelmente irei lembrar quando eu voltar novamente para o jogo em uma situação futura.

Eu sei que um dia tudo isso irá acabar e World of Warcraft vai ser um mundo para onde eu não vou poder retornar nem se eu desejar, mas até que isso aconteça, enquanto esse universo precisar de mim e continuar me chamando, estarei sempre esperando seu chamado e pronto a responder.

Hynx

Hynx

Gosto muito de videogames, mas gosto ainda mais de ficar pensando qual a próxima metáfora idiota que eu vou criar para exemplificar enchendo linguiça meus pontos de vista que poderiam ser resumidos em um parágrafo ou dois. É um vício nojento, sim, mas no final das contas eu acho que fica bem legal. A galera gosta...
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