Horror Popular

Clive Barker é mais um popular notável desconhecido. Seu nome evoca ícones, imagens e figuras específicas e únicas. Aquele cara com pregos na cabeça é seu E=mc², mas o que e quem é aquele cara com pregos na cabeça?

É curioso que Pinhead (o nome que a equipe do filme deu ao cara com pregos na cabeça) tenha se tornado um placar tão luminoso na cultura popular. O motivo de sua notabilidade é clara: um homem de feições cadavericamente pálidas e inexpressivas coberto por couro fetichista e metal alojado em feridas não é a construção imagética mais sutil do mundo – nesse critério posta-se rival frontal do xenomorfo e do Predador no campeonato decadal de bichos-papões dos anos oitenta. Mas isso não esclarece o firmamento do personagem de Barker.

Seus outros dois monstros são predadores (haHAA!), agressivamente violentos e em seus filmes são agentes extremamente destrutivos, funcionando como catástrofes naturais, desafiando e engolindo os outros personagens progressivamente, posando desafios escalados. O suspense vem da incerteza da capacidade dos personagens de se livrarem das mortes certamente terríveis – ninguém gostaria de encontrar um desses dois por aí. Se propusermos “Alien”/Predador e Freddy/Jason como os dois tipos gerais de criaturas dessa época teríamos como características gerais a inexorabilidade da ameaça (você pode atirar quantas vezes for, correr o mais rápido que puder, eles sempre estarão lá) e a evasão na retratação da humanidade neles (ou deles), seja por construções criptozoológicas espaciais ou pela ridicularização do que há de horripilante nos personagens.

Pinhead, no entanto, não segue esses padrões. Ele é o completo oposto dos monstros construídos pelo corpus de obras de horror reconhecíveis de sua época e representa com severidade aspectos dos mais humanos, quando mergulhados no abismo. Veja, talvez você não tenha assistido ao filme ou lido o livro, mas Pinhead não é o antagonista principal da história, e talvez nem seja um antagonista de fato. Mas, quando pensamos em Hellraiser ou The Hellbound Heart, ele aparece.

Hellraiser é a história de um hedonista amoral que busca meios sobrenaturais para atravessar a barreira sensorial do corpo humano. E aí é um conto de horror, pessoas morrem, pessoas sofrem, pessoas ficam desfiguradas, pessoas se salvam. Mas os fatos importam menos que as circunstâncias que os rodeiam. Clive Barker trabalha incrivelmente bem na construção de significados iconográficos. A mescla de pregos e outros objetos frios e intensamente desumanos alojados em corpos e couro parafílico da vestimenta dos cenobitas – os “demônios” do filme – encarna estilisticamente o contraste e a composição das sensações puras propostas pela obra, dor e prazer; horror e eroticismo, a elegância na manufatura desses elementos de horror corporal engordam ainda mais a noção de que não há distinção entre uma e outra no cume da experiência sensorial, lá toda dor é prazer e todo eroticismo é horrível. A soma desses elementos implica na utilização dos personagens como concretizadores dos conceitos e temas utilizados, importa menos como agem e mais como são, já que são aquele mundo.

Barker é um grande escritor-paisagista, e sempre se destacou pela forma com que descrevia e modelava mundos: a desilusão do ex-turista em Nova Iorque que descobre a carnificina da fundação e manutenção da cidade em Midnight Meat Train; a cosmologia mística de um oceano que corre para todo o sempre visto em sonhos ao nascer, dormir com quem se ama e morrer; a batalha entre rivais arquetípicos pelo interior da América em The Great And Secret Show. A transcrição de suas ideias e estilo em imagens é poderosíssima e Pinhead é mais um grande exemplo. O horror dele é o horror de um mundo.

SamuelPX

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Deus mesmo, quando vier, que venha armado!
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