quando dormir dá XP: um estudo de caso

De tempos em tempos nos entregamos nos braços da nostalgia, e isso é fato. O bom é que, na era da informação, quase todo e qualquer tipo de mídia pode ser razoavelmente consumido de novo e de novo até saciar essa necessidade – é um filme ruim, dois episódios da terceira temporada de Lost, meia hora de Yoshi Story, e pronto, barriga cheia, passou. Só que existe um mal específico, difícil e horrível, que assolou a vida de muitos, e que se torna, aí com essas coisas de não ter tempo pra muito num geral, quase impossível de realmente destruir: a saudade dos MMORPGs.

Às vezes acordo de madrugada e penso que poderia estar jogando Tibia, como em todas aquelas outras madrugadas quinze anos atrás, quando só se podia conectar da meia-noite às seis e olhe-lá-menino-tem-certeza-que-isso-aí-funciona?, e só consigo voltar a dormir quando lembro da vez que desci pra sempre em uma caverna, morri pra um Dwarf Guard e perdi o escudo peba que demorei pra sempre pra conseguir.

Às vezes estou de bobeira no sol com os cachorros e lembro de como o sol é bonito em Gridania, a cidade do meu coração, e como a grama é muito mais verde e enche menos meu saco no mundo virtual de Final Fantasy XIV. Dá até um arrepio, mas o ser racional em mim lembra que custa dinheiro real e mensal pra voltar a ser um Eorzea Boy e, mesmo esse não sendo o maior dos impedimentos, tem sido suficiente até então.

Às vezes estou trabalhando, sonhando com várias planilhas no Excel, e me vem ele, o pior de todos, porque consigo ver todas as builds que montei, todos os passo-a-passo que planejei para uma caralha de personagens das mais variadas classes uparem bem direitinho, nível a nível, cada status e cada skill, e qual equipamento comprar, tudo em planilhas feitas à mão. Não houve um veneno mais bem organizado quando e como tomar cada dose letal quanto a forma metódica com que joguei Ragnarok Online durante anos. Ele sempre representou o conhecido e a ordem, e se estar em paz significa passar quarenta horas tentando dropar Fin Helm em Izlude pra personagem que nem é meu, que seja.

E foi assim que fui parar no submundo do Idle Poring. Faz tempo que caí nesse bueiro dos clickers, esses jogos que você basicamente clica e compra coisas com o que ganha com seus cliques só pra poder clicar mais, em um ciclo vicioso e eterno que não te dá nada em troca além de números. Mas o que é um MMORPG, além de um ciclo vicioso e eterno que não te dá nada em troca além de números e você raramente faz alguma ação diferenciada que não seja castar Storm Gust em tudo que se move?

Idle Poring é a versão clicker de Ragnarok Online, oficial da Gravity e tudo, e digo pra vocês que emula quase que perfeitamente tudo que sinto falta no jogo original. Apesar de visualmente não te dar tudo, por não ter a parte da exploração, o uso dos mesmos bonequinhos para as classes, mesmos inimigos fazendo os mesmos sons irritantes, mesmas duas músicas em repetição, mesmos nomes e mesma lógica simplificada de jogo são direto um soco naquela parte da memória que precisava tanto de estímulo.

E nem precisa ser muito sacado de Ragnarok pra jogar, na real. Apesar de fazer uso pesado de status e job e coisas do tipo, o jogo é mais individual que competitivo, o que permite ser lixo sem sofrer muito na mão dos outros, e tem toda uma opção de só colocar pontos nos recomendados e já era. Então você está lá, dentro das classes limitadas que o jogo dá, e evolui matando vários MVPs com seu amigo poring poporing drops, equipando acessórios bonitinhos.

E mais: no meio de todo o grind desgraçado que foi traduzido, esse sim, bem certinho da versão original para a versão PC, tem um chat maravilhoso, que esse sim, muito superior porque não tem ninguém querendo vender Cachecol explodindo a janela de texto. Olha que maravilhosas amostragens:

Então você coloca ali dez, quinze minutos do seu dia, e fica meses preso no mesmo mapa porque todos os bichos são fortes demais pra levar no combate justo.

No fim das contas, Idle Poring é tão odioso quanto o Ragnarok original, o que é uma benção. Sempre que dá aquela saudade, lembro dos meus companheiros ParaíbaPrêmios e LordDarknessSr e seja lá mais quem for, abro o app, mando meus pets irem upar, vejo minha bonequinha ali lutando pela vida, e me sinto realizada em saber que os números seguem subindo, mesmo na minha ausência.

Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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