(Live and) Let It Die

(pra ler ouvindo a rádio mais radical do milênio)

Incauta em uma E3, fazendo drinking game com água, fui atacada pelo seguinte trailer:

No meio de tanto jogos que têm tirinhos e mortes e pessoas se socando, e mais, no bendito ano de 2014, quando tivemos anúncios incríveis como No Man’s Sky, Uncharted 4 e (aquela caralha de) amiibos, Let It Die teria passado completamente batido pela minha lista de Jogos Que Cogito Jogar se não fosse por um único detalhe: a morte, com M maiúsculo então Morte, andando de skate. Não é um fato conhecido, mas fui cosplayer particular (no caso, dentro de casa pra mim mesma) de Morte durante muito tempo, fiz até um traje lindo com capuz todo num tecido meio meia-noite só pra elaborar o personagem. Então imagine eu, gótica suave, me deparando com a Morte que anda de skate. Não importa o resto do jogo, esse amor foi a primeira vista.

Mas, no fim das contas, foi mais que meu amor por personagens que praticam esportes radicais que me fez cair na armadilha de Let It Die. É algo da energia, disso do jogo ser tão sólido e sujo que, se mordido, seria como morder areia da praia. O objetivo principal é subir a Torre, mas na verdade você quer é realmente descobrir todos os cantinhos em cinza do mapa, usar os equipamentos mais bonitos, atacar com as armas mais zoadas, capturar animais variados, tentar entender em que buraco se escondem os treasure tubers. Cada chefe, cada Don, floreia a sua experiência que é, sim, subir a Torre, mas também é fazer parte do contingente de idiotas que sobe a Torre.

screenshot por InquisitorAles

E o que não falta é idiota subindo a Torre. Existe uma quantidade razoável de conteúdo confiável feito por fãs sobre em que andar pegar cada equipamento, qual melhor classe escolher pra cada novo personagem, guias e mais guias de como não cagar sua aventura pelo tesouro imaginário logo na primeira tentativa. Não recomendo guia nenhum ao jogar, entretanto, o bom é de fato cagar a aventura até precisar realmente entrar na espiral de buscar material pra armas melhores pela Torre. Aí sim, conseguimos descobrir que o jogo é uma planilha do Excel disfarçada, e coisa boa que tem é planilha do Excel.

O jogo é de graça pra baixar, jogar e acessar todos os recursos pertencentes à experiência de socar bonequinhos virtuais e sair sangue, e toda sua roupa bonita por cima de números expressivos de nível de personagem, nível de perícia em armas, nível de equipamento, faz a gente nem sentir que as horas em jogo estão passando.

Let It Die é um freemium safado, e espero que isso seja fato conhecido. Quanto mais você sobe a Torre, mais nota que deveria ter guardado todas aquelas moedinhas em forma de caveira holográfica pra agora, no andar 33 ou algo assim, no qual você precisa levar uma caceta de chefes seguidos e explorar áreas insuportáveis só pra conseguir abrir o próximo elevador pra atalhar caminho. Seus personagens são fortes, mas não o suficiente; seus itens são bons, mas não o suficiente – mas dá pra comprar essas receitas muito loucas por SÓ duas caveirinhas, incrível. Mas o jogo é meio assombrado: um pouco pelo espírito do punk que o Suda carrega até pros projetos nos quais só bateu o olho, mas num todo pelo diabo que mora dentro do Hideyuki Shin, sem contar Akira Yamaoka sacudindo suas correntes ao fundo. É impressionante de pensar algo com esse peso todo seja realmente de graça. Pagar pelo apreço ao trabalho de tanta gente bonita é quase parte do ritual de jogar.

Antes exclusivo de PS4, Let It Die hoje é de acesso fácil pra qualquer um que tenha conta no Steam. Só chegar, se inscrever sob a orgulhosa nação brasileira no Tokyo Death Metro, e aumentar a contagem de corpos nos trilhos.

 

Maciel

Maciel

Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
Maciel

Últimos posts por Maciel (exibir todos)

Tags: , , ,