Como não fazer piadas

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Recentemente o Samuel PX encheu linguiça nos presenteando com seus pensamentos sobre construções de piadas. Entretanto, após analisar recentes fatos, acredito que tenha faltado um pedaço mais explícito sobre como não construir piadas.

Vamos usar um péssimo exemplo recente. O já famigerado grupo Xbox Mil Grau, após decidir abandonar uma ótima oportunidade de ser uma importante voz contra a “mídia especializada” para se provar a exata personificação do que seus opositores acreditavam ser, mandou em seu twitter recentemente algo que eles consideram ser uma piada. Segue abaixo:

A “piada” é com o jogador Neymar, que após acusado de estupro vazou toda a sua conversa com a garota que o acusou na internet, uma atitude “nutella” segundo os membros do grupo Xbox Mil Grau. Uma atitude “raiz” (segundo eles) deveria ser como a do goleiro Bruno, culpado por homicídio triplamente qualificado após matar, esquartejar Eliza Samúdio, sua amante, e dar os pedaços para cachorros comerem na tentativa de sumir com o corpo. Não precisa ser muito inteligente pra entender que isso não é uma piada.

Uma piada, até em seus piores casos possui uma “moral da história”, uma pegadinha no fim que faz você entender por que o ato de deturpar um conceito foi engraçado. Uma piada de gaúcho por exemplo:

“Teve um leilão no Rio Grande do Sul, e quando o leiloeiro perguntou “Quem dá mais?” eles levaram horas para encerrar a discussão que gerou entre os gaúchos que começaram a competir entre si.”

Embora seja uma piada ruim, e use a homossexualidade, algo que não é bem visto atualmente como sendo alvo de piada, ainda retém status de piada pois a “graça” não está apenas no estereótipo, mas sim no exagero e quebra do contexto apresentado, que dificilmente seguiria essa linha na vida real. Tirar essa parte faria toda piada de gaúcho ser exatamente apenas “tinha um gaúcho gay” ou “tinha um português burro”.

Mas nesse caso mencionado, a inabilidade de se criar uma piada é tanta que o conteúdo não se baseia nem mesmo em estereótipo ou contexto. Simplesmente se traduz em “O que o Neymar fez é coisa de frouxo. Homem mesmo assassina.” – não existe outra forma que o leitor pode imaginar tal narrativa e se surpreender comicamente com o resultado. É preciso ser um completo idiota e psicopata para seguir após a leitura com “hahaha isso mesmo, tem que matar e esquartejar maria chuteira”. É essencialmente nisso que se traduz também achar graça dessa “piada”.

Ainda mais imbecil que eu, explicando o óbvio do que é engraçado ou não, são os membros do Xbox Mil Grau que se defendem da represália que seguiu esse post dizendo que adotam o humor de “Hermes e Renato, Casseta & Planeta, Trapalhões, Mamonas Assassinas”. Ou eles vieram de uma realidade alternativa onde esses programas eram completamente diferentes do que eu assisti, ou o cérebro deles está tão comido por rixas com rivais que não percebem que não existe a menor brecha para comparação entre nenhum desses comediantes e eles. Todos esses grupos mencionados criavam piadas que hoje podem ser consideradas pesadas ou politicamente incorretas, mas em nenhum dos casos a piada era diretamente um insulto, um abuso ou um crime da vida real; e com certeza absoluta nenhuma delas tinha como resultado “hahaha homicídio triplamente qualificado”. Além de serem completas mulas ao tentar criar conteúdo cômico aparentemente não conseguem nem conceber como seus ídolos formularam graça no passado.

Eles seguem também refutando e rindo dos críticos ao caso como se tudo fosse um simples “bait”, uma isca para provocar seus opositores. Mas não é verdade, não é mesmo? Se não achassem que a tirada foi genuinamente cômica, acreditando ser uma mera provocação, não citariam comediantes famosos e buscariam auxílio de outros comediantes em seu feed recentemente. Realmente acreditam ter graça no post e que quem não concorda está em outro espectro político social. Aos olhos do Xbox Mil Grau quem diz que o post foi sem graça é até criminoso, deve com certeza ser feminista, esquerdista ou o que diabo eles inventam para se esconder atrás de sua inabilidade ou falta de graça e senso.

Uma outra evidência que o Xbox Mil Grau não sabe fazer piada é esse RT recente que a própria conta deu no meio dessa discussão toda:

Seja o braço exposto da mãe, namorada, irmã ou parente, a “piada” deixa de ser uma piada pois não somos a mulher na imagem. A piada só funciona entre eles. Se fossemos ela talvez saberíamos o motivo do machucado e confiaríamos que ele jamais iria nos machucar (espero muito), ou seja, seria uma piada baseada no sarcasmo. Nós, na pessoa dessa mulher, pensaríamos “hahaha jamais ele faria isso, essa é a graça”. Agora, simplesmente jogado assim se traduz em basicamente “hahaha abuso doméstico”. Minha única dica nesse caso em questão é que essa mulher jamais acuse o rapaz de nada, pois já sabemos qual atitude ele considera a atitude “raiz” a se tomar nesses casos.

Nem mesmo no sentido lógico a tentativa de piada do goleiro Bruno tem palco, pois o próprio grupo Xbox Mil Grau rebate seus haters apenas com risadas forçadas e draminha na internet. Se fossemos seguir a mesma lógica de seu post poderíamos criar uma assim:

A “piada” possui o tanto de graça quanto a primeira (zero), comparando um rapaz adulto e barbado que lida com os haters trollando na internet versus um genocida que matou milhões. Possui também o mesmo esforço: colocando no segundo lugar um conhecido vilão aos olhos de praticamente todo mundo. Portanto, perdoe-me ter chegado até o ponto de criar essa imagem, mas logicamente concluímos que:

  1. a piada não tem graça, ou
  2. tem graça sim, e a parte “nutella” continuará sendo um maricão criadaço com a vó a menos que elimine seus haters através de um genocídio

Fico feliz que o rapaz acima, bem como todos que apoiam sua atitude online, achando graça em da “piada” do goleiro Bruno, tenham ironicamente de certa forma lógica escolhido a segunda opção. Para todos nós outros ela permanece sendo um grande exemplo de como jamais tentar fazer uma piada.


Hynx
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