A soma das partes

Há algum tempo, enquanto navegava o Twitter, li algo que me incomodou bastante — não que isso seja novidade porque é o que faço diariamente, mas isso especificamente me deixou perplexo em como a gente enxerga jogos hoje em dia.

Numa imagenzinha engraçada de Paper Mario Color Splash, alguém comentava como gostava do jogo e achava estranho todo mundo que detestava ele, ao que prontamente outro alguém respondeu que era um jogo bom, mas um Paper Mario ruim, o que desencadeou mais um alguém comentar que não, não era um jogo bom, era só um livro muito bom.

Sendo sincero, entendi o que ambos quiseram dizer – um está decepcionado porque o jogo não segue o molde dos Paper Mario mais antigos, enquanto o outro está provavelmente criticando o gameplay do jogo, mais especificamente as batalhas -, mas na minha cabeça questiono como alguém consome algo, se diverte com o que o produto proporciona, e aí no final diz “Gostei, isso aqui é bom, mas de fato não é bom”. Entendo preferir que fosse outra coisa, mas falar que só é bom se for interpretado ao viés de outro meio é estranho demais pra mim.

Uma das maiores influências de como nós pensamos em jogos atualmente vem, sem dúvida, do nosso passado de Super Game Powers e semelhantes (Marcellus Vinicius fez um ótimo texto sobre isso no Gamesfoda). Nota para gráficos, jogabilidade, replay, som, tudo isso nos influencia ainda. Na época, um jogo podia ter um excelente gameplay, mas se o som pecasse ele já não era mais tão perfeito e vice-versa. O pacote inteiro, suas implicações e o que significavam raramente eram importantes, e assim chegamos numa época onde dizer que um jogo seria “melhor como anime” faz sentido, porque a gente ignora o que torna um jogo um jogo e vê ele como obras separadas que de alguma forma se juntam no final.

 

(Na foto: Equipe do primeiro Kirby desenha sua própria interpretação do personagem)

De fato, um jogo é composto de todos esses elementos, ele é um apanhado de vários trabalhos que requerem habilidades muito específicas. Mas mesmo assim um jogo não é 4x mais arte e mais valioso que o concerto de uma orquestra sinfônica só porque ele possui trilha sonora e mais um monte de coisa integrada. Ele é a soma de tudo, não existe sem uma das partes. Se você tira a trilha sonora de Koji Kondo de Super Mario Bros ele continua bom, mas vai faltar um pedaço da sua alma. Você não precisa necessariamente gostar da trilha sonora para elogiar Super Mario Bros, mas tem que entender que ela faz parte da experiência que você gostou. Da mesma forma, não existe a trilha sonora de Sonic 06 sem o Sonic 06 do jeito que é.

O que quero dizer é que hoje em dia se procura muitos motivos para se falar de algo e parecer que se sabe de tudo. Há uma certa resistência a se falar bem de algo apesar dos defeitos, então inventamos associações bizonhas com outros meios pra não parecer que gostamos de algo ruim. Particularmente gosto de Metal Gear Solid 4. Já fui do time “jogos com muita cutscene querem ser filmes!” até perceber que isso não é um problema, é o que o jogo É. Porque se não, todo jogo que tem cutscenes compridas são ruins? Seria Phoenix Wright o pior jogo já feito porque ele basicamente só consiste em você passar texto? A gente cai na velha história do manual de Game Design, onde você mete regra pra coisa que não precisa de regra. Metal Gear Solid 4 não seria um ótimo filme, Metal Gear Solid 4 é um ótimo jogo.

Vamos mais a fundo e ver como funciona na produção de um jogo. De uma forma compacta, nós temos os compositores, os programadores, os artistas e os designers. Mas seria de uma ingenuidade absurda achar que cada um faz seu trabalho e depois gruda tudo que dá certo. É por essas e outras que existem cargos como diretor, produtor, e vários outros: para que saia tudo com uma coesão, como uma unidade. Posso ir escutar a trilha sonora de Xenoblade 2 agora mesmo no Youtube, mas indiferente de estar fora do contexto do jogo, ela ainda foi feita com seu diretor, Tetsuya Takahashi, decidindo junto com seu diretor de som e compositor, Yasunori Mitsuda, quais músicas iam, não iam, quais necessitavam ser refeitas ou ter uma mudança grande em tom. (A entrevista se encontra aqui) Isso não é uma particularidade dele, é algo comum para que cada elemento levante o outro. É natural que a gente separe as coisas por temas e etapas, analisando a música ou a história individualmente, o problema parte em a gente achar que esses elementos existem por si só e não fazem parte do escopo maior.

(Na foto: Yasunori Mitsuda e Tetsuya Takahashi, compositor e diretor de Xenoblade 2 respectivamente)

Abrace as coisas que gostou, analise elas, mas não procure atalhos para elogiá-las sem perder o status de “entendido”. PUBG é um dos jogos mais mal otimizados e cheio de bugs que já joguei na vida, o que quer dizer que em qualquer outro contexto ele merecia cair no fundo do inferno e ninguém nunca mais falar sobre ele. Mas o jogo é excelente, ter que decidir se vai passar no meio da cidade ou em volta pra evitar tiroteio, ver casas abertas e ficar com medo se tem alguém dentro, dar aquele headshot de final de partida ou conseguir se curar atrás de uma mísera pedra enquanto tem 20 oponentes em volta. Todas essas são experiências únicas e incríveis que o jogo trás. Problemas para rodar o jogo não são irrelevantes, mas também não pesam tanto quando esse obstáculo é ultrapassado. Em nenhum momento sequer posso questionar porque PUBG é tão elogiado, mesmo com os problemas dele. Fazer tal, para mim, seria o mesmo que chegar agora e falar que Super Mario 64 é uma bosta completa porque a camera é um lixo, que estraga o resto do produto todo.

Mas não falo em ignorar os problemas – por favor não ignorem, porque o José PUBG precisa saber pra arrumar o jogo – mas falo em ser sincero com você mesmo. Se você consegue elogiar muita coisa do que você acabou de consumir e ter problemas sérios com outras partes, vale a pena pesar o que importa pra você no final do dia. Não precisa se sentir envergonhado de não se importar com os aparentes defeitos monstruosos que tornam o jogo “injogável”, da mesma forma que não tem que fingir estar completamente maravilhado com a aparente grande inovação que ele proporciona e que pra você tanto faz.

Acho que só quero que sejamos sinceros com nós mesmos quando falamos sobre algo que consumimos. Você gostou de algo mas achou a experiência ao todo ruim? Diga porque é ruim o todo, porque não funciona, porque que isso contamina todo o resto bom. O mesmo vale para algo que achou bom. Mesmo que o resto do mundo tenha desgostado, encontre coisas boas pra falar, não dilua seu discurso por medo, com certeza aponte os defeitos se achar relevante, mas não se acanhe de falar que gostou muito de algo, não se acanhe de falar bem do pacote todo mesmo que ele tenha algumas coisas ruins dentro dele.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
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