Florença, 2018

Uma vez escrevi que se apaixonar é reviver as cores do mundo, respirar de novo, descobrir um mistério insondável no outro; se apaixonar é como a morte. Sigo afirmando, de forma sincera e pessoal, essas palavras. Em um mundo de casca e fumaça, em um infinito de risadas destoantes e sacos de lixo, se apaixonar é relembrar o sabor da infância. Viver pelo outro é como viver para si, e aquela rotina acachapante de um pé na frente do outro toma forma, toma propósito, porque ao menos no fim do dia existe um motivo real para se voltar para casa.

A melhor e pior parte de ser humano é ser um bicho social, e não importa quem você seja ou o que você diga, a solidão corrói. Precisa-se de uma contraparte, não romântica mas principalmente companheira, para que os fatos tenham significado, as lembranças tenham risadas, as vitórias tenham comemoração. E precisa-se de uma contraparte também para prosseguir como criatura, como espécie, como peste. E esses dois fatores geram a codependência que o relacionamento produz, das mãos dadas e da trilha que só pode ser trilhada quando não só. A contraparte permite a descoberta, a visão da utilidade e do caminho real de si mesmo; a contraparte aguenta nos ombros a tempestade, na confiança que existe uma calmaria.

Essas coisas.

Pode-se esperar e pensar e criticar diversos aspectos sobre jogos que são expressões de si, assim. Uns são bem construídos, outros não, mas todos têm em comum esse gancho, essa sensação de pertencimento não a um grupo específico, nem a um tema que só lhe toca, mas à humanidade. O amor, e ainda maior, a amizade, são os mais humanos dos sentimentos. Seja pelo outro, seja por si. E tocar essa corda em você, durante o tempo de jogo, nos faz ressoar juntos. Mesmo que ninguém queira ressoar com ninguém.

Florence, como a cidade, como a flor, nasce e morre nessa essência de dar ao outro significado, mesmo que não se saiba o seu próprio. Como jogo curto, visual novel, experiência narrativa interativa, teatro, reconta essa luz e cheiro e cor que é o amor, o primeiro ou o segundo ou o último, e o tufão cruel que é o término. Não tem magia, nem milagre, nem situação inusitada na qual podemos apenas sonhar em estar.

Estar com o outro é fácil; estar com si mesmo é pedregoso, difícil. Florence, que faz você juntar balões de fala até que eles sejam plenos, tornar a casa de um a casa de dois através de objetos, escolher destinos de viagem, destruir o coração dos personagens pelos encaixes pontudos das palavras, somente replica essa mesma história de sempre. Eu vivo, você viveu. E é feliz em passar sem palavras, somente em cores e expressões, essa trajetória de aprendizado, nostalgia e eventual tristeza.

O outro é uma surpresa, um mistério, e você é uma caixa fechada que talvez se abra com o toque certo, a ideia correta. Ou talvez, só se abra quando o outro partir, e quando você se partir. Florence, a personagem, renova sua vida pelo relacionamento com Krish, e consegue finalmente ver no mesmo de sempre os detalhes bons, os detalhes bobos e puros que fazem o dois virar um.

Florence, a personagem, detesta sua vida pelo não relacionamento com Krish. Aqueles meses que podem ser anos que podem ser milênios são a parte mais importante de tudo que já existiu, e, se é isso que resta, como fazer para tornar o um todo de novo com só esses pedaços?

Florence, a personagem, descobre que pode, sim, ser mais do que foi em todos os vinte e poucos anos em que não foi nada, mas não por não ter mais Krish. No fim, ele se torna não a escada, mas uma passagem. Um ponto num mar de pontos comuns que compõem sua vida. Quando deixa de ser farol e passa a ser estrela, o relacionamento não é mais o vetor de mudança que parecia ser, mas sim só memória. E as lembranças que ficam são bem-vindas quando se tornam somente isso, lembranças distantes e sem dor. E ao se tornar uma de novo, Florence é reconstruída não com o que sobrou quando tudo terminou, mas sim de suas partes que realmente importam.

Como humanos, nos tornamos um através de dois, uma ou duas ou infinitas vezes, mas somente uma vez nos tornamos um através de um. Mesmo dividindo o caminho do não só, mesmo esperando a mensagem no fim da noite, podemos ser dois e podemos ser um. Florence, o jogo, retrata assim o ato de união consigo mesmo, casualmente tendo ali também a passagem da contraparte, do outro.

E, assim, você se torna um também.

Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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