Não leia A Torre Negra

(provavelmente contém fatos sobre os sete livros da série Torre Negra, bem como suas menções paralelas)

O pistoleiro fugia pelo deserto, e o escritor ia atrás. No seu andar d’A Torre, onde o tempo só vai para frente, Stephen King escreve sobre coisas ruins para ganhar dinheiro e alcançar coisas boas. “Rápido, Steve, pense em um monstro”, diz sua esposa quando as contas atrasam ou as crianças precisam de roupas novas. E se ele o faz, de novo e de novo, é porque seus horrores literários não só dão o retorno esperado, mas também alimentam o fogo da obsessão que o leva adiante. E não é nem um pouco surpreende que sua maior obra, que ele próprio considera sua magnum opus, seja também residência do seu maior monstro.

Roland Deschain, herdeiro de Eld, último de sua linhagem, vindo da lendária e extinta terra de Gilead, porta as armas de seu pai, e das figuras paternas antes dele, com a destreza, precisão e frieza esperadas de um homem educado desde criança para matar com propósito. “Eu não mato com a arma; aquela que mata com a arma esqueceu o rosto de seu pai. Eu mato com o coração.” e atira, com falta de discriminação de quem, mas completa discriminação de porquê. E isso lhe dá um verniz de honra, de homem das antigas, com suas virtudes e prioridades no lugar. Roland é construído como um Clint Eastwood fantástico, o estranho sem nome que cruza o deserto e conta sua história de trás para diante, e então um herói ferido com passado complicado. Ele, assim, angaria seguidores e adoradores e os arrasta para morte e perdição eterna simplesmente porque precisa proteger A Torre – mas só por tempo suficiente para conseguir profaná-la.

É o mesmo ciclo, de novo e de novo, ka é uma roda e todos conhecem a história, não conhecem?

A Torre Negra é uma série sete livros (e um extra e meio), todos escritos por Stephen King na eterna extensão de trinta anos de inferno criativo. Há também uns quadrinhos, um filme que saiu não faz muito, provavelmente algumas músicas de bandas de rock sujinho sobre Gilead e o Rei Rubro. São bons livros, alguns com alto nível de engajamento e outros nem tanto, e a história tem um começo e um fim. Entretanto, o fato é que começo e fim são superestimados e o que importa, o que realmente faz diferença, é o meio. É o meio que nos torna prisioneiros, obcecados e cegos o suficiente para ignorarmos isso e aquilo em prol do todo.

“Não consigo evitar colocar todos os outros livros de lado até que eu chegue até A Torre”, diz uma crítica de cinco estrelas de cinco no Good Reads. Não a história; não Roland; eu. Porque é isso que Roland faz: cria em todos a sua volta uma expectativa e uma paixão pelo que A Torre é, pelo que ela representa, que sim, abandonamos toda estabilidade e tudo que já temos construído em vida para só ir. E quem não iria querer ir até o pilar do mundo? Os encantos desse desconhecido imaginário são como música, e essa música evoca honras e glórias, e a imagem que aparece nos sonhos é de uma calma tão completa que pode ser a própria morte. E seus seguidores e adoradores não se importam com a própria morte, contanto que quase cheguem lá e contanto que ele chegue.

Passamos a amar Roland porque ele também ama, mas somos enganados em achar que seu amor é para com o dever, a justiça, o restabelecimento do status quo. É vendido como um protetor, em sua missão para encontrar e manter A Torre Negra intacta – uma máscara para um obsessão clara, sem filtros, que soterra tudo e todos no seu caminho com propósitos falsos que, na verdade, são só uma desculpa para chegar À Torre, tocar e entrar n’A Torre – a qualquer custo. Então nos tornamos prisioneiros de seus princípios, como leitores e coadjuvantes, tanto quanto prisioneiros da narrativa. Ora, ele sacrificou Jake Chambers, aquele pelo qual nutria sentimentos paternos, não uma vez, mas duas – o que resta para todos os outros e o que resta para nós, então, além de sermos carregadores de liteira para o pistoleiro e seus ideais?

Como leitores, acabamos por ser uma peça na longa partida de de xadrez que, da queda de Gilead à derrota do Rei Rubro, carrega Roland pela mão até a porta da tal Torre. E qual foi seu esforço real nesse caminho, salvo as poucas partes em que o trilhou sozinho? Pois sim, pode ser que tenha criado a estratégia para derrotar os lobos em Calla Bryn Sturgis, e pode ser que tenha também criado a estratégia para desconstruir o esquema de destruição psíquica em Algul Siento, mas o papel e a execução estão tão distantes quanto, bem, o deserto e A Torre.

Não haveria glória sem Jake (seus órgãos internos esfacelados e seus ossos retorcidos na beira da estrada) e Oy (empalado e rígido, o último dos zé-trapalhões capaz de comunicação coerente), Eddie (em delírio em seu leito de morte, o cérebro perfurado por um tiro vingativo) e Susannah (deslocada no espaço e tempo, sua identidade colada com fita adesiva, presenteada com clones e lembranças ruins), Callahan (suicida sem opção, devorado por vampiros) e Sheemie (seus poderes infinitos levados por uma infecção não tratada), Susan (apaixonada, queimada viva) e Alain e Cuthberth e Jamie e Jenna e Tim e Gabrielle. E seus nomes ditos aos pés d’A Torre não lhes fazem jus, e suas memórias carregadas por um homem que esquece não lhes honra.

Mas, além, não haveria glória sem você, virando as páginas, enganado em pensar que você chegará até A Torre. Sua obsessão pode estar ao mesmo nível da de Roland, mas no fim não é a mais forte, e é por isso que você pode vencê-la. Feche o livro, pare a leitura, deixe-o ali no meio do deserto ou das montanhas ou da floresta. Abandone Roland como nenhum outro pode, como nem Stephen King pode, e não lhe dê a satisfação de cumprir seu destino – porque não existe destino a cumprir, principalmente não depois d’A Torre estar salva. Pode-se dizer que destruir o Rei Rubro ainda é importante, ou salvar Patrick de Dandelo, ou ainda matar Mordred com as próprias mãos antes que o frio e a disenteria o levem, mas são objetivos falsos.

Não existe perdão para a morte e o abandono, nem existe motivo nobre que mascare o real erro da jornada. É um engano absolver Roland dos desastres a sua volta e, mesmo que o faça na primeira vez, não deixe o charme lhe tornar escravo. Como Maquiavel, Stephen King, prisioneiro de sua jornada épica, tapeia as coisas da melhor forma possível, tornando o meio somente o meio para o fim, mas no fim sabemos que o feliz é temporário, ka é uma roda, uma salva de palmas até o próximo ciclo e o próximo monstro.

A jornada não é sua. Abandone enquanto puder.

Posso dizer que, ao menos uma vez, Roland encontrou sua Torre no final de todos os livros. Depois de cruzar montanha, terra e mar, depois de perder membros e sacrificar vidas, depois de descobrir as maravilhas da aspirina e os horrores da desinformação, Roland Deschain coloca os dois pés no campo de flores com que sonha, A Torre Negra em seu final, intacta e eterna. Sozinho, ele cruza as rosas vermelhas, cantando os nomes daqueles que deixou para trás; sozinho, ele finalmente toca nas pedras escuras que formam suas paredes. Existe uma Torre no final de A Torre Negra. Roland A encontra – você, que não soube superar a obsessão, provavelmente também A vê de longe, a silhueta do pistoleiro contra o sol.

Mas não é o suficiente – nunca é, não é? Existem páginas, e as páginas dizem a verdade, a narrativa é como a correnteza que nos puxa para o fundo e nos afoga. Não é um final feliz, mas é um final, e devia ser suficiente. Por você (e não por ele) virei a página, essa que nem Stephen King teve coragem de tocar uma segunda vez (não que houvesse escolha em escrevê-las), e li o final até final. Vi o que vem além, e o que vem depois, e o que veio antes. E não houve redenção nem cura.

Então digo: não leve Roland até A Torre Negra, nem agora nem de novo. Ninguém mais tem que fazê-lo. Deixe-o morrer queimado em Mejis, perdido dentro da lúmina, destroçado por lagostrosidade na beira da praia. Porque alguém já o fez –  eu já vi – e foi suficiente.

Ilustrações por Michael Whelan
Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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