A Jornada da Experiência

Esse texto tem também uma versão em vídeo. Assista no link abaixo.

Pokémon é um jogo que gira ao redor de pontos de experiência de uma maneira bem peculiar. Não é só a esperada progressão de aumentar os seus níveis e pontos. Você de fato nunca tem os seus números aumentados, os pokémons sim. Isso impacta na perspectiva de progressão do jogo, já que a qualquer momento você pode voltar e capturar um bicho mais fraco e treiná-lo do zero, e boa parte desse sistema gira ao redor de reconhecer a experiência como um processo constante.

Uma coisa bem pura sobre Pokémon Red, Blue e Yellow é que a proposição de aventura do jogo é a própria mecânica principal; e ela é apresentada em mais ou menos 6 frases nos primeiros 10 segundos depois de se apertar New Game — o que atesta que o primeiro Pokémon está no Top Dez Jogos Mais Autoconfiantes Da História (ou isso ou o fato de que a Game Freak passou metade do tempo de desenvolvimento desenhando pokémons e pensando em golpes e a outra metade tentando fazer o jogo caber no cartucho de Game Boy [mas, novamente, isso só reforça o quão autoconfiante ele é]).

Eu joguei Pokémon o suficiente para me considerar oficialmente Alguém Que Gosta De Pokémon, e esse título é talvez mais do que o necessário para eu poder explicar com segurança o que é Red, Blue e Yellow.

Lembra daquela sensação de pré-pubescente quando você decidiu ir à casa de um amigo que morava no bairro vizinho, então foi andando por ruas que às vezes nem conhecia e descobrindo lugares escondidos pelo bairro, e depois de algumas horas de caminhada acabou esbarrando em um cachorro de rua que começou a rosnar porque decidiu que correr atrás de você era talvez a coisa mais interessante que poderia fazer naquele momento; então você fugiu, riu um pouco de si mesmo e no começo de noite voltou para casa com um sentimento um tanto gratificante de explorar um lugar sem seus pais terem ideia de até onde você foi quebrando o contrato que envolve a limitação de até onde se podia ir sem ter que falar com eles?

Não tem nenhuma maneira mais direta e simples de dizer isso:

Pokémon RBY é o equivalente de explorar o seu próprio bairro livremente quando se é criança.

(Isso se torna ainda mais evidente quando você pensa em como Pokémon Go funciona na sua própria cidade).

Agora, levando em consideração os primeiros momentos do jogo no título desse texto, posso dizer que:

O começo de Dragon Quest V – Hand of the Heavenly Bride é o equivalente de explorar o seu próprio bairro quando criança, acabar chegando nos bairros vizinhos mais distantes e depois ter que pegar um ônibus pela primeira vez de volta para casa À Noite.

Os dois carregam um mesmo tipo de candura ao falar sobre experiência e crescer. Em Pokémon a estrutura das cidades de Kanto faz parte da premissa de jornada; você vê o final desde o começo e volta para ele depois de visitar todas as outras cidades. Cada uma com suas próprias particularidades, diversidades de identidade, atividades e estruturas. O mapa circular é um ouroboros de experiências. Dragon Quest V (que veio bem antes de Pokémon) se envolve nesse conceito completamente e faz a sua jornada ser maior do que só os lugares e os monstros.

Inclusive, seguindo a lista dos Top Dez Jogos Mais Autoconfiantes Da História, Dragon Quest V – Hand of the Heavenly Bride estaria no Top Cinco, em algum lugar entre Super Mario Bros. 3 e Resident Evil Remake.

No começo de Dragon Quest V você não é só uma criança, mas um filho que por acaso ainda é uma criança. A primeira cena é o seu pai te esperando nascer e depois te pegando nos braços e dando um nome. O jogo literalmente começa a existir quando você começa a existir. Então acorda uma criança de 6 anos num quarto com o seu pai, conta do seu sonho de ele ser um rei e ele pede pra você dar uma volta lá fora. Esse quarto fica num navio e nele há muitas pessoas com quem você pode conversar. Todos eles falam sobre o seu pai, falam sobre como ele é uma pessoa incrível, como ele é inspirador e melhor do que alguns deles jamais seriam. Seu pai não é o capitão daquele navio e nem o dono dele, é só um cara recebendo um favor, mas a admiração por ele é evidente.

Quando vocês saem do navio e pisam em terra firme pra ir em direção à sua cidade natal que nem lembranças se tem mais, seu pai te dá um mapa e te diz pra ir dar uma volta, mas não muito longe, já que ele vai conversar com um conhecido no porto. Você explora um pouco, entra numa casa, pega uma erva de cura, quebra uns barris e depois de exaurir tudo pra se fazer ali, sai das docas em direção à floresta. A primeira coisa que obviamente acontece é uma batalha começar, mas você toma um dano muito mais forte do que o que causa nos monstros — afinal, 6 anos de idade. É aí que o seu pai pula dentro da batalha e causa 70 de dano no bicho em que você causa 7.

Ele ataca mais rápido e até duas vezes por turno. Ele te cura se sua vida fica baixa. Ele é o seu protetor. Indo em direção à cidade com o seu pai liderando o caminho vocês encontram vários monstros e ele derrota todos eles e os seus ataques de criança são quase inúteis, mas mesmo assim seu pai nunca te subestima e nunca te poupa de apanhar dos bichos.

Depois de chegar na cidade e ser bem recebido por todos, seu pai vai de novo resolver problemas de adulto e te deixa sair pra explorar. Na cidade há algumas lojas, umas casas, uma igreja onde dá pra salvar o jogo e uma caverna ao fundo, que é onde você deve ir. Nessa caverna acontece a primeira expedição sozinho. Você deve descer alguns andares e caçar alguns baús até esbarrar em um homem soterrado por uma pedra. Você empurra a pedra e salva ele. Depois de sair da caverna, agora com algumas moedas e experiência a mais, o filho e os clientes do homem ficam gratos por ter salvo o herborista da cidade. Sua jornada na caverna foi contida e pequena, mas foi sua.

Então uma loirinha aparece. Ela diz que costumava brincar contigo antes do seu pai ir embora. Vocês saem para explorar juntos, encontram um gato sendo importunado por crianças que dizem só te dar o gato se vocês caçarem os fantasmas das torres ao norte.

A loirinha e você saem da cidade de noite enquanto todo mundo dorme pra ir atrás do castelo dos fantasmas. A viagem ao castelo é possivelmente a sua primeira jornada longa  sem o seu pai. É preciso matar alguns monstros ao redor da cidade para comprar equipamentos novos e itens de cura já que não vai ter quem te curar ou te salvar dos bichos mais fortes. É uma experiência sem supervisão e você sente isso. O pai não está mais lá, agora há alguém mais fraco no seu time e é a sua vez de proteger esse alguém. No caminho até o castelo provavelmente há algumas derrotas, mas tudo bem porque qualquer coisa a menininha te carrega de volta pra casa e vocês podem tentar de novo no outro dia.

Com o tempo alguns níveis são upados e algumas habilidades aprendidas. Depois de algumas tentativas de exploração no castelo a loirinha aprende magias de fogo e você aprende a curar, igual o seu pai.

Quando o demônio debochado que lidera todo mundo é derrotado, os fantasmas dos nobres do castelo te agradecem e as pessoas da cidade também. Todos descobrem que você e a loirinha foram lá e deram um fim às assombrações que atormentavam eles. As pessoas começam a te elogiar e admirar a coragem que vocês tiveram em ousar ir até o castelo. O gatinho que estava sendo aporrinhado pelas crianças agora segue o caminho com seu grupo.

Depois de uma viagem num mundo de fadas que também fica muito agradecido pela sua passagem, seu pai te acorda e diz que vocês precisam ir para outro lugar agora. O seu time anda, ele liderando. Ele fala com pessoas para abrir caminhos. Ele te carrega nos ombros pra te mostrar a vista da ponte. É um momento muito bom.

O que é essa trajetória no contexto do jogo? Ela é extremamente importante não só para definir quem é o seu pai, mas também para definir quem você vai ser, e não é só algum título ou posição. Em Pokémon, por exemplo, você aspira ser o maior treinador do mundo sem ter muita ideia do que é isso; aqui você aspira ser seu pai.

Nessas primeiras horas, você já consegue causar dano e se curar e ser minimamente independente, mas quando seu pai entra no grupo e participa da luta você vê a extensão do que ainda está por vir.

Já falei o suficiente com pessoas no mundo para saber admirar cada um dos personagens em DQV. Ao invés de um lugar passivo onde você vive a sua aventura, como quase todo RPG japonês, o mundo de Dragon Quest V é um lugar onde pessoas vivem e as suas aventuras se movem com elas. Por isso as suas companhias são muito importantes (a ordem de causa e efeito aqui pode estar invertida, mas o ponto é o mesmo). Joguei Dragon Quest menos do que li a seu respeito, então talvez por isso esse argumento me soe enfadonho, mas há anos venho lendo sobre como ele é esse jogo em que os NPCs são pessoas ou refletem anseios das pessoas. Sobre como o mundo é conectado de uma forma extremamente simples, mas significativa por meio dos personagens nas cidades. O mundo é composto por pessoas e ajudar e ouvir elas é parte disso

Seu pai é uma delas. Seu pai é alguém que é tão heróico e admirável que todos sabem dele e o respeitam. Quando você explora sozinho e experimenta suas próprias aventuras, sente um pouco como é ser ele. Toca na tangente emocional que é seguir os passos de quem te criou e esse é o ponto maior aqui. Esse é um jogo inteiramente pensado ao redor de crescer. É a absorção total do conceito de Pontos De Experiência pela temática da jornada da vida. Após essas aventuras iniciais, o seu pai vira guarda-costas de um príncipe e o menino é sequestrado, então seu time vai ao resgate dele. Aqui é onde o seu pai reconhece que você está crescendo e se tornando forte e te permite liderar o time. É aqui também onde você vê a maior prova de que o seu pai é invencível de várias formas e também é a imagem que vai carregar como norte até o fim do jogo.

Você é levado por monstros e passa 10 anos como escravo. Com o passar do tempo se liberta, vira adulto, se casa e tem filhos. Há toda uma vida que se segue como pai com os seus próprios filhos provavelmente justamente querendo refletir a imagem que você viu quando criança.

No começo do jogo o seu pai é nível 27. Futuramente você alcança esse mesmo nível e irá superá-lo com o nível 29, 30, 99. Mesmo assim você só pode aspirar a ser quem ele era pra você, mesmo que, talvez, para os seus filhos, você já seja.

Fellipe Mendes

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O estoico romântico
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