Filme de Jogo

In Audiovisual, Jogo, Texto by HynxLeave a Comment

Jamais irei entender o que esperamos de adaptações de videogame para filme no geral. É claro que existe o mínimo possível que se espera para não sair do cinema em depressão, algo que fica mais claro quando se é criança e as nossas expectativas são menores e mais fáceis de atender. Mas através de tão pequenas expectativas sendo negligenciadas no cinema ao longo de anos, como a falta de um Hadouken em Street Fighter e praticamente tudo em Mario Bros, era de se esperar que nossa sociedade já estivesse calejada.

Para ser um pouco justo, as coisas não se comparam tanto com a realidade atual, já que a laia dos filmes anteriormente citados, somados a Double Dragon formando a Trilogia das Primeiras Tentativas, foram pessimamente produzidos, com um orçamento fundo de quintal e lotado de atores chulezíssimos que provavelmente estragariam até comercial de pasta de dente (perdão, mestre Raul Julia, mas acredito que você concorda comigo – foda-se Van Damme).

Bom. Sei lá.

Talvez tenha sido a idade que foi aumentando, ou talvez o dinheiro injetado nesses filmes (e por tabela valor de produção deles), mas o conceito do que era esse “mínimo esperado” acabou ficando cada vez mais abstrato. Na época que surgiu Tomb Raider e Resident Evil, os dois mais conhecidos da próxima leva, minhas esperanças ainda eram bem básicas – que a Lara fosse gostosa e que, bem, tivesse zumbis — e, mesmo nesses casos elas tendo sido atendidas, ainda saí do cinema sentindo falta de algo. O grupo de gente que sente o mesmo deve ter sido menor do que os que fizeram terapia pra esquecer o Blanka do filme do Street, mas ainda abrange muita gente.

Olhando no wikipedia a lista de adaptações eu simplesmente vejo uma enorme tabela de decepções e sonhos quebrados, com exceção do primeiro Mortal Kombat, que soube bem onde pisava e deixou de lado a ideia de ser um bom filme para dar tudo o que a galera queria ver. Veja em contraste que o segundo filme, Annihilation, tentou dar mais do que podia e acabou cagando no pau (embora, sinceramente, eu prefira muito mais como adaptação do que outros filmes que foram melhor recebidos ao longo dos anos).

Absorvendo tamanha rejeição, até mesmo por filmes que entregam o que a galera achava que queria, dá pra se pensar que na verdade ninguém quer filme de jogos de videogame. É algo que simplesmente não consegue nem mesmo alcançar aquilo que o inconsciente coletivo gerado por quem jogou. É tentar desvendar uma nébula densa de impressões, sentimentos e anseios muito complexa e pessoal para se transformar em noventa minutos de gravações com atores e computação gráfica.

Mas daí a gente tem o filme do Sonic.

Voltando atrás e comparando com as nossas expectativas quando crianças, nós temos aqui um filme que o Sonic é realmente um bicho azul de tênis que corre pra caralho e não um personagem interpretado por um humano que não corre durante o filme todo. Temos também um vilão chamado Dr. Robotinik interpretado por ninguém menos que a porra do Jim Carrey; que como bônus (nem precisaria ter) realmente acaba se parecendo com o vilão original ao longo do filme. Ele quer salvar o mundo com a sua velocidade, faz piadinhas e é malandrão, e olha um relógio de pulso imaginário. Esse filme seria o filme perfeito dos anos noventa. O mundo seria outro se nós crianças tivéssemos visto esse filme ao invés de Mario e Street, seríamos todos bem resolvidos, felizes com nossas vidas e cientistas de foguete ou alguma coisa desse tipo.

Entretanto hoje tratamos o Sonic, ao lado do caralho de um filme de Pokémon que realmente tem os pokémons, com comentários como “tá muito feio” ou “a textura tá muito estranha”. Não estou sendo simplista e dizendo que basta ter o que o jogo tem para uma adaptação ser boa, mas não consigo entender como ninguém faz uma conexão direta com o que a gente queria no passado. Os filmes em questão podem no final das contas serem uma merda completa, e tem o fato do desejo entregue estar atrasado algumas décadas, mas as vezes a gente precisa arrumar a base para entender onde progredir de maneira certa.

Não acredito que adaptações de videogame em filme devam ser expurgadas da face da Terra, mas acredito que para tentar fazer algo que dê realmente certo temos que dar essa volta que o Sonic deu para tentar atender o básico que a gente queria muito anos atrás. Portanto vá ao cinema e dê mais uma chance para essas pequenas aberrações. Talvez acabe não gostando do que vai ver, mas tenho certeza que uma criança dos anos noventa dentro de você vai vibrar.

PS: Esse é finalmente meu centésimo texto sobre como éramos melhores quando criança. Talvez tenha deixado de ser uma mera alegoria pra encher linguiça. Talvez seja verdade.

Hynx

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