A expectativa do medo

Alguns segundos atrás você ouviu um som. Um som redondo, bem do português, com vogais bem enunciadas e erres com a língua entre os dentes. Parece muito ter sido seu nome, mas não teria de fato por que sê-lo. Nessa situação de estar lendo texto para matar um tempo que se tem ou não para matar, é bem improvável que você vai ser chamado, ainda mais pelo nome todo, em especial quando estamos mais acostumados a títulos ou sílabas de atenção.

Então você para e escuta. O som não acontece de novo, nem seu propagador parece estar por perto. Mas, no ouvido da sua mente, é possível escutá-lo muito correto e muito preciso, formando os conjuntos sonoros que compõem quem você é. E quantas vezes, de verdade, você já ouviu seu nome ser chamado, sendo que não havia ninguém lá? E em uma vez só, uma única tentativa, e então nada. Só o silêncio e a espera.

Fuan no Tane (SEEDS of THE @%#$?) é essa expectativa, essa espera. É acordar sem saber muito bem por quê, mas sabendo que tem algo errado, e esperar que esse errado se repita. Quando ele não se repete, é se perder no pensamento de que HÁ algo, HOUVE algo, que está esperando uma resposta ou ainda, ser ignorado. A ansiedade vem do silêncio, e essa sensação de espreita, de ser presa e não predador, permeia como um cheiro podre. Criamos mecanismos para desligar o cérebro da ameaça inexistente e voltamos a dormir. Mas Fuan no Tane diz que não, que se houve um som, houve um segundo de inquietação, essa vírgula na humanidade dos prédios e móveis existiu e está lá, e cabe a você vê-la ou não – e sabe-se lá qual das duas opções é pior.

Masaaki Nakayama nos diz que suas histórias são reais, mesmo não tendo acontecido com ele. São relatos, contos e lembranças arrecadados entre colegas de trabalho, vizinhos, familiares, atendentes do mercado, que ocupam cinco ou seis páginas de banda desenhada e, por mais que talvez tenham um começo, não tem um final.

As duas séries (Fuan no Tane e Fuan no Tane Plus), fechando cinco volumes juntas, acabam sendo um catálogo de “vi isso uma vez, foi ruim, acredite se quiser”, em que as pessoas na maioria das histórias não são atingidas fisicamente, só sofrem o impacto de ver ou ouvir ou estar convivendo com aquilo que não é natural. Então não existe instinto de luta ou fuga, não existe confronto final, porque não se sabe a intenção ou motivação desses elementos disruptivos no cotidiano. Em um momento não há nada na janela; em outro, há. E é a realidade do desconhecido, da casualidade, que torna a leitura, mesmo quando não perturbadora, interessante.

Das duas histórias que são realmente do ponto de vista do mangaká, uma se destaca. Nela, ele nos conta sobre um livro de figuras que tinha quando criança, em que cada página tinha um bichinho tapando os olhos fazendo “cadê?”. Vira a página, próxima página, personagem descobre os olhos falando o equivalente a “achou!”. Até que o último personagem, humano, faz o mesmo movimento, com a mesma intenção, mas ao revelar o rosto existe no desenho uma deformação, uma inesperabilidade, com que seu eu criança não soube lidar. Ele cola as páginas do livro com duas camadas de fita, para que nunca mais nem ele nem ninguém vejam aquilo, o errado, o feio. É mais de dez anos depois que descobre, conversando com um conhecido, que nunca houve nada de errado e, lendo o mesmo livro, percebe que realmente, todos os desenhos são normais, todos os rostos corretos, tudo apropriado para uma criança.

O que lembramos ver é realmente o que vemos? O quanto podemos confiar na memória, e mais, no instinto? Acabamos por ficar tão blindados do universo por conta das facilidades modernas que nos treinamos a esquecer, a não ver, a ignorar. E é exatamente nesses vácuos de atenção que o subjetivo se esconde, e é exatamente dessa incerteza se devemos procurar desvendá-lo ou não que a ansiedade se alimenta.

Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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