O nome do seu filho é Dragon Quest

In Jogo, Texto by NeozaoLeave a Comment

O mundo é muito bonito visto aqui da minha baleia voadora. Lá embaixo tem monstros e tem pessoas que querem fazer os outros acreditarem que os monstros somos nós (provando assim que somos [são] mesmo! uau! ), e lá também tem um oceano vasto que, quando eu chego na extremidade direita do mapa me faz aparecer na extremidade esquerda, assim como deve ser sempre. Antes eu navegava por esse mar e antes de navegar pelo mar eu só andava a pé, mas o legal é que não é só porque a minha baleia voa que o barco é inútil. Não dá pra eu pousar minha baleia em qualquer lugar (ela é exigente) então eu ainda preciso usar meu barquinho que me acompanhou em várias jornadas e me serviu de chão enquanto enfrentava polvos gigantes e slimes com conchas na cabeça. O barco também não cabe em todas as casas e cavernas que eu ando em terra, o que, graças a Deus, faz com que meus pés nunca se tornem obsoletos.

Meus pais mal tinham barco, jamais poderiam imaginar uma baleia com armadura dourada batendo as asas pra lá e pra cá. Coitados, eles sequer pensariam em ter um cavalinho (embora eu também nunca use o meu, desde que fiz aquele intercâmbio aprendi a correr tão rápido quanto o cavalo). Acho que pra eles era mais fácil, isso. Eles não tinham baleias voadoras porque não precisavam, afinal de contas. Também não tinham cavalos porque o mundo era pequeno o bastante para não precisarem subjugar o coitado do bicho. Eu sofro muito mais do que as gerações anteriores e por isso preciso de mais ajuda. Eu sequer Acabo quando acabo – continuo existindo após os créditos rolarem, acontecendo, voando em minha baleia, lembrando das coisas que meus pais me contavam antes de dormir. Déjà vu.

É meio nostálgico trilhar os mesmos caminhos que meus pais trilharam. Deve ser memória genética isso, uma vez li algo parecido falando sobre corvos e outros pássaros. Sempre que tem um livro vermelhinho em alguma prateleira ou estante eu pego ele pra ler, por isso sei disso. E sempre que tem um armário eu abro e por isso tenho quarenta camisetas iguais aqui na minha bolsa. Tenho um problema sério com desapego, mas acho que é isso que me torna especial também. Eu gosto de me manter sempre parecido e facilmente identificável. Não gosto nem de admitir isso assim em público, mas de vez em quando tenho a impressão de que é minha mãe que me veste até hoje. Ela muda as cores, meu penteado, até a cor do meu cabelo, mas meus traços são sempre similares. A nossa família imediata é muito unida e talvez seja por isso que eu não goste de conversar muito com os tios e primos, eles tem umas ideias malucas, uns penteados esquisitos, enfrentam monstros meio feios. Prefiro ficar por aqui mesmo.

Tem gente que fala que eu sou meio infantil por isso, meio filhinho da mamãe, mas é que em time que está ganhando não se mexe. Eu não tenho medo do resto do mundo, só gosto mais  do meu. Já dei uma passeada lá fora. Fumei uns cigarros, perdi namoradas, toquei em umas bandas, briguei na rua, construí umas casinhas, até em jogos de azar eu já meti o bedelho, mas sempre volto pra casa nem que seja pra dar um oi pro pessoal.

Tem gente que diz que quanto mais velho você fica mais você entende seus pais. Acho que estou chegando nessa idade. Tem horas que parece que eu sou ainda mais velho do que eles, que os entendo tanto que fui eu quem os ensinou. Mas prefiro manter a humildade. Eu sou só o décimo primeiro. Teve muita gente antes de mim. Acho que vai ter muita gente depois de mim também, se Deus quiser. O mundo sempre cresce mas as leis da física permanecem as mesmas. É essa constância que me deu tanta força e base teórica para me expandir tanto e por isso agradeço muito tudo o que veio antes. Minha fase rebelde foi bem branda. Meus pais viverão pra sempre e meus filhos também.

Neozao

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