Abra a maleta prateada

Depois que a tulpa já tomou forma no imaginário popular não tem como fazer sumir. Alguém sempre vai pensar nela de novo, vai transmiti-la, ou agir de acordo com as ações que não são mais pessoais. Abdicar da pessoalidade para Fortalecer O Movimento é, talvez, a maior prova de altruísmo do mundo, caso fosse uma ação altruísta mesmo e não uma maré incessante de ideias que te levam, e levam, e levam, até quebrar, ou a si mesmas ou aos prédios que ficam ali mais próximos à orla.

Há uma possibilidade de solução aí: em vez de tentar reprimir e ir tapando os buracos e frestas que abrem entre nossos dedos quando tentamos conter Kamui, podemos abrir de uma vez. Deixar queimar livre para queimar mais rápido e tudo voltar à normalidade depois da pior das crises.

Quando muita gente conhece um conceito, ele pode ou ser fortalecido ou diluído completamente. Isso depende da determinação de quem o espalha: se é a nível supérfluo ou profundo, se é consciente ou inconsciente e quais os fatores culturais à sua volta fizeram a digestão daquilo ter sido de uma dessas maneiras. Não é nem a quantidade de informações passada, mas a densidade delas.

Há o ciúme, também. Se a ideia é sua, ela é sua e ela tem que ser sempre sua. Você é um adjacente à existência que se popularizou independente da sua agência. E se você quiser tomar controle de volta? E se quiser que Seu Nome seja tão grande quanto o que você diz? Ou pior: e se você mudar de ideia? Essa é a parte mais assustadora de todas.

Arrependimento nunca existe e nem vai existir para o público porque é um vetor de um para um. Você pede desculpas para quem você machucou, por reação direta do que fez. As ações são todas limitadas a momentos de percepção, então três desculpas individuais para três pessoas no recinto funciona; mas uma desculpa genérica para um milhão de pessoas que te escutaram falar não funciona, já que alguém dentro deste milhão não se ofendeu, outro achará que não foi suficiente, e o outro é surdo.

Existir publicamente maldiz a vicissitude de crescer como uma pessoa normal. A noção de ser um maestro de intentos vem naturalmente a alguns, mas mesmo estes podem perder mais do que ganham se seguirmos uma valoração perceptível e empatizável. Falar para uma pessoa é falar para uma pessoa. Falar para um público é falar para si mesmo.

É por isso que o ideal é deixar tudo ir pro caralho, mesmo. Deixe tudo existir ao máximo que pode e cegar a todos com o brilho da explosão sensorial que o envolve. É mais seguro do que deixar se fortalecer e menos patético do que deixar se diluir, pois aí uma faísca pode colocar tudo a perder de novo. Deixe Kamui vencer. Você já é Kamui, mesmo, quem sabe até consegue um espacinho nos créditos após contribuir com o kickstarter da rachadura da Vigésima Quinta Ala. Quem sabe Kamui fala diretamente com você, e te chama pra jantar, se apaixona por você e consegue portanto se espalhar não apenas memeticamente como também geneticamente. É só assim mesmo pra saber qual dos dois meios é mais forte.

Quem sabe o pior gere proibições e proibições salvem o mundo. Daqui a algumas gerações o pessoal até esquece que aquilo foi proibido, e aí não tem diferença nenhuma entre ser proibido e nunca ter existido. Depois de Kamui destruir tudo ele também sumirá. Só sobrará o agradecimento que ele te deu, na sua memória, e a conquista de ter visto os cem finais de The Silver Case: The 25th Ward  no Steam.

 

Neozao

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Não fique sentado esperando nada menos.
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