Sexto Dia

Texto antes publicado no SMTD. Foi o começo da vontade de fazer o dislu.do acontecer de verdade.

Meu pai é um pastor de igreja evangélica. Vou deixar logo de cara todo o julgamento pertinente aos clichés que acompanha o cargo para o leitor, mas é importante para o ponto do texto dizer que ele nunca ganhou um centavo com isso. Ele sempre teve outra profissão (muito mais glamourosa por sinal, tendo se aposentado chefe de uma das mais importantes subestações de energia do país), portanto depois que se formou pastor nunca pegou dinheiro algum da igreja por não ver necessidade nisso. Muito pelo contrário, eu acredito que ele gasta até um bom dinheiro nessa onda de religião.

A função dele, entre outras coisas, exige que ele escreva um texto para falar na frente da galera duas vezes por semana. Obviamente esses escritos devem ser sobre a religião e todas as suas implicações baseadas em apenas um livro que nem é tão extenso assim. Eu não compartilho da fé dele, então estando de fora eu consigo medir mais sobriamente o quão pequeno é o material que ele tem para trabalhar.

Ele faz isso há mais de vinte anos, e mesmo que na visão dele a Bíblia seja um livro de infinitos ensinamentos existe um certo limite para a quantia de lições, histórias, análises e anedotas que você consegue extrair dali para passar aos seus fiéis. Entretanto ele está lá, duas décadas tirando leite de pedra. Quantas pregações ele já não deve ter montado baseadas em um único Salmo de cem palavras ao longo desses tantos anos? Concorde você ou não com a mensagem passada, o esforço é impressionante.

É impressionante também por existirem alguns paralelos óbvios entre o que ele faz na religião e o que eu faço com videogames. Eu também tenho um trabalho que me paga muito bem e não dependo de nada que eu faço com games para sobreviver, e gasto uma boa parte desse meu dinheiro e do meu tempo com jogos digitais. De certa forma, videogames são a minha religião.

Mas eu tenho sido extremamente falho com a minha fé.

Ao contrário de um pastor cristão eu tenho um mundo completamente aberto de material para me fazer pensar e me empolgar, me dar energia para produzir algo que não seja apenas uma mensagem para quem lê, mas para mim também. Principalmente para mim. Infelizmente não tem sido assim faz um bom tempo.

Sempre que eu pensava em escrever algo me faltava aquela sensação de antes, onde eu sentia que podia escrever sobre qualquer coisa, transformar qualquer tema em outro completamente diferente, misturando pontos de vista mas com aquele pontinho de sentido lá no fundo. Recentemente, entretanto, eu me vi escrevendo cada vez mais não dessa forma ou com a minha visão de o que realmente é significativo, mas simplesmente indo contra a dos outros.

Como eu vinha explorando no final do último texto, que eu terminei de escrever logo antes de começar esse, eu virei um pastor que vive de negar a fé dos outros. Justo eu que tinha um exemplo de pessoal completamente literal para não seguir nessa metáfora. Meu pai jamais debate religião com ninguém, nem comigo. Quando alguém tenta contrariar o que ele acredita, ou fazer pouco caso do que fala ele simplesmente sai de perto e deixa a pessoa com seus próprios argumentos.

Não que agora eu tenha aberto meus olhos e vá virar uma pessoa zen. Eu tenho o temperamento completamente diferente do meu pai e não consigo sair do recinto sem responder quem me deixa ressabiado com algo. Isso com certeza sempre vai continuar sendo assim. Mas os meus textos sérios sempre foram a minha igreja e eu deixei de falar do que eu acredito para negar o que eu odeio.

O mundo que envolve os videogames seguiu adiante. Diversos novos formadores de opiniões surgiram, cada um com o seu novo modo de pensar, e com isso muito do nosso dogma mudou. Para o mundo hoje discutir a sério sobre jogos digitais é falar sobre implicações e responsabilidades sociais, debater importâncias intelectuais e novos papéis emergentes na indústria, tratar arte como se fosse um status que faz da nossa mídia mais merecedora do que antes. Estão desbravando um mundo de invenções feitas apenas para seu próprio círculo aplaudir.

Se você está lendo isso deve saber o quão idiota eu acho tudo isso; portanto eu continuava martelando contra, uma martelada após a outra, cada uma mais fraca que a última. Até que finalmente chegou o ponto onde perdi o pique completamente. Parei toda a comparação do feminismo forçado de Horizon pela metade, pois não sabia para quem estava escrevendo, e com certeza não era mais para mim ou por mim.

A comparação com a religião do meu pai veio sem eu procurar um novo texto. Na verdade, quando eu percebi que a mesma existia foi o motivo final para quebrar de vez o texto passado. Fiz isso pois percebi a diferença entre ele e o eu de antes: semana após semana ele pensa no que acredita e confia para planejar e elaborar o seu material, enquanto eu estava apenas focando no que eu discordo. Com certeza meu pai também tem muita coisa que discorda (se tratando de um líder religioso deve ser o inverso do que é com os videogames, ou seja, pouco material para se apoiar em um mundo de coisas para ir contra); mas também sei que não é daí que ele tira energias para continuar pregando e produzindo.

Novamente, não sei se esse pique que eu encontrei nessa pequena comparação e revelação será algo duradouro, mas eu espero que pelo menos dê energia para mais alguns textos que irão valer a pena. De certa forma o SMTD é meio que uma Seita mesmo, apenas nunca achei que a metáfora fosse tão a fundo assim. Espero que daqui pra frente eu consiga voltar a passar nos textos como eu me sinto com jogos digitais ao invés de como eu acho que o mundo todo deveria se sentir.

Acho que já comecei a fazer um pouco isso aqui.

Hynx

Hynx

Gosto muito de videogames, mas gosto ainda mais de ficar pensando qual a próxima metáfora idiota que eu vou criar para exemplificar enchendo linguiça meus pontos de vista que poderiam ser resumidos em um parágrafo ou dois. É um vício nojento, sim, mas no final das contas eu acho que fica bem legal. A galera gosta...
Hynx

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