Meteoro

In Jogo, Texto by LuiggiLeave a Comment

(Esse texto contém spoilers de Final Fantasy IV, VII, XIV 1.0, Dragon Quest XI e Majora’s Mask)

Corpos celestes me fascinam. Constelações, chuvas de meteoros e, talvez a mais importante de todas, a lua são elementos do nosso mundo que me causam uma paz de espírito de forma que poucas outras coisas conseguem.

Mas.

E se algum maníaco resolveu que na verdade são coisas assustadoras? Que podem te detonar a qualquer momento e você simplesmente tem que aceitar? (spoiler: não tem)

Minha paz de espírito vira uma fascinação eterna.

Final Fantasy VII é bastante reconhecido pelo seu simbólico meteoro, não é à toa que faz parte da arte do logo, onde geralmente, por tradição da série, espaço reservado pras coisas mais incríveis e legais do jogo. Não é à toa também que tá na camisa do gordinho de Lost em Final Fantasy XV. Indiferença, medo, tragédia, loucura, destruição, tristeza, esperança, renovação e fim, tudo o que o meteoro representa é universal e sincero. O meteoro não sente, o meteoro é um instrumento destrutivo seja lá por quem quer que quis que ele fosse. O meteoro é maior que a ciência, que mesmo com toda sua malandragem não destruiu o Planeta. Alguém com uma vontade muito maior saiu ganhando na corrida do ganho pessoal + destruição em massa. Deixa eu falar de vários meteoros.

Adendo

Sei que Meteor é magia normal em muitos Final Fantasy, e é até bem importante no IV onde se torna todo o arco de Tellah até sua morte usando ela, mas não cabe muito bem com o tema do texto, então só farei essa menção honrosa nesse parágrafo mesmo. Também não falarei do meteoro Spirits Within e do Final Fantasy XV pois são meteoros que já caíram a muito tempo, apesar de ambos serem interessantes.

 

Meteor como visto no logo de Final Fantasy VII

Black Materia

Talvez como o plano mais filho da puta da história, Sephiroth quer destruir o planeta para que ele se regenere e se torne um com ele e pra isso usa a Black Materia para usar a magia mais poderosa de todas, Meteor. Você inicia o jogo todo descobrindo como uma empresa de energia do mal está corroendo todo o planeta pra esse filha da puta chamar um meteoro gigante pra detonar com tudo.

O meteoro continua persistente por basicamente toda a segunda metade do jogo e a situação não é resolvida até literalmente a cutscene final. Curiosamente, é nessa parte do jogo que você finalmente pega um veículo que pode voar, o que significa que você fica cara-a-cara com o meteoro toda vez que voa pelos céus. Não dá para se esquecer dele, todo mundo que você visita fala dele, com uma grande tristeza e desesperança. Alguns já aceitaram o fim, outros querem viver muito mais e os mais velhos geralmente não se preocupam com si, mas sim com o futuro de sua família. O dono do Gold Saucer, um parque de diversões gigantesco, decide manter ele aberto para que as pessoas possam esquecer o fim inevitável por um breve momento e aproveitar ao máximo.

O fim da humanidade por suas próprias maquinações, indiferente delas virem da ciência ou não, é um tema recorrente, e talvez o meteoro de Final Fantasy VII não seja nada mais que um facilitador imediato da degradação ambiental representada pela Shinra. Afinal, Sephiroth ainda é um produto deles. Mas, por outro lado, também pode ser muito mais que isso, sendo uma forma de demonstrar como o ser humano e o Planeta devem trabalhar e cooperar, como o ser humano deve ser eternamente grato pela natureza e prestigiá-la sempre que possível.

Reduzir o Meteor a apenas um facilitador narrativo é um tanto desonesto. Em nenhum momento o jogo “necessita” do meteoro, visto que o conceito de lifestream traria uma explicação completamente convincente da degradação do Planeta sem algo tão visual. O meteoro ali serve para você se sentir oprimido igual todo mundo, é pra você não esquecer que ninguém quer isso, é pra causar ansiedade, é pra contar essa história que deve ser contada e também porque é legal pra caralho (e obviamente tudo isso torna a presença dele extremamente necessária).

Dalamud poucos momentos antes de cair

Meteor Project

O meteoro em Final Fantasy XIV é chamado de Dalamud e é uma lua (mas também não é), mas é efetivamente um meteoro tão meteoro quanto o Meteor de Final Fantasy VII. Não interessa se o Bahamut tá dentro dele, ou se é uma grande bola cibernética cheio de tecnologia mágica, é um meteoro. Eu já fiz um post inteirinho sobre a história dele no finado Gamesfoda. Mas eu quero falar de novo.

O Projeto Meteoro foi criado pelo grande general Nael van Darnus do Império Garlean, o grande vilãozão de Final Fantasy XIV 1.0. Nael é um filho da puta que quer controlar todo mundo, mas não consegue porque o império inteiro dele é debilitado nas áreas de magia e só sabe mexer com tecnologia, o que torna lidar com os Primals (basicamente os summons de outros Final Fantasy só que eles são bichões extremamente perigosos) muito complicado. Então Nael sendo o tonto que é, resolve que a melhor forma é chamar um meteoro dos céus com tecnologia e segredos antigos para cair especificamente na parte do mundo onde se encontram tais Primals e assim acabar com todos (e com sua oposição humana) de uma vez por todas. A questão é que tal meteoro era na verdade uma máquina extremamente complexa de captação de energia solar que por algum acaso usava o Bahamut como engrenagem de funcionamento, então assim que o meteoro chega na atmosfera, Bahamut saí, causa caos geral, destrói o mundo quase todo e Final Fantasy XIV 1.0 termina, dando espaço para A Realm Reborn, o Final Fantasy XIV de hoje em dia.

Apesar de eu ter uma fascinação enorme pela história de Final Fantasy XIV, a melhor parte de Dalamud é mais sobre o que ela representava para os frequentadores daquele mundo virtual do que qualquer personagem. Já haviam papos de que o jogo andava mal das pernas e teria que ser desligado, ou reiniciado, mas poucos sabiam quando e como. Acontece, que no início do jogo a lua grandona no céu possuía uma luazinha extra do lado, bem pequenininha e branca. A partir de um patch, essa lua ficou vermelha. Quase imperceptível a não ser pra quem prestasse muito atenção. Só que aí ela foi ficando maior e o pontinho já virou uma bola enorme vermelha completamente visível, e isso enquanto rolava mais papo de desligar servidor e renovar o jogo. Até que então a bola toma proporções monstruosas e já não é mais possível distinguir noite do dia. Inimigos atacam cidades, NPCs vão a loucura, um deles, o avatar do produtor do jogo, saí por aí falando que Dalamud é bom e um recomeço, até ser preso pela guarda local. O caos é geral, enquanto nenhuma música de mapa toca mais e tudo que é possível ouvir é uma cantoria baixinha e assustadora. Os jogadores sabiam, eram relembrados toda hora que aquele mundo que estavam estava prestes a acabar. Muitos viam a bola vermelha como uma esperança, que apesar de assustadora e ameaçadora, significava acabar com o velho e recomeçar de novo. Outros, viam como o fim literal (e possivelmente trataram como tal), sentiam que aquele mundo, por mais que tivesse seus problemas, era deles  e merecia ser salvo. E tentaram, pois todas as quests da história envolviam você lutando contra Nael, mas não conseguindo interromper o meteoro de forma alguma. Era a forma do jogo relembrar você que quanto ao mundo real e situações como essa, você é impotente no mundo virtual. O meteoro ia cair porque tinha que cair.

Esse mundo ia acabar, mas o meteoro criou um legado eterno para ele.

 

Erdwin’s Lantern, elegante e amedrontadora, visto dos céus distantes de Gondolia

Ca…Las…Mos

E se, o que antes você acreditava ser seu protetor, o final feliz de todas as histórias de aventura que você já escutou resolvesse cair bem em cima da sua cabeça? Mas assim, não no mundo todo, especificamente na sua cidade. Algumas pessoas mais longe nem viram, nem sabem o que está acontecendo. Mas você sabe, e não sabe se isso é bom ou ruim, pois até então, essa bola enorme de energia vermelha que antes era uma estrelinha linda no céu tava ali pra te proteger não?

A questão é que Erdwin’s Lantern em Dragon Quest XI é tudo isso e ao mesmo tempo não é. É algo benéfico que segura algo terrível, tal qual Dalamud, mas foi feito apenas com intenções do bem nesse caso. A questão é que mesmo algo do bem gigante e enorme caindo diretamente sobre você não fica tão do bem assim por muito tempo.

Apesar do alcance visual de Erdwin’s Lantern não se estender pelo mundo inteiro e nem se manter presente, ou extremamente importante, pelo jogo inteiro, o gostinho que ela dá assim que você entra numa área afetada por ela ou vê ela enquanto voa por aí é bastante parecido com o Meteor de Final Fantasy VII. A diferença é que todo mundo sabe o que é e se encontram desapontados e confusos, sem saber se aquela estrela está descendo para salvar eles do mundo destruído e destroçado por monstros, ou se está apenas se juntando a destruição sem sentido e planejando causar ainda mais sofrimento a onde o sofrimento não chegou tão bem.

Há algo especial em olhar para o céu e ver que tem sempre algo te acompanhando, assistindo cada movimento seu.

 A lua e seu catalisador

Dawn of the Final Day

Talvez a minha conclusão é que os melhores jogos envolvem corpos celestes caindo do céu. A lua de Majora’s Mask não é um meteoro, mas a esse ponto, faz alguma diferença? No quesito de ter algo te assistindo no céu sempre, a lua consegue ser até mais literal, pois tem rosto, nariz e boca (porém como todo bom meteoro, aparentemente não tem controle próprio). E tal qual todos até agora (incluindo Erdwin’s Lantern), foi chamada por algum ser burro ou maligno que quer destruir tudo ou quase tudo de uma vez só. Então com tais fatos, podemos certamente me contradizer e dizer que a lua é um meteoro sim.

Diferente de Erdwin’s Lantern e o Meteoro de Final Fantasy VII, a lua em Majora’s Mask é um microcosmo do que acontece com Dalamud em Final Fantasy XIV, só que ao invés da queda gradual demorar meses e meses, em Majora’s Mask acontece em torno de uma hora. Em uma hora passam-se três dias, cada dia com um estágio da lua diferente, cada dia com pessoas tranquilamente pensando que a lua está onde sempre esteve, gradualmente ficando inquietas e inseguras se ela está chegando mais perto ou não para finalmente começarem a evacuarem a cidade pois é mais que claro que vai todo mundo morrer imediatamente. A lua em Majora’s Mask é um espectro tão grande de emoções que há uma sidequest que dura três dias no qual culmina em dois prometidos casando-se poucos minutos antes da lua matar a todos, trazendo a felicidade suprema para suas vidas pouco antes delas acabarem. Ou o instrutor de espada casca grossa que, em seus momentos finais, resolve ficar em casa tremendo de medo. É melancólico e assustador.

Você nem sempre vê a lua, há lugares que a geografia impede ou você pode estar escondido dentro de uma dungeon ou tem simplesmente o fato em que Zelda não é um jogo onde você olhe muito para o céu, seja pela câmera ou por estar focado em combate. Mas ela nunca esquece de você, e quanto mais chega perto do planeta sempre lembra de tremer o chão para que você não se esqueça dela também.

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Acredito que a maneira como você lida com o meteoro em cada jogo diga muito sobre o que ele pode representar e como nós, geralmente, nos sentimos em relação a ela. Não que ele precisa representar algo, mas é claro que cada uma delas passa uma ideia diferente, apesar de todas utilizarem do mesmo elemento narrativo:

Em Final Fantasy VII você luta contra a desesperança e a destruição iminente, dependendo da vontade do Planeta (provindo de reza e esperança) para que o salve.

Em Final Fantasy XIV a própria Dalamud significa esperança para alguns, tristeza para outros, mas principalmente a inevitabilidade do recomeço. Não importa o que você faça, ela é indiferente a seus esforços e só resta a você aceitar e reiniciar.

Em Dragon Quest XI Erdwin’s Lantern traz traição e medo, apesar de sua queda ser “inevitável”, o mal que ela traz é, de fato, evitável, então sua presença no céu é fatalista, mas você sabe que vai ficar tudo bem no final, apesar de tudo.

Em Majora’s Mask, você só consegue lidar com a lua voltando no tempo, apagando tudo o que fez até então e tentando novamente. Isso não torna ela menos ameaçadora, você ta jogando sob as regras dela e vai ter que obedecer até conseguir dar um jeito de mandar ela de volta pra onde deveria estar. Ela é teimosa e melancólica, mas se você tentar várias vezes, eventualmente vai conseguir.

Hm, acabou virando uma lista de jogos que possuem uma temática semelhante. Eu sinceramente empolguei porque terminei Final Fantasy VII ontem (disponível na integra no nosso canal do Youtube!!!) e comecei a pensar em mais coisas que utilizem essa ameaça iminente do meteoro de forma incrível. A sensação de ter algo tão ameaçador, porém bonito e às vezes elegante, quanto um meteoro pairando no ar sempre a vista é algo que fico feliz que alguém olhou, olhou beeeem e pensou que seria incrível num videogame.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
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