Um Final Feliz

Se ele houvesse passado por um criador de personagem detalhadíssimo, onde pudesse escolher até a quantia de cílios em cada um dos olhos, iria decidir ser exatamente como já era, pois ele havia se inventado assim. Despojado, eloquente, inteligente (porém mal-compreendido), um tanto quanto rebelde, de coração sempre vívido e adolescente. Ao menos era assim que se sentia.

Aquele dia era seu aniversário ou alguma data de importância equivalente, com carga emotiva suficiente para existir uma comemoração em forma de festa. Ele não tinha certeza de como tudo funcionava, mas havia se esforçado ao máximo para traduzir suas impressões de eventos similares que havia participado no passado para criar sua própria festividade. Se você lhe perguntasse, ele diria que o resultado de sua reprodução era um sucesso completo.

Isso estava longe de ser a verdade: a mesa principal tinha apenas uns três ou quatro cupcakes e uma caixa de presentes vazia, ostentava na decoração uma faixa escrito “Feliz Aniversário” que parecia retirada da festa de uma criança de oito anos, e a trilha sonora ambiente eram solos de violino clássico que nem mesmo o aniversariante apreciava. Era como se uma civilização alienígena do futuro escavasse informações da nossa extinta sociedade e tentasse replicar o inexistente conceito de uma comemoração anual celebrando nascimento de um indivíduo.

Os convidados também não eram a escolha certa de público para a festa. Não se sabe ao certo por qual motivo eles aceitaram comparecer ao evento, mas aparentemente nenhuma das cinco pessoas (todas estranhamente chegando juntas ao evento) gostavam do aniversariante. Quem sabe suas piadas sussurradas em segredo e desdém pelo dono da celebração fossem apenas uma forma metafórica de mostrar a superioridade dele perante a uma sociedade imbecil e despreparada para se misturar com um ser tão especial. Ao menos era isso que ele acreditava.

Saiu de casa para cumprimentar seus convidados e após quatro deles passarem pelo anfitrião munidos de risinhos e pequenos insultos (e até isso não conseguiam fazer direito, chamando-o de “cabeção” ou “djow” como se fosse algo ofensivo), o quinto parou na sua frente e lhe entregou um presente. Após apertar alguns botões no controle e mover a alavanca fazendo movimentos circulares para desfazer o laço o pacote se abriu. A música de fundo mudou e ele sentiu seu rosto sendo focado pela câmera de forma dramática. O pior havia acontecido: era um barco miniatura.

Ele odiava barcos miniatura, não que isso estivesse explícito até então. Quem sabe esse momento fosse usado como conexão mental no futuro quando esse ódio desproposital fosse explicado, ou simplesmente fosse mais uma metáfora inexplicável (ele adorava metáforas inexplicáveis, pois acreditava que o tipo certo de pessoa – seu tipo de pessoa – entenderia mesmo sem explicação) para tentar justificar o que viria a seguir. O que importa é que aquele momento era importantíssimo para aquele dia. Ao menos era isso que ele havia decidido.

Seus olhos, vermelhos e possessos, fitaram os do rapaz que lhe deu o presente, sem levantar a própria cabeça apenas revirando-os em sua órbita. Na sua frente o tempo pausava sem explicação, uma musiquinha semelhante a que tocava quando estava na hora de decidir qual era o nome da moça que ficou com a bola no “Para a Bola” do Fantasia do SBT começava a tocar ao fundo (ele não fazia essa conexão, a música para ele era só mais um pedaço da obra de arte que era sua própria vida), e duas opções apareciam na sua frente: “Beijar de Língua” e “Murro no Nariz”.

Ambas opções faziam muito sentido. Ao menos era o que ele calculava: beijar de língua uma pessoa que havia lhe dado um presente tão horrendo apenas demonstrava inventividade e desconexão com idéias mundanas de vingança e ódio. Entretanto, um certeiro e bem dado murro no nariz também soava como adequada resposta para alguém que claramente sabia onde estava cutucando. Não lhe parecia haver muitas outras escolhas entre essas duas, qualquer outro ser humano pensaria simplesmente em escolher uma ou outra.

Querendo animar um pouco a cena e querendo demonstrar que também era capaz de um pouco de aventura e ação na composição da orquestra que era seu dia-a-dia, escolheu o soco. Após um breve movimento de seus punhos saindo do congelamento do universo desferiu vários socos, cada um seguido de um novo botão que era requisitado em momentos aleatórios. Durante a briga às vezes ele apanhava também, mas não tinha certeza por culpa de quais botões errados havia levado certo soco, e às vezes se indagava se certa voadora era inevitável. O que importa é que foi uma briga muito linda e ele se orgulhava disso.

Desconectando completamente da ideia inicial que a festa iria ser mais explorada, o protagonista aparece horas depois bufando triste ao se jogar de costas em sua cama. Como quem diz “que droga de vida”, mas na verdade era exatamente o tom que ele buscava. Esperava que com aquele breve sofrimento desnecessário, montado em cima de um evento exagerado que ele próprio escolheu desgraçar com suas escolhas hiperbólicas, demonstrasse o quão pesado ou conectável eram os temas que ele vivia. Ao rolar de suas lágrimas ele já podia ouvir os aplausos. No meio de tanta dor só lhe restava voltar para sua Obra. Ligou seu computador para fazer aquilo que veio ao mundo fazer.

Era um criador de videogames, como não poderia ser diferente, sendo uma pessoa com tanta bagagem para falar e dividir de sua experiência para com o mundo; e todos bem sabem que os videogames são o palco supremo de ideias e revoluções em um mundo que profana e trata como entretenimento o que deveria ser arte e evangelho. Sua Palavra digitalizada em cenas desconexas com pequenas interações iluminavam o mundo e ensinavam sobre mensagens importantes. Sua Obra era uma obrigação dele para com o público e o mundo. Ao menos era assim que ele entendia.

Mais uma pausa no universo. Uma pergunta: “Criar jogos de Videogame?”. As opções: “Sim” e “Não”. Ele estava certo da resposta, mas acabou surpreendentemente decidindo pelo errôneo “Não”. Desacreditado da sua escolha voltou para sua cama, afundou a cabeça no travesseiro dramaticamente, perguntando a Deus o motivo de sua escolha, o motivo de abandonar seu posto de arcanjo na vida da humanidade. O próprio Ser Todo Poderoso então se materializa na sua frente, careca, gordinho, narigudo e barba rala, como todos sabem ser Deus; e mesmo dizer uma só palavra, com um sereno olhar passa sua mensagem. “Eles não merecem seu Talento, David”.

E assim parou para sempre de fazer jogos, da única forma como poderia ser, com a certeza que era perfeito como sempre soube, mas tendo a confirmação divina de que os mortais ainda não estavam prontos. Nunca estariam.

 

Hynx

Hynx

Gosto muito de videogames, mas gosto ainda mais de ficar pensando qual a próxima metáfora idiota que eu vou criar para exemplificar enchendo linguiça meus pontos de vista que poderiam ser resumidos em um parágrafo ou dois. É um vício nojento, sim, mas no final das contas eu acho que fica bem legal. A galera gosta...
Hynx

Últimos posts por Hynx (exibir todos)

Tags: