Suas Escolhas Não Importam

Não gosto de ouvir gente falando de coisa séria em lugar público. Acho extremamente indecoroso — falta de respeito, mesmo. Só se fala de coisa séria no íntimo e olhe lá. Na rua é pra falar dos seus fetiches sexuais, das suas inseguranças, falar mal dos outros. Ninguém tem nada com isso, ninguém se importa.

Tive que ficar no Starbucks por uns bons cinquenta minutos esses dias, na Paulista. Choveu bastante. Tinha um casal do meu lado. Eu tenho esse hábito horrível de sempre pedir o tamanho Venti, que é o tamanho maior e normalmente muito mais café do que eu preciso. Não é porque eu queira muito mais café do que eu preciso, mas porque eu escolho baseado não no que eu vou conseguir, mas no que eu vou perder.

Perder um café menor é melhor do que perder um café maior.

Necrobarista (TBA)
Necrobarista (TBA)

O cara do casal estava falando sobre cinema, sobre Christopher Nolan ser um dos diretores mais geniais que tem. A moça não parecia muito interessada. Eu não estaria. Ele mudou de assunto pra determinismo, sobre como ele achava interessante a ideia de que todos estamos destinados a fazer as escolhas que fazemos.

Achei isso um despudor. Eu estava vermelho ali, por ele e pela moça. Só falo disso com meus amigos mais próximos. Conversar sobre esse negócio significa falar de algo que me aterroriza, me expõe. Se você fala de coisas sérias sem nenhum pudor, só posso supor que você é um exibicionista. Ou pior: se você só acha isso tudo “interessante”, se nada disso gela sua espinha, você é um casco de gente.

E aí fica pra você decidir se prefere que eu te ache despudorado ou vazio.

Jogo de filho da puta
Jogo de filho da puta

Eu não sei o que me causa tanto pavor. Mas a ideia de que somos essencialmente bolas de bilhar e mesmo a origem de nossos pensamentos mais estranhos pode ser traçada à reação dos elétrons uns com os outros simplesmente me faz tremer na base. Pois então o que estou escrevendo agora, a maneira como estou escrevendo, as partes em que eu hesito ou deleto palavras — tudo isso poderia ter sido previsto se alguém tivesse variáveis suficientes em mãos.

Não gosto disso. E não quero que ninguém saiba, pelo menos não na rua.

Eu gosto da ideia de que eu tenho qualquer tipo de centelha divina que me permite escolher e que ninguém pode prever essas escolhas. Talvez estatisticamente, talvez probabilisticamente, mas nunca por relações causais.

A gente combate essas ideias que nos aterrorizam. Com fé, talvez. Já fui dessas pessoas que queriam a verdade, não importa o quanto a verdade doesse. A última verdade que eu encontrei como caçador de verdades foi a de que a verdade não tem valor algum. Aí eu parei. Talvez devesse ter continuado. Teria sido menos ganancioso. Talvez eu devesse ter sido mais abnegado nessa busca. Talvez ainda dê tempo. Talvez eu não deveria ter saído de Brasília. Talvez não devia ter ido naquela festa. Não sei nada dessas coisas. Não sei direito nem o que eu deixei pra trás.

Final Fantasy XV (2016)
Final Fantasy XV (2016)

O Fellipe tem um texto sobre Final Fantasy XV que você devia ler, provavelmente. Se você gosta de ler, ou se no mínimo gosta de pessoas apaixonadas pelo assunto sobre o qual elas estão escrevendo. É um livro que trata do que significam a aventura, a amizade e a agência em Final Fantasy XV.

Muito do livro dele trata da experiência do acúmulo. Da rotina, dos registros, da cumplicidade que tornam a amizade entre Noctis e o resto algo palpável, compreensível e, lógico, sentimental. O que você escolhe fazer e em que momento formam sua marca dentro daquele jogo e, assim, a relação que você vai ter com os personagens, assim como a relação deles entre eles ali.

O acúmulo só existe pelo aspecto positivo das suas escolhas — você escolhe, e então algo acontece e você vê que aconteceu porque você escolheu. O jogo acessa suas emoções pela experiência que é escolher, e pelo que você viu porque você, e só você, estava ali nesse momento. É um livro que trata disso, o do Fellipe.

Ali pelo final, ele fala “das coisas que deixaram de ser”. Eu achei que ele ia falar de como escolhas em videogames só geram significado quando existe a percepção de coisas que deixaram de ser para que o acúmulo aconteça. Seria minha opinião. Acho que escolhas não servem pra você conseguir uma consequência, pra você ver sua marca no jogo. Elas servem pra te forçar a deixar algo pra trás. Independente da história ter caminhos alternativos, esse fator sempre está lá.

Não era disso que ele estava falando, mas o Fellipe concorda comigo. Eu concordo com ele, também, em seu livro.

Soma (2015)
Soma (2015)

Também é um livro extremamente safado. Fala de coisas sérias o tempo todo — de emoções, de meio e mensagem, da natureza da interação. Pra disfarçar, às vezes ele beira a tecnicidade. Meu jeito favorito de mascarar um assunto que me assusta é a tecnicidade, é falar das coisas como se fossem máquinas. Não acho que as pessoas estejam expondo suas limitações ou sua burrice ou uma falsa epistemologia quando elas falam das coisas como se fossem máquinas. Acho que elas só estão sendo respeitosas.

Esse texto, mesmo, eu ia decorar ele com toda a tecnicidade que eu conheço. Ia chamar de Agência a capacidade percebida de um jogador de reconhecer a influência de suas escolhas no universo e no sistema do jogo; e de Contingência a capacidade percebida de um jogador reconhecer a influência do universo e do sistema em suas escolhas. A razão pela qual eu não estou fazendo isso é porque esse assunto é importante pra mim. Ele me aterroriza.

Miniatura de Flowchart de Fate/Stay Night (2004)
Miniatura de Flowchart de Fate/Stay Night (2004)

Um robô incrivelmente rápido poderia fazer as escolhas que eu fiz e que não fiz, gerar todos os cenários possíveis para um dado número de variáveis. Poderia até prever as escolhas que eu vou fazer nesse mesmo jogo.

Mas aí, pra quê jogar? Se tem um caminho pra cada um, de que me serve chegar a algum lugar? É só pra satisfazer o ímpeto de ver que minhas ações desencadeiam outras coisas? Mas e se os caras estiverem certos, e formos todos bolas de bilhar? Tudo perde o valor?

Eu queria acreditar que o que importa não é o que eu coloco no jogo, é o que eu tiro dele. Quando faço uma escolha em um jogo — e não importa se essa escolha é uma consequência óbvia das variáveis envolvidas — aquilo só devia ter significado se eu tiver que deixar algo pra trás. O curso natural do Universo antes e depois de eu apertar o botão não me diz respeito, não fale dele perto de mim. A sua escolha, em si, não é importante. Importante é que, naquele exato momento, tinha uma alma ali pra escolher.

Palas

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É o que é, Hicchan~! É o que é o que é o que é!
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