Final Fantasy V e conforto

In Jogo, Texto by LuiggiLeave a Comment

Acho meio difícil escrever sobre RPGs. Nunca sei se devo falar sobre a história, sobre o que o jogo faz de diferente ou sobre o gameplay, que é basicamente bastante igual entre os jogos dessa era da Squaresoft. Final Fantasy V me deixa com vontade de falar sobre tudo isso e um pouco mais.

O original de Super Nintendo nunca saiu no ocidente. Não consigo encontrar fontes confiáveis sobre tal afirmação, mas aparentemente era porque o jogo era muito difícil, chegou até a ser nomeado “Final Fantasy Extreme” enquanto passava pelo processo de tradução. Eu joguei a versão de Game Boy Advance, então não sei o quão similar ela é em relação à de SNES. Também não sei se foi porque o último Final Fantasy que joguei antes desse foi o III no Nintendinho, que é absurdamente difícil, mas achei ele bastante normal em dificuldade.

Talvez essa percepção tenha vindo do sistema de jobs do jogo, em que, diferente do I, onde você só escolhe no início, é possível mudar na hora que quiser sem nenhuma consequência. Final Fantasy III também possui um sistema semelhante (novamente o original nunca saiu no ocidente), mas a principal diferença é que FFIII limita a troca de jobs por pontinhos que você ganha em batalha, além de meio que exigir em momentos que você troque de job para se adaptar à situação. Excetuando os pontos, isso também é presente em FFV, porém de forma menos agressiva, já que todos os jobs são viáveis. Isso tira um grande peso de ter que iniciar o jogo pensando em otimizar seu personagem, pois simplesmente não há caminho ruim a se tomar, só diferente.

O diferencial das classes nele é o sistema de masterização, que é o motivo por que você vai querer grindar com sua preferida até o máximo. Por exemplo, pegando um nível na classe White Mage, você pode depois mudar para um Knight e associar o comando !White a ele, o que tornará possível o uso de magias brancas de nível 1 e assim por diante. Cada classe possui um comando próprio e um espaço vazio para customizar, sendo assim de grande interesse pegar nível na classe até vir aquele comando que você acha muito útil. Mas fora os comandos, toda vez que você masteriza um job, outros como Freelancer e Mime ganham bônus de status e algumas habilidades inerentes da que foi masterizada, sendo assim bastante vantajoso seguir um caminho que você goste para o personagem.

Esse caminho é variado e na verdade é o charme secreto de FFV. É onde você se expressa pelo jogo, é onde fica divertido tirar uma foto de cada etapa e lembrar o que você estava fazendo ou pensando. Dificilmente uma jogatina de FFV vai ser igual pra todo mundo: será que alguém vai ser maluco o suficiente pra fazer um Bartz Summoner, Black Mage e Bard? Ou transformar a Faris num Samurai cheio de HP e a Leena numa Monk com Rapid Fire de Ranger? Minha lógica para isso foi inteiramente pessoal, eu decidia por qual classe eu queria jogar, qual que eu gostava do design da roupinha e também qual eu achava que fazia sentido pro personagem (Bartz sendo o único que representava decisões mais pessoais). É muito fácil imaginar a Faris, uma pirata, sendo uma ágil Ninja ou uma potente Samurai, mas também é divertido colocar Leena, a princesa do jogo que claramente tem tendências para White Mage, como Monk ou Dancer. Nada melhor que lutar contra o Exdeath quando seu personagem está com o pijama característico do Geomancer. Há tantas combinações que não duvido que hajam pessoas que passam anos só rejogando de formas diferentes e inusitadas (como esse vídeo do indivíduo derrotando o Omega, um dos chefes mais difíceis do jogo, enquanto transformado em sapo e lvl1)

É também esse o motivo por que existem eventos como o FourJobFiesta, um momento do ano onde todo mundo que se interessa joga Final Fantasy V ao mesmo tempo de acordo com algumas regras pré-dispostas, geralmente só trocando de job cada vez que se ganha um novo do cristal. É um desafio e um evento em comunidade, que serve não só para arrecadar dinheiro para caridade, mas também como um atestado do quão especial e querido o jogo é. Não é à toa que Gilgamesh aparece em tudo quanto é jogo, nem que Battle on the Big Bridge venha sempre acompanhada dele, ou que ambos jogos online da série baseiam suas roupinhas de classe nas desse jogo – ele talvez seja esquecido, ou até desconhecido, pelo resto do mundo, mas não perdido.

Final Fantasy V, como história, não toca em nenhum ponto extraordinário, mesmo tendo dimensões paralelas e um feiticeiro que na verdade era uma árvore. Mas é seu humor leve, bastante parecido com o de Dragon Quest (e com Final Fantasy III), complementado com cenas bonitas e personagens divertidos que o fazem valer a pena – teve momentos em que dei sinceras risadas.

Então Final Fantasy V pode ser sobre herança, sobreposição, sobre ver apenas metade da grande figura. Ele tem dungeons que levam a lugar algum do world map, lugares inacessíveis, barcos que viram submarinos, damas que se vestem como homens, amigos que você precisa dar porrada quatro vezes antes de se entenderem, espadas lendárias que dão 1 hit de dano, mundos pela metade. Uma aventura já vivida que você só sabe poucos pedaços; habilidades e ensinamentos que você passa para a próxima geração.

Há uma parte do jogo onde você pode ir para a cidade natal do Bartz. Não é obrigatório e ninguém te fala onde fica (o jogo não começa lá), apesar de ter um grande número de cutscenes sobre o passado do Bartz e desfrutar de um tema musical próprio e único. Ela só está lá porque seu protagonista tinha que ter nascido em algum lugar.

Quando terminei, percebi que sempre que escutava alguma musica ou pensava alguma cena, vinha uma sensação muito boa. Quando é assim eu sei que o jogo foi especial. Talvez não seja coisa da minha cabeça, descobri depois de escrever que foi o último jogo que da série que o Sakaguchi dirigiu, se tornando produtor em todos os outros. Gosto de pensar que ele se divertiu de verdade fazendo-o, tanto ou mais quanto me diverti jogando. Não sei se consigo dar o mérito de “meu Final Fantasy preferido” pra ele, ainda tenho muito chão pra andar (do VII ao XII), mas não duvido que vá estar entre os meus mais queridos para sempre. Acho que a mistura entre a história simples e o sistema de classe mais encorpado realmente me pegou.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
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