Sobrevivendo no Inferno

Sobreviver pode significar apenas continuar vivendo mas a definição mais legal da palavra envolve continuar vivendo em condições adversas. Sobreviver não é confortável e geralmente quem o tenta fazer é através de uma vitrine — você vai passar um fim de semana na floresta para “se conectar com a natureza”, não porque a sua casa na cidade não existe mais.

O instinto de sobrevivência e auto-preservação só tem essa atmosfera opressiva caso você saiba como é a vida em momentos que não precisou simplesmente subsistir. A vontade de que as coisas voltem a ser como eram antes do seu avião cair, da sua empresa falir, do forno da sua padaria explodir, do portal gigantesco para o inferno abrir no céu acima da sua base militar que fica no meio do mar, da dissuasão nuclear falhar ou de todos os grãos de café do mundo simplesmente desaparecerem sem deixar vestígios. Caso você tenha sempre existido em situações adversas daí não faz tanta diferença: sobreviver é só viver, mesmo, e as coisas precisam piorar antes de “sobre” entrar como prefixo à sua vida.

É fácil se revoltar contra estas condições quando você sabe o que é bom e precisa usar versões piores do que conhece previamente para continuar na luta. A lista de prioridades fica toda bagunçada. Com o tempo você fica mais feio, mas mais resiliente também. Acaba desenvolvendo habilidades que jamais desenvolveria caso estivesse tudo bem na sua vida e também se lembra de algumas que tinha certeza de que jamais iria usar de novo. Tem que engolir o orgulho, voltar a usar algumas roupas velhas, efeitos sonoros de três ou quatro jogos atrás, voltar a comer carne crua para recuperar stamina sem estar num restaurante japonês igual quando precisou subsistir há alguns anos, quando quis se conectar com a natureza por causa de uns caprichos de seus pais.

O pragmatismo toma conta de sua mente porque nestas condições você precisa dele para continuar existindo e não só para tornar coisas banais mais fáceis. É injusto perder condições que tinha antes. Precisar usar uma garrafinha de água mais de uma vez. Não ter mais o mentor te dizendo exatamente o que fazer e dando todas as boas ideias, conversando sobre filmes e apertando o botão certo no elevador. Não quer dizer que você está sozinho, entretanto: todo mundo pode ser um mentor e todo mundo em condições parecidas pode te ajudar. Tem que tomar cuidado, é claro, mas quando aparece alguém com a cabeça (literalmente) no lugar em meio a tantas pessoas que se parecem mais com zumbis do que humanos, precisamos aproveitar, juntar forças, descobrir as coisas diferentes que cada um sabe e descobrir as coisas iguais para lapidá-las e melhorar a execução delas.

Nunca é tão confortável como deveria ser, mas novas flores desabrocham nessas condições. Você descobre mais sobre si mesmo e sobre quem está ao seu lado, sobre velhos amigos e a respeito dos amigos novos. Não quer dizer que é tão bom quanto era. Nunca vai ser, é impossível ser. Mas pode ser bom também. Quando o esforço é mútuo, dá pra criar uma casinha nova, acender uma fogueira e conversar em volta dela. Dá pra estudar as artes marciais que sua mãe não deixava com medo de te tornar violento e falar palavrão na sala de trabalho, coisa que era inadmissível no emprego anterior. Vai que o sofá que você fabrica com couro animal fica ainda mais confortável que o que poderia comprar nas Casas Bahia.

Abraçar o capeta quando se está no inferno é admitir a derrota. Você pode subjugar o capeta. Tentar transformar o inferno num pedacinho de céu após desenvolver este poder. Quem sabe até converter alguns demônios de volta pro lado da luz. No inferno é até mais fácil de cozinhar os lobos. Eles recuperam só 400 de fome, mas se você conseguir fazer sopa de lobo, daí recupera 900 tanto de fome quanto de sede.

Lar é onde o amor está.

o @fellipe do juiz cachorro jogou comigo e compartilhamos algumas sessões e ideias. leia o texto dele a respeito do jogo também.

Neozao

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