Pessoas Ruins x Pessoas Horríveis

In Jogo by LuiggiLeave a Comment

Há uma tendência recorrente no meio de jogos onde se clama por histórias mais reais, vilões mais humanos, heróis com mais falhas, pessoas legítimas e menos plásticas possíveis. Por que então, na contramão, rejeitamos tudo o que apresenta o que tem de mau, podre e sombrio na nossa sociedade? Será que no fundo não acreditamos no mal? Ou quem sabe, por alguma lógica certamente falha, achamos que representação é o mesmo que endosso?

Drakengard 1 é um jogo péssimo. É um clone horroroso de musou (ou Dynasty Warriors) com músicas enlouquecedoras que causam dores de cabeça reais. Eu adoro ele muito em retrospecto, mas provavelmente odiei cada segundo febril que joguei ele, principalmente no dia que resolvi maratonar por 12h para terminar de uma vez por todas. Não sei o que se passava na cabeça de Yoko Taro (Nier, :Automata) quando ele quis criticar todo jogo que vangloriava assassinato com pontos e números. Talvez ele tenha feito um jogo incrivelmente repetitivo e enlouquecedor de propósito, ou talvez só metade disso era intenção e a outra foi acidente. O que importa aqui, é que Yoko Taro rejeitou a violência colocando mais violência no jogo dele, uma nuance que é perdida por quase todo membro contemporâneo da indústria, seja jornalista ou desenvolvedor (ou a sociedade coletivamente a cada ano), que determina que Call of Duty vangloria o uso de armas e o assassinato como esporte e que a solução ideal seriam jogos mais pessoais e sensíveis para esse mundo doente, como se estivessem reinventando a roda (não estão e nunca estarão, Dear Esther não inventou jogos não-violentos).

Os heróis em Drakengard são os piores de todos, são a escória da humanidade, são pessoas ruins, legitimamente ruins, tenebrosas e que se mais pessoas tivessem jogado e soubessem do que foi retirado da versão ocidental, talvez mais gente fosse boicotar jogos do Yoko Taro hoje em dia. Sua equipe é composta, primariamente, de: o protagonista, um psicopata que sente prazer e felicidade em assassinar milhares de pessoas, junto com seu dragão pelo qual começa a sentir respeito mútuo e, por fim, atração carnal; um pedófilo em busca da morte e redenção, o qual é o único personagem com piedade entre todos, junto de sua fada que incita que o mesmo se suicide a cada segundo; uma mãe entregue à loucura e, provendo dessa loucura, o canibalismo, com uma preferência clara por carne infantil; e por fim, uma criança que é a única com alguma pureza no grupo, mas que está fadada a nunca envelhecer, algo extremamente desconfortável visto o histórico de dois membros do grupo com crianças. Isso sem falar na irmã do protagonista que está destinada a casar, mas que na verdade quer mesmo é o calor do irmão.

Não leve a mal, todos os personagens tem histórias trágicas que explicam, ou não, seus piores tratos. Eles não estão ali pela simples vontade quebrar tabus e chocar. Ou melhor, eles estão ali para chocar com certeza, mas para que você se sinta mal a todo segundo. Para perceber que existem pessoas ruins no mundo, pessoas péssimas e que essas pessoas podem ser protagonistas. E que muito provavelmente seriam, visto o contexto de assassinato em massa. Você é desafiado a encarar esses personagens e suas histórias como responsabilidade sua, você vai controlar eles e só eles, não importa se o resto do mundo é pior, essa sua trupe ainda é podre e decadente. O mal atrai o mal e esse ideal de mal talvez fosse visto como depravado pelo público maior. Não se pode ousar a deixar tantas pessoas desconfortáveis, certamente Yoko Taro acha que pedofilia é brincadeira pra colocar como trejeito de um protagonista do seu jogo (não é a toa que foi a única história dos personagens que foi mudada ao vir para o ocidente). A mídia não tem limites mas na verdade tem sim, os que me incomodam. Que fique claro, antes de eu encerrar a parte do Drakengard 1, que há uma diferença clara entre apresentar algo com tato e algo de extremo mau-gosto. Há formas de se apresentar algo sem cair em pura exploração. Não sou a favor de histórias que choquem apenas por chocar, mas acho que há uma noção deturpada entre o que está na história porque faz parte das “preferências” do autor e o que simplesmente quer ser mostrado por existir, ser ruim e nós mesmos existirmos nessa realidade onde existe esse algo ruim.

Vamos pular para Drakengard 3. Não joguei Drakengard 2 pois não é do Yoko Taro e não vale para a discussão aqui. Drakengard 3 é o antecessor do primeiro jogo e, tirando o fato de rodar a 10fps no PS3, é um jogo mais legal e menos enlouquecedor que Drakengard 1. É também um jogo bem mais leve, onde você novamente toma controle de pessoas péssimas, porém as pessoas péssimas agora são engraçadinhas, não tem crimes tão graves e transam todo dia. Essas pessoas conseguem demonstrar um mínimo de compaixão pelas outras, isso quando não são vítimas elas mesmas, mas ainda assim são dotadas de trejeitos que não são agradáveis nas pessoas. Novamente: a protagonista é fria, boca suja, grossa e não se importa de matar qualquer um pelo seu objetivo, nem de demandar satisfação sexual de seus subordinados; um garoto sádico e psicopata, frio igual a protagonista, mas com um senso de humor afiado; um homem extremamente sadomasoquista; um velho ninfomaníaco cujo único assunto é o próprio órgão; e um homem extremamente burro, porém com trejeitos de galã, cujo a maior contribuição que consegue dar em qualquer conversa é inventar artigos da wikipédia. Chegou ao ponto em que eu, ainda traumatizado com Drakengard 1 dois anos depois, tive que perguntar a um amigo: “Nossa, tô gostando desses boneco…… Eles não vão revelar que um deles é o ser humano mais lixo e deplorável da história né?”

Evidentemente que em Drakengard 3 a sinergia entre grupo é muito maior do que em Drakengard 1. Drakengard 1 é um jogo de pouca conversa, pouca interação entre os participantes (o protagonista literalmente se torna mudo, esqueci de mencionar!) onde eles apenas aguentam a presença de um e outro. Já Drakengard 3 faz os personagens brigarem entre si, porém é lotado de piadas e conversas leves, como se fossem só uma grande família em vez de pessoas detestáveis. Esse, acredito eu, é o ideal que as pessoas procuram quando falam que querem “personagens malvados”, que desafiem eles. Se não for assim, o personagem tem que no mínimo morrer e receber o que deve no final do jogo, caso contrário é endosso. Talvez haja uma própria crítica do Yoko Taro aí entre escrever personagens tão pesados em um e mais leves em outro, mas difícil saber o que se passa na cabeça deste homem.

Em Drakengard 1 a quantidade de finais felizes é zero. Eles não morrem explicitamente sempre, mas nenhum final leva a algo incondicionalmente bom. De qualquer forma, a cada vitória em uma fase você está dando mais vítimas para o psicopata, deixando o pedófilo livre mais um dia. Isso faz parecer que você apoia tais atos, não os repudia, afinal é influenciador direto do destino deles. Não cabe ao jogo falar pra você que o pedófilo, apesar de gentil e sensato, ainda é pedófilo e você não pode simpatizar com ele, ou nem com a canibal, ou com o psicopata. Não adianta ir lá reclamar a Yoko Taro (ou seja quem for em inúmeros outros exemplos) que por culpa dele você se sentiu levemente simpatizante com alguém do pior calibre de ser humano. Isso cabe a você resolver com você mesmo, ninguém tem que te ditar como sentir.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
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