icey eu te pego

Não acho que dizer que houve uma “moda de jogos meta” ali naquele período pós-Undertale seja uma constatação muito precisa, devido ao fato de que esse tipo de jogo sempre existiu. Se apropriar do jogador como pessoa ou elemento dentro da história é algo que inúmeros jogos fizeram ao longo dos anos, especialmente através de coisas como o newgrounds, que permitia experimentações mais variadas. É claro que Undertale deu uma impulsionada nisso – mesmo que não nos jogos em si, ele fez as pessoas perceberem que elas sempre foram um elemento primordial dentro do videogame (afinal é ela que controla as ações do personagem) e que talvez tivesse demorado um pouco pra outros jogos tirarem proveito disso que, agora, em 2018, parece muito mais natural do que a distância padrão que jogos focados em narrativa geralmente faziam.

Em Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty (2001) o reconhecimento do jogador como parte do jogo é um tanto sardônico, embora ainda bem-humorado: o jogo te diz que mesmo que as ações necessárias sejam erradas ou imorais, o jogador precisa tomá-las para ele continuar, para ele terminar e para ver o final da história. Em Portal (2007), é quase o contrário: por pouco mais da metade do jogo você apenas vai seguindo o que o “narrador” (GladOS) te manda e resolvendo seus quebra-cabeças, até o momento que percebe que se continuar seguindo tais ordens o jogo não continua. Ele te força a “quebrar” as regras da GladOS pra conseguir escapar da morte e continuar o jogo até o final. Outros jogos como Earthbound (1994), Baten Kaitos (2003) ou o próprio Undertale (2015) usam o jogador como parte essencial das coisas que contam, tornando a coisa de “videogames não existem sem ninguém para jogá-los” um pouco mais diegética em seus universos.

ICEY no entanto segue um estilão mais The Stanley Parable (2011) de fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo. Em Stanley Parable você ia seguindo o que uma voz dizia pra fazer e ela comentava coisas diferentes caso você aceitasse seus conselhos, os ignorasse ou fizesse tudo ao contrário. Stanley Parable foi um experimento interessante – especialmente porque a maior de suas aspirações era simplesmente ser engraçado enquanto demonstrava o quão auto-consciente era quanto às limitações da mídia – tanto que depois teve uma versão mais “completa”, com mais finais e conquistas (também engraçadinhas ou irônicas), lançada no Steam. ICEY é assim também. Teoricamente é um jogo de ação em 2D com uma personagem meio anime enfrentando robôs. Quem nunca tivesse lido a descrição do jogo no Steam provavelmente veria o produto como um negócio meio Mega Man Zero ou aquele Star Wars de Super Nintendo. Quem tivesse lido, entretanto, teria se deparado com o seguinte:

“ICEY, além de ser um jogo de ação 2D, também é um jogo META disfarçado. Conforme você segue a voz onipresente do narrador, verá através dos olhos de ICEY e descobrirá a verdade quanto ao seu mundo. O narrador constantemente lhe pressionará para ir em determinada direção, mas você deve questionar ‘Por que? Por que estou seguindo as ordens dele?'”

O problema em se vender como “um jogo meta” e dizer que dá pra você não seguir o que o narrador diz é que “faça exatamente o contrário de tudo o que eu te disse a partir de agora, ok?” ainda é uma ordem. Quando se está dentro do jogo e ele diz “siga a seta para a direita” logo após dizer “não siga minhas ordens” acaba sendo basicamente um “vá para a esquerda”. Poderia ser só uma bifurcação no caminho porque no fim das contas o jogador ainda tem a mesma escolha, só que enterrada numa camada finíssima de senso subversivo.

Eu não acho que a intenção de ICEY tenha sido só pegar o bonde meta e sentar na janelinha. Tem até uma parte lá no meio do jogo que o narrador te mostra como foram os protótipos do jogo que ele fez durante os últimos dez anos (que eu admitidamente não sei se é verdade ou é só parte da mitologia do negócio) e até faz umas piadinhas com o fato de que na verdade todo o esforço dele não faz diferença nenhuma na vontade de um jogador comprar o negócio. Em outro momento ele diz que acha que você não gosta de matar inimigos e te transporta pra uma fase do que seria um jogo diferente, sem combate, só com pequenos quebra-cabeças envolvendo pulo. Tem outra parte que o jogo te dá um poder que envolve apertar L2 e matar qualquer inimigo com isso e o narrador fala pra você não usar enquanto faz inimigos aparecerem. Caso aperte L2 nesse momento, “CHEATER” aparece na tela. Tem certo charme no negócio, conta uma história relativamente complexa que provavelmente já deve ter gerado alguns dólares para canais que fazem vídeo de lore no youtube, e é curioso ver através dos vídeos do narrador como o jogo saiu de uma versão 2D de Devil May Cry para uma versão 2D de Metal Gear Rising em seu combate que, apesar de só poder ser usado contra um número bem limitado de inimigos, flui de uma maneira bem gostosa, cheio de combos diferentes que precisam ser usados caso você jogue o jogo em dificuldades mais altas.

O problema é que nos momentos que o jogo te conta as mentiras que tem que contar para sua parte “meta” funcionar, ele mente demais. Quando ele te diz que você (jogador, não protagonista) é a primeira pessoa a encontrar tal lugar, ou te xinga de teimoso, ou mostra partes inacabadas das fases, ou finge que está programando um teleporte pra você chegar em outra área por ter se esquecido de fazer isso previamente, a mentira fica clara demais a ponto de te incomodar devido a própria estrutura do jogo exigir que para ver todos os caminhos e bifurcações você precise passar por algumas partes de novo, o que quer dizer que o narrador repete as mesmas surpresas e chacotas que já tinha feito antes.

Também há o problema de que, por ICEY ser um pouquinho aberto no modo como você o navega, pode ser que você encontre certas interações com o narrador antes de encontrar algumas anteriores. Que ele te diga que você está fazendo tal coisa “de novo” sendo que é na verdade a primeira vez. Ao procurar todas as possibilidades de progressão fica bem claro que as partes do narrador foram escritas de maneira linear e depois espalhadas pelas áreas que podem ser acessadas de maneira não-linear.

O narrador é o cerne do jogo: dependendo das escolhas que você faz, ele é inclusive estabelecido como um personagem de verdade, buscando também se desvencilhar das amarras programadas pelos desenvolvedores. Essas coisas, entretanto, não passam de uma maquiagem que não permite de fato ele se desvencilhar, ainda que dizendo que vai fazê-lo, pois se suas revoltas também são previamente programadas todos os momentos catárticos são traídos pelo próprio conceito de te trazer atenção à falta de livre-arbítrio inerente a um videogame do tipo. É claro que seria impossível (pelo menos até então, e tomara que pra sempre) fazer um jogo onde os personagens de fato alcançassem senciência, mas esse não é o primeiro que explora este conceito e a falta de agência (de verdade, material, também previamente projetadas pelo jogo) do jogador nesses momentos o distancia de qualquer coisa de verdade que poderia ter sido dita, e que urge ter sido dita a todos os momentos no jogo. Não há porque trazer o jogador como parte de seu universo o tempo todo para depois ignorar a vida dele como um mero observador, uma peça de teatro que puxa uma das pessoas da plateia para o palco e a deixa de lado, apenas assistindo, mesmo podendo tocar os atores, logo após eles dizerem que só existem por sua causa.

Talvez a melhor maneira de jogar ICEY seja seguir o contrário do contrário, escolhendo ignorar sua descrição e confiar piamente no que o narrador diz, tela a tela, aproveitando seu combate e os robôs gigantes que aparecem no meio da jornada. É o pedaço narrativo dentro do jogo que mais merece ser contado, pela sua simplicidade mesmo, que consegue evitar todas as contradições que aparecem nos outros arcos mais ambiciosos. Em vez do jogo tentar tanto te dizer pra fazer X quando na verdade quer que você faça Y, te bombardeando da maneira mais cacofônica possível e daquele jeito irônico tipicamente moderno, confuso, sob tantas camadas, talvez o melhor fosse poupar o trabalho e não dizer nada, já que mesmo tentando o resultado é igual.

Neozao

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