A ÚNICA SAÍDA

In Jogo, Texto by Fellipe MendesLeave a Comment

Existe uma constante inação nas memórias. Não se pode fazer mais nada a não ser lembrar delas. O passado só consegue machucar porque não há como mudá-lo ou voltar para ele. É assim, tudo que está feito não pode ser desfeito; tudo o que foi vulnerado não pode ser invulnerado. O passado só está lá para se lidar e relembrar. Ele não se importa se você gosta dele ou não, ele só aconteceu. Detention é assim.

Existe uma constante inação em Detention. O jogo te empurra por situações e, por mais que você leve itens de um lado para o outro ou resolva quebra-cabeças, a mais forte é a sensação de não avançar ativamente. Não é uma superação ou uma decisão, é um processo. Tudo já foi feito. Quando você chega, todas as escolhas já aconteceram, todas as ações tomadas e todas as consequências vividas. Cada capítulo é a sensação de estar revendo vídeos gravados, fotografias salvas e ouvir alguém te contando sobre uma viagem ou uma história da infância. Uma sequência de lembranças-imagens que invadem a percepção e a alteram e alienam. Não existem floreios ao redor disso. Sem rodeios pra te fazer pensar que as suas ações movem o jogo, ele não se importa nem um pouco com isso. Detention é cru e você segue pelas lembranças porque é a única coisa que pode fazer agora. É como estar vivendo um dia em O Feitiço do Tempo, mas tendo a sensação de já ter vivido centenas por tanto ter retornado a essas memórias.

A condescendência em Detention paira também pela forma de enfrentar o que te persegue. Mesmo que ele no começo pareça querer que você explore, escape, resolva, é da inação e da aceitação de incapacidade que esse jogo é constantemente alimentado. Porque, sim, às vezes, quando os monstros chegam, segurar a respiração, fechar os olhos e esperar eles irem embora pode não ser a melhor resposta ou a que você queria. Só que pode ser a única que você tem no momento.

Quanto mais você adentra as memórias, menos monstros aparecem. Como se, ao ignorá-los, você fizesse eles te ignorarem também; pelo menos até onde dá. Pelo menos até onde você se torne o único monstro. Enquanto tudo se torna uma cascata surreal de acontecimentos, os cenários, cores, texturas e sons acompanham tudo, criando um sonho febril que mistura todas as coisas que você viveu nos últimos dias independente de ser coerente ou não. O terror sépia da escola com espíritos que te atacam deixa de existir.

É um jogo sobre encontrar saídas, mas não há nenhuma. O fugir da escola se torna um fugir do que aconteceu na escola, e aí morre toda oportunidade de sucesso porque não há como. Toda a multitude de memórias que prolongam o passado até o presente estão lá pra te reafirmar o tempo todo que não há como.

É como um jogo com intenso uso de escolhas de diálogo em que no segundo ato você é vítima de tortura impetuosa e perde a capacidade de falar. Então, no último ato todas as suas escolhas até o final do jogo são feitas por meios de gestos sem explicação escrita, apenas baseados em linguagem corporal. (inclusive, gostei dessa ideia enquanto escrevia. Se tivesse meios também faria ele ser sobre guerreiros orientais feudais e lançaria em 2019 só pra ver mais gente reclamando que tá saindo Muito Jogo De Samurai).

Como reagir em meio a tanta complacência? Como entender lembranças que se quebram em fragmentos infinitos de existência? Como que todas as lembranças evocadas das percepções passadas para as presentes podem ser tão mais reais que qualquer outra coisa? Não importa o que aconteceu ou como aconteceu. Não há saída de verdade, pelo menos não enquanto tudo o que você quiser for fugir. Se o espírito é quem guarda todas as lembranças e o corpo é quem escolhe quais carregar consigo, o que fazer quando chega a hora do corpo não estar mais ali?

Por mais que às vezes você só possa fechar os olhos e segurar a respiração enquanto espera o pior passar, eventualmente vai vir o momento em que você volta para as suas memórias em paz e consegue sentar frente a frente com o que te assombrava, mas agora desperto, vivo e sem medo.


Fellipe Mendes
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