Descanse a mente

In Jogo, Sonho, Texto by Neozao1 Comment

Sempre existiram jogos, mesmo antes deles serem eletrônicos, em que o descanso serve para recuperar os pontos de vida, números ou barras, de maneira que essa cura não dependa do uso de itens que poderiam ser melhor aproveitados de outra maneira (deixe para usar suas poções em lutas, caso esteja no mapa a tenda ajuda mais). Isso vem obviamente de uma transposição do descanso real, o sono, um sofá, uma televisãozinha, uma pizza de fim de semana e um carinho no cachorro. É difícil de transpor exatamente o que é o descanso de verdade de maneira que faça sentido lúdico, mecânico e projetado em um jogo — pode ser que seja um problema muito grande e atrapalhe o fluxo de um jogo, ou pode ser que seja um problema básico demais e portanto superficial.

A atribuição de outras funções que não apenas recuperar a vida ou energia com os pontos de descanso vem se tornando, mesmo que não mais proeminente matematicamente, mais proeminente popularmente. Em Hollow Knight você senta no banquinho tanto para demarcar o ponto de onde você volta caso morra quanto para reorganizar seus equipamentos e desenhar os lugares novos que explorou no mapa. Em Dark Souls você senta nas fogueiras para passar de nível, recuperar a forma humana e aumentar o número de itens de recuperar vida que pode usar até o próximo ponto de descanso. Metal Gear Solid V te permite avançar o tempo enquanto fuma um cigarro eletrônico. Em Final Fantasy XV você também atribui a experiência que ganhou durante o dia para poder passar de nível apenas quando descansa, além de poder se alimentar para ter diversos bônus durante o próximo dia e ver as fotos que Prompto tirou. Um pouco antes disso tivemos jogos como Metal Gear Solid 3 em que desligar o console significava que o personagem estava dormindo e, portanto, além de recuperar sua vida também podia curar determinados machucados ou doenças, dependendo de quanto tempo seu playstation 2 (xbox 360, xbox one, 3ds, vita, playstation 3, mas infelizmente não o 4) fica desligado.

Apenas a utilidade prática menos óbvia já fazia a atenção ao momento de descanso ser um pouco mais do que escolher coisas em um menu, mas além disso, é imprescindível a importância da demonstração estética de tais coisas.

A animaçãozinha e o som do protagonista desenhando as coisas em seu mapa, o modo relaxado como o guerreiro senta em volta da fogueira, o grupo de amigos conversando enquanto come e troca as fotos, Venom Snake olhando para seu cigarro e apreciando a fumaça holográfica enquanto os guardas trocam suas funções e Donna Burke grita ao fundo, todas essas coisas mostram que além de uma função mecânica tangível, o descanso também serve como um Descanso de fato, assim como o nosso.

Pequenas ações relaxantes e meditações nos guiam durante o dia, entre uma função profissional ou acadêmica e outra, e a transposição desses pequenos momentos para o meio ludodigital veio tão naturalmente quanto a tecnologia permitiu acomodar esses floreios atrás das funções “profissionais” dos bonecos da tela. Eles descansam a mente, como nós descansamos, de diversas maneiras diferentes e sem números atrelados intrinsecamente. De vez em quando é só ficar de bobeira mesmo, para dar tempo de outras coisas florescerem.

A busca por realismo em jogos se dá muito mais em aspectos de identificação pontuais do que em sistemas biológicos super complexos ou muitas preocupações físicas e de fato simuladoras. É mais fácil nos identificarmos com pequenas ações que repetimos rotineiramente sem atrapalhar ou tomar o espaço de outros sistemas importantes e mais interagíveis e ver as fagulhas de humanidade nesses pequenos gestos do que com funções que afundam a leveza proporcionada pela liberdade que um mundo não-real proporciona. No fim das contas, todos os mundos são reais se você quiser que sejam.

 

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