Fique calmo: tem outros troféu

Certa vez eu disse que os Nintendistas são os Corinthianos da nossa mídia, sempre fervorosos e loucos para expressar seu fanatismo, entoando gritos de guerra ensandecidos e fazendo piadas no trabalho quando um jogo qualquer da empresa “leva o título” metafórico. Mas, na realidade, muita gente que não é Nintendista também encara as coisas como se sua preferência fosse seu time de futebol, fazendo das glórias de uma empresa ou de um jogo específico objeto central de seu próprio orgulho.

Essa ideia fica mais fácil de ser evidenciada durante a época de premiação que normalmente ocorre no fim do ano. As pessoas possuem um prazer todo especial em debater os motivos pelo qual seu time deveria ser o campeão e merecedor do título naquele ano, muitas vezes desmerecendo a concorrência sem precisar de muitos argumentos, já que a paixão implícita por aquilo que você torce ultrapassa as barreiras do debate, atingindo aquele campo da certeza individual e desnecessária de lógica externa.

Isso não é algo que ocorre apenas na nossa mídia, sendo muito comum também no Cinema, por exemplo. Mas, nos últimos anos, com algumas premiações se afirmando de forma não oficial (porém solidificando-se conceitualmente como tal na mente do público) como sendo o Oscar ou o Globo de Ouro dos Games, percebemos que no nosso meio essa torcida é muito mais densa. Existe toda aquela coisa de quem consome jogos digitais se sentir parte daquilo que joga. Mais do que um mero espectador, sem você atrás do controle o jogo seria apenas mais um emaranhado de códigos e números sem ação ou impacto algum. É o jogador quem abre a caixa, abaixa o véu, inicia a partida, faz as coisas acontecerem. Você é muito mais parte integrante do time Mario do que do time DiCaprio.

É aqui que mora a dualidade, pois a metáfora de time se encaixa muito mais dentro da nossa mídia, mas assim como no cinema ou em qualquer outra premiação do tipo a realidade não poderia estar mais distante. A conexão sentimental está lá, temos todo esse poder e direito de abraçarmos o que amamos como se fossem parte do que a gente é; mas o mérito que esses jogos, empresas e desenvolvedores têm não é medido através de premiações. É algo completamente óbvio, mas que todo mundo parece abstrair ou esquecer por conta desse calor da torcida.

Um time de esporte acaba tendo seu mérito equivalente ao seu desempenho dentro de um período de tempo. Agora, como medir qual é o melhor jogo do ano, qual foi o jogo com a melhor história, ou qual melhor trilha sonora? Existem algumas premiações técnicas que poderiam seguir um padrão, mas a grande maioria das categorias acaba caindo em questão de preferência e voz coletiva. E, mesmo levando em consideração esses parâmetros, as coisas não se encaixam no nosso ambiente.

Perante uma massa total de mais de vinte e cinco milhões de jogadores em menos de um ano, Playerunknown’s Battlegrounds (vulgo PUBG) foi praticamente uma hegemonia da popularidade, alcance e sucesso comercial em 2017. Imagino que não devem ter sido nenhum desses os critérios no “The Game Awards” para se determinar o campeão, visto que ele não foi o escolhido. É importante notar, entretanto, que qualquer que tenha sido outro critério para classificar Zelda como sendo “O Melhor do Ano” provavelmente é insignificante para os gostos da grande massa mencionada. O completo oposto também se aplica, onde a grande maioria das pessoas que acredita que Breath of the Wild é o Melhor do Ano não deve se importar com nada do que PUBG representa.

Quando você torce pra futebol, você torce pra um time que está jogando futebol. Se a gente fosse levar a metáfora proposta inicialmente a sério nossas disputas seriam de um time de hockey contra cozinheiros do Masterchef. O estádio (de futebol americano) todo entoando gritos de incentivo e cantos de vitória enquanto os dois times em campo não sabem nem como disputar entre eles. O juízes entram em campo e hora decidem por gol, hora decidem o prato mais saboroso; apenas um dos times chuta/rebate o disco, enquanto o outro cozinha. Um jogador de Hockey é punido por estar com a luva suja, falta de higiene. Um dos pratos é criticado pela falta de coesão na zaga, e a cozinheira chora para causar impacto favorável. Nem a disputa, nem a torcida, nem a premiação faz sentido. Provavelmente nem a metáfora. E mesmo assim, dado o vencedor, o povo acata como se fosse algo de valor, exaltando seu campeão ou reclamando a injustiça.

Não quero problematizar. Não existe nada de errado com essas premiações como ponto de entretenimento, assim como seria bem interessante assistir ao esporte proposto acima, mas é bom lembrar que elas devem agradar e não ser motivo de frustração ou discussão. Exatamente o mesmo ponto que leva o jogador a criar uma conexão maior com o produto que é fã e fazer ele acreditar que ser parte do time é o veredito final do mérito de um jogo, não qualquer premiação externa. Todas as pessoas que acreditaram na Nintendo e compraram um Switch esse ano mesmo após o fracasso que foi o WiiU fizeram parte do sucesso da empresa, e celebram junto com ela uma vitória. Todos os dois milhões de jogadores que estão diariamente, ativamente jogando PUBG fazem suas engrenagens girarem e fazem parte da vitória pessoal desse jogo também. O prêmio real é pra você: saber que algo que gosta e aprecia esteve presente naquele ano e que teve a oportunidade de estar desfrutando junto daquele momento de conquista e triunfo.

A mensagem final acaba sendo bem infantil, onde todos são vencedores dentro de seu próprio universo, e pode ser resumida naquele “tão brigando por joguinho, caralho?” que eu mandaria em forma de vídeo; mas é algo que estava procurando elaborar melhor em palavras há algum tempo. Acho que meu problema principal com tudo isso é o fato de que a parte da torcida eu acho muito bonito, gosto muito da paixão individual que cada um tem quando aquilo que gosta se destaca aos olhos do mundo, mas a competição forçada e incongruente acaba deteriorando um pouco dessa beleza. Então torça, vibre, faça hype errado. Mas não deixe essas premiações fazerem você esquecer que seu time (por melhor e mais sensacional que seja) já é campeão, mas não está disputando nenhum campeonato.

Hynx

Hynx

Gosto muito de videogames, mas gosto ainda mais de ficar pensando qual a próxima metáfora idiota que eu vou criar para exemplificar enchendo linguiça meus pontos de vista que poderiam ser resumidos em um parágrafo ou dois. É um vício nojento, sim, mas no final das contas eu acho que fica bem legal. A galera gosta...
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