Não abra a maleta prateada

Transmissão de maldições através de meios meméticos não é nada novo, obviamente. Todo mundo assistiu O Chamado, e todas as maldições são ideias, no fim das contas, então quando se tornam populares o bastante a doença parece normal, o mundo passa a existir naquela linguagem, todo mundo se fode, Deus nos acuda.

A ideia que Silver Case transmite como uma maldição memética é a da Força Criminal. Kamui, o assassino que seu departamento está atrás, existe. Teoricamente, ao menos. Mas seu poder, que o faz ser um assassino muito mais perigoso do que outros assassinos é essa força criminal. Talvez ela seja algo como um vírus, mesmo, transmitida pelo ar, influenciando os próximos e os de imunidade baixa a seguir seus passos, talvez emular seus métodos, mas simplesmente se tornarem Maus. Se ela não for como um vírus, também, que diferença faz? A diferença entre influência psicológica ou fisiológica existe só para quem investiga, os afetados não se importam com isso. Busca por sentido em quem é afetado diretamente por ele é uma maneira sistemática de buscar conforto, encontrar ordem no caos, ter uma epifania pré-morte, mas não importa muito assim para o mundo que permanece além daquele círculo.

O mundo além do círculo quer saber motivos como maneira de registro para saber quais métodos funcionariam no futuro, como prevenção ou como paliativo, maneiras de ajudar a trazer o mundo de volta à normalidade após estas tragédias. Arrumar o lençol, colocar o chinelo depois de já ter sujado o pé, lembrar de segurar no metrô só após cair e ter que se apoiar na pessoa do seu lado uma vez, que sequer escuta suas desculpas pois ela também está brava que o túnel atrapalhou o sinal do spotify, a música não carregou e ela está sendo atacada pessoalmente por todos os sons de todo mundo à volta para prestar atenção só nas desculpas: o que vale prestar atenção é justamente o que a irrita mais, que justifica sua raiva, que não entende que até dava para ter arrumado a biblioteca do spotify previamente em casa se ela tivesse acordado vinte minutos antes, o que teria acontecido caso ela tivesse dormido melhor em vez de acordar no meio da noite com a goteira, lembrando ela que precisa arrumar o telhado, mas ela não tem dinheiro para isso neste mês pois mês passado a poupança já havia sido violada já que foi aniversário de uma pessoa que ela nem gosta mais tanto assim, pois sabe que tal pessoa traiu uma pessoa que ela gostava ainda mais, mas ela não pode falar nada pois são informações que ela não deveria saber e então tem que manter as aparências, e nada disso aconteceria caso não existisse a possibilidade de acesso à internet o tempo inteiro e você ainda tivesse que organizar a sua biblioteca de músicas como arquivos mp3 numa pasta no celular que você transferiu com um cabo USB que, aliás, ela tem certeza de que prejudicou de maneiras irreversíveis a bateria do seu celular por causa de todas as vezes que ela tentou carregá-lo no computador.

 

Todas as tragédias do mundo de Silver Case são Kamui se você franzir os olhos o bastante, e elas se espalham para frente, para trás, para cima e para baixo, literalmente, temporalmente, tudo está conectado se você quiser que esteja porque as maldições não são nada mais do que desejos humanos manifestados fisicamente, forças além do nosso controle que só fazem o que nós achamos que controlamos mas não o fazemos de fato.

Isolar eventos é tão impossível quanto isolar pessoas. Eles não funcionam linearmente: se espalham como fofocas, notícias, pessoas que precisam atravessar a rua, camas de hospital que estão ocupadas. O “Efeito Borboleta” não se aplica aqui porque tais eventos não ficam necessariamente maiores, são ondas grandes e pequenas que atravessam a todos em tamanhos incalculáveis.

Antropomorfização dessas ideias é natural, também, porque nós gostamos de nos vingar e é melhor ter algo material para isso, um símbolo físico onde podemos guardar toda a escuridão do mundo e chutá-la quando ela começa a vazar. Todos nós temos algum, alguns de nós tem mais de um, a nossa existência como Grupo Social também escolhe os seus e assim as coisas vão indo pra frente, escondendo para baixo do tapete ou abraçando de vez ou batendo até caber na lata de lixo. É impossível acabar com elas porque estão constantemente sendo criadas, pois Kamui não é mais um só. Cada um que sabe da existência de Kamui também pode ser um Kamui eventualmente. Você pode tentar tapar os olhos para não ver, o nariz para não cheirar, os ouvidos para não ouvir ou todos ao mesmo tempo para o vírus não chegar ao seu cérebro, mas ele chega. Todo mundo já está infectado, embora, nesse caso, todos os sintomas são ações e alguém já as cometeu antes.

Neozao

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