NUNCA ESQUEÇA DE GODZILLA

In Audiovisual by Fellipe MendesLeave a Comment

Shin Godzilla começa em um navio em 2016. Godzilla também começa em um navio, mas em 1954. Não  —  Godzilla começa em 1949. Bem, na verdade isso faz com que Godzilla comece em 1945. Muita coisa no Japão começa em 1945.

Pra mim, Godzilla começou em 2007, mas antes disso preciso falar sobre 2005, então vou direto ao ponto (me acompanhe pelos próximos parágrafos enquanto vou direto ao ponto).

Em 2005 eu mudei de escola. Era um colégio pequeno escondido em um bairro menor escondido dentro do bairro em que eu morava. Quando comecei a estudar naquele lugar eu não falava com as pessoas direito. Pesava 80 quilos, lia livros demais e escrevia histórias em quadrinhos do Doug Funny. Eu também jogava videogames.

Na primeira semana de aula me interessei por uma garota da minha sala — só que pouco tempo depois descobri que tínhamos algum grau de parentesco que não consigo explicar até hoje. Eu não tinha amigos lá. Foi um começo de ano complicado. Durante as férias tinha decidido que se tivesse Alguma Coisa De Adulto, conseguiria fazer amigos mais facilmente na nova escola. Duas semanas antes de começarem as aulas ganhei um relógio prateado. Três dias antes de começarem as aulas o perdi em uma ida à praia. Há chances de eu ter feito amigos facilmente aquele ano.

Logo nos primeiros dias descobri que o professor de História e Artes da minha turma, um senhor de uns 50 e bons anos, morava perto da minha casa e nós fazíamos o mesmo caminho depois da escola. Passamos alguns dias indo juntos e falando sobre o colégio até ele dar uma aula sobre cinema.

Com 12 anos eu tinha uma fixação insalubre em Resident Evils de Playstation, o que me fazia ter uma fixação insalubre em filmes velhos de zumbis, e esse foi o assunto da conversa enquanto voltávamos nesse dia.

“Já assistiu Madrugada dos Mortos?”, perguntei ao professor.

Ele afirmou com a cabeça “Gosto do antigo, do Romero”. Foi o primeiro adulto que conheci que sabia quem era George Romero. Ele disse que seu favorito era Dia dos Mortos. Respondi que nunca tinha assistido. Conversamos sobre filmes de zumbis por mais 15 minutos até chegarmos na porta da casa dele. Ele me pediu para esperar um pouco. Alguns minutos depois ele trouxe um DVD de Dia dos Mortos.

Nas semanas posteriores eu e o professor nos tornamos bons amigos. Falávamos sobre filmes, sobre revistas em quadrinhos e sobre História  —  falamos muito sobre História. Falamos sobre Final Fantasy V e sobre Resident Evil. Falamos sobre como seria um RPG de Resident Evil  —  decidimos que seria uma ideia ruim. Era muito bom conversar com ele.

Nesse ano adquiri o hábito de ler livros de História durante o tempo livre, geralmente emprestados pelo professor.

Em 2007 eu estava há dois anos na escola nova  —  o que era tempo o suficiente para não se referir a ela mais como “escola nova”. Na oitava série minha turma tinha oito alunos; os professores não estavam recebendo; o colégio estava falindo. Em Agosto daquele ano nós progressivamente pararíamos de ter aulas até cessar em Novembro. Em Março ainda estávamos tendo aula. Em uma decisão de cultivar empreendedorismo dentro da escola e economizar dinheiro que já não tinham, a coordenação nos tornou responsáveis pela lanchonete da escola. Isso foi divertido por precisamente quatro dias até o forno começar a vazar gás. Depois tivemos que usar apenas misteiras e outras coisas menos perigosas e não era tão divertido já que estávamos em uma espécie de círculo do inferno que envolvia fazer mistos quentes e servir Guaraná Jesus.

Por volta de março de 2007 o professor passou um documentário da BBC em uma aula sobre a Segunda Guerra Mundial: Hiroshima. Descemos todos para o pátio do andar de baixo e lá já estava preparada uma TV e um aparelho de DVD. Sentamos no chão com cadernos e canetas na mão. Eu já havia lido sobre a Segunda Guerra e o bombardeio das cidades, mas assistir esse documentário foi uma sensação bem estranha. Foi uma diferença de estesia muito grande. As coisas que lia nos livros de História geralmente eram distantes, em um plano quase fictício. Navios de madeira, camponeses, jesuítas, imperadores, reis. Quando assisti o documentário foi que percebi que não havia uma barreira temporal grande o suficiente para diminuir o impacto daquilo, era próximo demais. Eram enfermeiras, médicos, crianças, funcionárias de banco. Uma mãe que não teve coragem de entrar nas chamas para salvar a filha. Meu tio-avô esteve nessa guerra. Era assustador pensar que aquilo tinha acontecido e que era tão recente.

Enquanto voltávamos para casa, pedi para que o professor me emprestasse alguns livros sobre Hiroshima. “Você devia assistir o primeiro Godzilla. Fizeram depois dos ataques.”, ele disse, me entregando um livro na porta da sua casa.

Alguns meses depois ele sairia da escola, se mudaria e eu nunca mais o veria. Jamais soube muito da vida dele fora dos gostos e da escola. Ele tinha cabelos grisalhos e já tinha sido casado, mas nunca comentava nada sobre isso. Ele morava com os pais e um irmão deficiente na época. Ele tinha uma risada engraçada que parecia sair de um desenho animado e era o cara mais legal que você poderia conhecer aos 12 anos. Dois meses sendo aluno dele me fizeram ficar aficionado por História. Dois anos sendo aluno dele me fizeram querer ser professor.

Acho que cheguei onde precisava. Vamos falar

Sobre Godzilla Agora

Já tinha passado da meia-noite em alguma noite de Abril ou Maio de 2007 e eu estava deitado em uma cama não perfeitamente alinhada com a janela do quarto sem conseguir dormir. Havia assistido Godzilla (1954) nesse dia. É curioso como de vez em quando a gente entra em contato com a estética em um nível substancial que causa isso. A primeira vez em que essa catarse acontece é quase como ser atropelado por uma motocicleta que costurava pelos carros engarrafados na porta do seu trabalho enquanto você voltava para pegar alguns livros: você provavelmente não vai saber o que te acertou e não vai conseguir explicar para os outros direito o que aconteceu. Com o tempo você se acostuma com a existência dessa catarse e a prática de escrever te ajuda a externalizar o que sentiu, mas isso não faz ela menos surpreendente.

Levantei, fui para o computador e passei o resto da noite lendo sobre Godzilla enquanto baixava os outros filmes.

Godzilla começa em 1945.

Muita coisa no Japão começou em 1945.

Um dos médicos sobreviventes do ataque em Hiroshima, Shuntaro Hida, fala no documentário da BBC que tentava voltar para a cidade para descobrir que impacto tinha sido aquele e encontrou uma figura que ele não sabia reconhecer se era humana. Era uma forma preta sem roupas. Ele tentou checar o pulso, mas não havia pele. A onda de calor que a bomba espalhou quando caiu em Hiroshima derreteu e fundiu as roupas, a pele e os músculos das pessoas diretamente expostas. A forma não tinha olhos ou nariz e metade inferior do rosto era uma boca enorme e deformada. Essa pessoa morreu pouco segundos depois de encontrá-lo.

Os vestígios da bomba fizeram tantas vítimas que poderiam até serem considerados outros ataques. Pessoas que buscavam desesperadamente por água para tentar aliviar a falta de saliva e o calor deixados pelo ataque se amontoando e afogando em lagos e fontes. Dias depois os sobreviventes do impacto se banhavam e tentavam beber da chuva que caia. O envenenamento radioativo tornou a cidade um local inabitável. As cinzas haviam subido e infectado as nuvens e a primeira chuva que caiu na cidade após o ataque não era alívio, era preta e radioativa. A bomba acabou sendo uma arma feita não só para matar, mas para violar.

O início do Japão pós-guerra, mais do que resgates em destroços e reconstruções de cidades, era uma crise cultural que afetava a própria identidade do país. Foi uma reavaliação traumática das crenças e valores, já que o próprio Japão fez atrocidades na guerra. A mudança de um império para uma democracia que eles mal compreendiam. Era a falta de confiança em quem os liderava por tê-los levado a essa situação. Era a vergonha de um exército pelas ações que tomou. John Dower fala em Embracing Defeat como a paz e a democracia se tornam o mantra do Japão pós-guerra para que eles conseguissem reconstruir não só o país, mas a si mesmos, e como isso moldou todas as gerações que vieram depois.

O novo tratado do Japão proibia o país de ofensivas militares. A guerra deixou de ser vista como nobre ou representação de poder e virou símbolo de corrupção moral. Durante a ocupação americana e por vários anos, os Estados Unidos suprimiram informações sobre a bomba e os relatos das vítimas. A censura, em geral, era pelo medo de um sentimento anti-americano surgir dentro do país. Em 1949 eles passaram a permitir que a mídia relatasse momentos sobre as bombas, mas mesmo assim ainda era algo pesado e forte demais para se falar e muitas pessoas não queriam se envolver.

E mesmo após a ocupação americana ter terminado ainda não se falava sobre os ataques livremente. O Japão tinha perdido quase três milhões de vidas de uma forma brutal. Toda essa estrutura cultural, política e social do Japão só existe por conta do sofrimento causado pela guerra. Em uma das cenas do começo do filme, o Dr. Kyohei está falando com o senado sobre Godzilla. Ele apresenta a sua teoria de que essa era uma criatura pré-histórica que vivia no fundo do oceano e que os testes atômicos devem ter acordado ela. O local do ataque da criatura estava infestado de radiação, o que indica que talvez ela devesse ter sido exposta às bombas testadas nas águas. Ele é subproduto dos testes. Nesse momento começa uma discussão se esse fato deveria ou não ir a público já que era relacionado às bombas atômicas. No fim da cena o Dr. Kyohei está de cabeça baixa enquanto todos discutem se devem ou não falar sobre Godzilla em vez de discutir o que fazer com Godzilla.

Godzilla começa com um barco em 1954.

Um grupo de marinheiros está tocando música e se divertindo quando o mar começa a borbulhar e acontece uma explosão cegante. O navio fica em chamas — são as primeiras vítimas de Godzilla.

O Lucky Dragon foi um barco pesqueiro japonês que zarpou no dia 22 de Janeiro de 54 com 23 marinheiros. Após algumas semanas de viagem acabaram se aproximando das Ilhas Marshall, um local de testes nucleares americanos. O Lucky Dragon estava próximo do limite da zona de perigo. Sem avisos e sabendo que os últimos testes ali haviam sido feitos há quase sete anos, eles consideraram seguro. No dia 1 de Maio de 1954 os Estados Unidos testaram a Castle Bravo, a mais potente bomba até então, e o impacto foi mais que o dobro do previsto. As cinzas da explosão se espalharam e infectaram os litorais do Oceano Pacífico e 15 Ilhas habitadas tiveram que ser evacuadas. A explosão também alcançou o barco pesqueiro.

No dia 14 de Maio o Lucky Dragon conseguiu retornar ao Japão com todos os seus tripulantes sofrendo dores de cabeça e náuseas por conta do envenenamento radioativo. O Japão, mais do que qualquer outro país, sabia dos efeitos da bomba e sabia o que ela significava. Por isso vários grupos de protestos pacifistas e anti-nucleares começaram a ganhar força depois do incidente da Castle Bravo.

A primeira cena de Godzilla também é o fim do silêncio sobre as bombas.

Depois da tentativa falha de eletrocutar Godzilla, os soldados começam a disparar tudo o que têm contra ele. Godzilla segue para Tóquio, destruindo prédios, casas e atacando diretamente pessoas com o raio radioativo. No meio do desastre tem uma mãe tentando confortar os filhos dizendo que em breve eles estarão com seu pai novamente. A cena não tem trilha sonora, apenas o som de chamas estalando. Godzilla de 54 é um monstro. Sua pele foi feita inspirada nas marcas de quelóide encontradas nos sobreviventes das bombas. Nada para ele: tiros, tanques, mísseis, torres eletrificadas, nada adianta. A força intransponível, o raio de radiação, a destruição. Ele não é só um dinossauro ou um lagarto gigante, ele é a natureza combinada com a bomba atômica e todos seus efeitos colaterais.

Dr. Serizawa é um cientista que realiza uma pesquisa secreta que apenas ele e sua futura esposa sabem sobre o que é: a Bomba de Oxigênio. Ela destrói partículas de oxigênio, desintegra o que toca. No dia após o ataque do Godzilla, Emiko, a futura esposa, estava no hospital ajudando a cuidar dos sobreviventes. Há um médico com um medidor de radiação no rosto de uma criança e uma menina olhando o cadáver da mãe ser levado. Emiko se desespera e revela a Bomba de Oxigênio na esperança de que ela seja seja capaz de parar o monstro.

O dilema de Serizawa aqui é o de usar a bomba para parar Godzilla e assim o mundo descobrir sua existência. Se políticos ou militares a descobrissem, com certeza a usariam como arma. Uma arma tão potente quanto a bomba atômica, com um poder de violação moral tão grande quanto. Mesmo que destruísse todas as anotações que tem, ele ainda saberia como desenvolver a bomba. Como poderia ter certeza que ninguém o torturaria no futuro para que a construísse?

A cena é interrompida e um coro de crianças canta pelas TVs e rádios. A esperança e as forças do Japão. Serizawa destrói todas as anotações e aceita parar Godzilla.

Durante a cena final, Serizawa e Ogata descem com roupas de mergulho e com a Bomba de Oxigênio para destruir o monstro. Serizawa infla a roupa de Ogata, que sobe de volta ao barco, para ficar sozinho no fundo do mar com Godzilla. Ele ativa a bomba e depois corta o próprio oxigênio, para que nunca mais houvesse outra bomba como aquela no mundo. Godzilla vai à superfície tentando escapar, mas não sobrevive. A cena não tem música heróica tocando. Não é honrosa. Não é nobre. É triste. Godzilla não era mais uma alegoria para a bomba e para a força da natureza, era mais uma vítima.

No fim o Dr. Kyohei diz que Godzilla era o único da sua espécie, mas se continuarmos experimentando com bombas nucleares, é capaz que mais Godzillas apareçam pelo mundo.

Não é um filme agressivo de forma nenhuma. Ele não trata os Estados Unidos como monstro. Godzilla de 54 é um pedido para o fim dos testes e das armas nucleares. É um pedido que vem de um país que sabe os resultados que ela pode trazer e sabe o horror que é senti-los.

Toda essa mensagem foi perdida ou alterada para o resto do mundo. Por muitos anos, Godzilla, King of Monsters (1955) foi considerada a versão oficial fora do Japão. Uma reedição americana do filme de 54 com toda a temática anti-nuclear removida e com a adição de um ator americano nas cenas para que a platéia pudesse se relacionar com a história. Vários diálogos em japonês nem sequer foram dublados ou legendados. Por isso muitas das cenas perdem contexto. Aqui não há viúva no meio dos escombros tentando confortar os filhos. Não há debate no senado sobre informar ou não sobre Godzilla ser produto das bombas. Todo o discurso pacifista é praticamente ignorado e a remoção de cenas e cortes de áudios subverte toda a mensagem original. Em vez da fala do Dr. Kyohei sobre o uso de bombas nucleares acabar trazendo mais Godzillas, o filme termina comemorando que “o mundo pôde se reerguer e viver novamente”.

Um dia na minha quinta série eu conheci um garoto um ano mais novo. Ele estava com umas cartas de Pokémon sentado em um banco de concreto perto da passarela da escola e, como ele estava sozinho, decidi sentar junto. Ele falou seu nome, eu falei o meu, e a gente começou a conversar sobre Pokémon. As cartas não eram dele, ele tinha achado, mas não ia poder levar pra casa porque os pais não gostavam. Contei pra ele mais ou menos como funcionava: pokébolas, treinadores, Equipe Rocket, etc. No fim do intervalo voltei pra sala e ele foi devolver as cartas para o lugar onde tinha achado. No outro dia eu o vi de novo, mas como estava com uns outros meninos eu preferi não ir falar porque “eles eram garotos da série mais nova”. No terceiro dia ele não foi à escola. Descobri que tinha acontecido um acidente com um dos alunos e não teríamos aula. Quando voltei para a escola no outro dia perguntei aos amigos dele e eles falaram que ele era quem tinha sofrido o acidente. Estava andando de bicicleta perto de casa e decidiu ir até a avenida principal, tinha um caminhão de lixo passando e ele não conseguiu frear a bicicleta direito, então caiu e escorregou para debaixo do caminhão. A roda passou por cima da cabeça dele. 

Eu não consegui parar de pensar nisso por muito tempo — a ideia de que alguém em um momento está ali e no outro simplesmente não existe mais em lugares que não sejam o passado é algo difícil de digerir. Meus pais não sabiam que eu havia falado com ele, então não havia motivos para tentar me explicar o que tinha acontecido. Na verdade acho que ninguém sabia que havia o conhecido dias antes. Uma professora falou sobre ele estar em um lugar melhor, mas o que dizia não batia com o tom que falava. Sobre a escola toda caiu um peso do qual não se devia falar sobre — ou se sentia que não devia, já que aquilo parecia tão maior que eu ou os outros alunos. A verdade é que ninguém sabia o que falar, só esperavam que não acontecesse de novo . Todo mundo tinha um gosto amargo na boca. Foi o primeiro contato que tive com a morte e ainda me sinto mal por não lembrar o nome do garoto.

É o fim de Godzilla de 54.

Quase dez anos depois daquela noite, estava deitado com os dedos entrelaçados sobre a barriga vendo os pingos da chuva batendo na minha janela de madrugada. Não moro mais na mesma casa, não tenho mais os mesmo amigos e não tenho mais o gosto que tinha por filmes do Romero. Depois de uma breve decepção com publicidade, agora sou professor, tenho um corte de cabelo decente e sou um pouco mais responsável. Naquela noite minha mãe levantou duas vezes para ir ao banheiro e o vizinho do andar de cima acordou e voltou a se balançar na rede que range pelo prédio inteiro.

Naquela noite assisti

Shin Godzilla

Shin Godzilla também começa num barco.

A guarda costeira Japonesa encontra um barco abandonado no meio do mar com tudo no lugar, óculos, sapatos, documentos. Durante a revista há uma explosão no mar que destrói parte de um túnel subaquático. Vemos em primeira pessoa as primeiras vítimas de Godzilla sumindo em meio ao sangue que vazava para dentro da ponte. Depois de alguns minutos, Godzilla sai da água e vai em direção à cidade, vazando litros de sangue, espalhando torrentes de água e derrubando prédios.

No dia 11 de Março de 2011, aconteceu o maior terremoto que já impactou o Japão, com 9.0 de magnitude. Além de todo o estrago, o impacto gerou uma tsunami que varreu mais de 180km da costa japonesa. Esse estrago todo resultou em várias cidades e casas destruídas e mais de 15 mil falecidos e 6 mil feridos. O impacto da tsunami se espalhou e inundou a usina de Fukushima, que perdeu energia e entre 12 e 15 de Março culminou em três derretimentos nucleares na cidade, com vazamento de material radioativo, e tudo isso foi potencializado por falta de comunicação e de instruções o suficiente em respostas de contenção. O maior desastre no Japão desde a Segunda Guerra Mundial. O começo de Shin Godzilla, assim como o de 54, abre uma janela para as feridas ainda não curadas.

“Ele só esteve em terra por duas horas e olha o estrago que ele fez.”
“Não. Nós que tínhamos duas horas para montar uma resposta. Decepcionante.”

Durante o resto da Era Showa (1954 a 1975), Godzilla mudou para se adaptar ao Japão que havia emergido. Ele era a força que protegia o país de outros monstros. Antes da bomba, o Japão já era um país que convivia com terremotos, furacões e tsunamis constantemente; depois da bomba ele continuou a conviver e os monstros dos filmes eram representações físicas desses desastres. Godzilla não era mais apenas o terror, mas também um defensor (às vezes com tons infantis e de comédia, mas inegavelmente cada filme era seu próprio bastião de criatividade). Mais do que temido, ele era respeitado e admirado. Eram as atitudes do Japão pós-guerra para uma nova geração que não havia lidado diretamente com ela. Destruição e reconstrução ad infinitum. Godzilla ainda mudou várias vezes nas Eras Heisei (1984 a 1995) e Millennium (1999 a 2004), mas sempre mantendo um respeito pelo que ele representa: a força inabalável da natureza e os medos de cada época. Os vários enfoques e perspectivas que só conseguem representar Godzilla por serem um coletivo. Entretenimento que reflete e é refletido pela cultura. Daí o significado da palavra シン (shin) em Shin Godzilla, por estar em katakana e não em Kanji, não indicar um significado definido entre novo, genuíno, divindade, progresso/evolução e vários outros. Por mais que fique evidente o “Novo”, por esse ser o primeiro Godzilla (Japonês) a não ser sequência da história original, todas as outras palavras navegam o campo semântico dos temas do filme sem o limitar linguisticamente. Shin é um novo Godzilla para um novo Japão. Uma nova encarnação para novos terrores que precisam aprender a conviver. Por isso é um filme muito mais denso do que qualquer um dos pós-1954.

A inação é um dos maiores aspectos do terror e do medo. A incapacidade em resolver ou evitar o iminente. A capacidade de erguer famílias, comunidades e nações sob ideais, de melhorá-las para prosperarmos, mas a eventual irreflexão em relação a todos esses sistemas e as consequências e as mudanças que ocorrem. O Japão contemporâneo letárgico é o terror retratado em Shin Godzilla. O primeiro filme é a respeito da relação do Japão com sua postura durante a guerra e com os ataques nucleares; Shin fala do tipo de país que ele se tornou por conta de tudo isso. É uma evolução de 1954. É um resultado desse progresso, dessa relação submissa com os Estados Unidos e outros países, da inabilidade do governo em lidar tanto com desastres como o sismo e tsunami de Tohoku de 2011 quanto com o acidente nuclear de Fukushima que veio em seguida. Shin relembra que o pós-guerra dura pra sempre.

Em uma das primeiras cenas do filme, Rando Yaguchi está em uma mesa de reunião com vários políticos para começar com as primeiras ações após o acidente no túnel subaquático. Todos apresentam suas teorias cheios de convicção, até o próximo abrir a boca e contradizer o anterior. Yaguchi fala dos vídeos online sobre uma criatura no mar, o ignoram, o tópico da reunião muda, então todos precisam mudar de sala. Depois de todos discutirem sobre como é impossível ser uma criatura, o filme imediatamente corta para a cauda gigante saindo de dentro da água. Depois de confirmarem que há alguma coisa na água, o tópico muda novamente e eles precisam retornar à sala anterior para discutir outra vez como proceder. Ao passo que essas reuniões xucras acontecem, Shin Godzilla se torna mais e mais uma sucessão de bombas de informação. Os abundantes personagens são sempre apresentados com seus títulos e cargos políticos expostos na legenda; os locais mostrados são sempre indicados em textos; até helicópteros tem suas próprias legendas designando modelo, função e número. Os títulos do Yaguchi crescendo durante o filme a ponto de tomar três linhas de legenda quando próximo do fim é o cúmulo disso. Tudo na linguagem do filme expressa a complicada logística de lidar com o inesperado e toda a burocracia que a envolve e restringe. Todas as decisões demoram tanto a ser tomadas que Godzilla evolui e se adapta e, no fim, se torna um reator de fissão nuclear ambulante que não pode ser parado. Grande parte dos estragos vem da inação.

Essa linguagem segue da mesma forma em relação aos personagens. Enquanto no primeiro Godzilla saber as relações familiares e amorosas entre os personagens é importante para história, aqui não há espaço para isso. Todas as pessoas sendo apresentados têm funções estratégicas e táticas. Soldados, biólogos, cientistas de computador e políticos, todos só estão ali pois podem ajudar de alguma forma. Shin Godzilla não tem tempo para desenvolver laços pessoais de ninguém ali, então toda troca de câmera, toda linha de diálogo repetida entre membros de rankings diferentes em busca de uma permissão ou informação, toda pasta de documentos que é jogada de lado para o outro da mesa em ritmos frenéticos ou gráficos mostrados impressos na tela, são apenas em relação a Godzilla e o que ele representa para o país. 

Godzilla cresce e evolui, a preocupação se torna mundial e as negociações e discussões com outros países aumentam. Quando surge a ideia de que lançar uma bomba atômica no monstro é a única opção possível de eliminá-lo é que a perspectiva muda. A batalha final apresenta a busca por, além de salvar o Japão desse monstro, evitar uma segunda bomba atômica. Evitar o fantasma. Evitar 1945. A humanidade exposta pelo inumano.

Justamente em meio esse entravamento todo é que surge a visão otimista que o filme carrega. Todos os passos do processo são claramente ineficientes, só que as pessoas não são. Seria simples ter algum personagem que fosse um vilão que se opusesse a impedir Godzilla por qualquer motivo que fosse. Seria simples ter alguém para se olhar e apontar dizendo “então, tudo daria certo se não fosse por ele”, mas a realidade é que todos os envolvidos estão tentando entregar o melhor que podem ali. Até o Primeiro Ministro, que é constantemente alvo da piada Dizer Que Algo Não Vai Acontecer *corte de cena* Acontece Algo, é alguém que acredita nas decisões que toma. Ele prioriza a vida de civis, ouve opiniões e as leva em consideração, quer ficar e vistoriar o bombardeio no monstro mesmo que haja risco de morte por considerar isso função sua como Primeiro Ministro. Do mesmo jeito, Shin não antagoniza a relação com os EUA, apenas a reconhece como algo com pontos positivos e negativos. Nenhum dos personagens existe fora dessa esfera de decisões em relação a Godzilla. Ninguém precisa também, já que todos se completam. Não há inimigos humanos porque, na maioria das vezes, as pessoas não são monstros. O inimigo é a burocracia, as obstruções do governo em conseguir lidar com eventos que vêm como Godzilla veio.

Há um momento que um dos personagens comenta de como é inspirador ver o que está acontecendo ali “sem jurisdição entre ministros, apenas pessoas trabalhando juntas” ao que Yaguchi responde “você está certo. Ainda há esperança para esse país”.

Um grupo de introvertidos, nerds, desordeiros, párias, hereges da academia e anti-burocáticos.

O filme não se preocupa em apresentar detalhes de vida pessoal porque aqui esses indivíduos são formados por preocupações, gesticulações, excentricidades e ações. O coletivo formado por cada pessoa dessas é o que forma a identidade do personagem: o Japão, como nação, resistindo ao apocalipse com trabalho em conjunto.

Shin Godzilla sabe que não só o Japão, mas a humanidade, é capaz de muito mais e que não há como fugir de certas coisas. Enquanto o de 54 termina falando sobre eliminar Godzilla e temer a vinda de outros, o de 2016 fala sobre ter que conviver com ele. Como diz um general a um soldado depois de falharem em conter Godzilla com seus tanques e helicópteros: “Nosso objetivo não é destruir, é salvar pessoas, e isso ainda podemos fazer” e é isso que eles fazem.  Ao fim de tudo não há o tom mórbido e anti-nuclear do original. Nem o tom vitorioso despido da mensagem da sua contraparte americana. Ao fim há apenas suspiros de alívio seguidos de silêncio. Não há saída. Godzilla está lá, no meio da cidade, estável, sob controle, deve-se acostumar. É uma condição constante. O que podemos, o que devemos, é prestar a atenção. Ficar alerta quanto a consequências. É novamente a destruição com a esperança de reconstruir tudo da maneira certa dessa vez. 

Hoje, 3 anos depois de Shin Godzilla, 65 anos depois de Godzilla, e 12 anos depois da oitava série, sento aqui repuxando todas essas memórias do fundo da mente e consigo apenas agradecer a esse professor. Não sei ao certo o quanto aquela noite assistindo Godzilla me afetou, mas sei que afetou. Talvez não tivesse optado por fazer o que faço hoje sem esse senhor que hoje deve estar com seus 70 e poucos anos e sempre me disse, nunca com palavras, que ensinar e compartilhar é a melhor coisa que há. Não sei se ele assistiu esse filme. Não sei sequer se ele ainda está vivo, espero que sim. Mas sei que, se o viu, certamente gostou, porque a visão dele sempre foi a de que talvez um lagarto gigante servindo de metáfora não seja o suficiente para mudarmos de verdade, mas pelo menos é o suficiente para nos fazer acreditar que podemos.

Fellipe Mendes

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