Mate seus amigos

In Jogo, Texto by NeozaoLeave a Comment

Você pode matar seus inimigos, mas os amigos você pode apenas torturar.

Não sei se é egoísmo quando você tira vantagem da amizade de alguém apenas por indução cósmica, sem intenção real, mas é normal que com o tempo essa vantagem se torne parte irredutível do relacionamento a ponto de nem parecer mais uma vantagem, apenas uma troca, ainda que injusta.

A vantagem se torna parte do método conforme é repetida. Com o tempo é só mais um amigo que vai diluir um pouco mais a sua chance de perder tudo sempre que morre. Quanto mais gente você conhece maior é sua chance de viver para sempre — mais gente para angariar memórias suas e te manter vivo após sua morte de alguma forma. Mesmo se uma esquecer, ainda tem dúzias de outras ali, cada uma com alguma coisinha que te impedirá de ser esquecido.

É difícil porque chega uma hora que você quer ser esquecido. É difícil manter em mente o que cada um sabe de você quando bastante gente sabe, as memórias se tornam turvas, o tempo passado menos valioso e o futuro mais, já que ele se vai se tornando cada vez mais escasso. É importante ser esquecido conforme nós vamos nos esquecendo dos outros também. É mais confortável e seguro. Virou até lei.

Conforme a sua vida vai se tornando menos sua e mais dos outros (já que eles mantêm um registro dela maior do que você mesmo, que tem um cérebro só), mais cansado você fica. E quanto mais cansado você fica, mais pessoas conectadas a você sentem sua atmosfera negativa tocando-as através das memórias. Dá pra tornar todo o seu estado doente se você for descuidado o bastante para se tornar popular.

Você se torna um miasma de sofrimento: quanto mais a sua vida cresce e se expande, mais doentes todos ficam. Eles passam a se tornar seu combustível, sua caixinha de jóias. Você passa a lamentar quando conhece uma pessoa nova pois, apesar de sua essência estar um pouco menos frágil, a delas inevitavelmente se tornará mais já que você tomou um pouco do espaço dela.

E cada vez que você morre e precisa de mais vida para voltar, passa a roubar um pouco da vida delas.

A instrumentalização da vida e sua transformação em nada mais que uma ferramenta de auto-preservação é aplicada em Sekiro desde o momento em que seu braço vai pro saco no começo do jogo e de repente o braço novo, com ganchos e machados e shurikens e guarda-chuvas parece muito melhor do que seu braço feito de carne e osso que pode no máximo dar uma giradinha e segurar uma espada. Ao deixar de notar a beleza da limitação de seu braço orgânico em prol da diversão do braço novo, você dá o primeiro passo em direção ao conceito assustador de passar a ver todos os personagens que habitam Ashina como pedaços de você que podem ser úteis ou não. “Conhecendo esse cara eu consigo morrer mais uma vez antes de diminuir minha chance de Unseen Aid”/”Conhecendo esse cara eu tenho ainda mais alguém para me preocupar com a chance que eu tenho de não ser punido por alguma de minhas dezenas de mortes.”

A escolha é, portanto, mental: ou você trata todos os laços que você cria no mundo do jogo (sejam eles sentimentais, comerciais, lúdicos) como seres que você jamais poderá proteger se não proteger a si mesmo ou como seres que pelo menos existem para que você possa continuar o jogo sem perder tanto dinheiro. Ou você os tortura indefinidamente pelo tempo necessário para terminar o jogo, os curando de vez em quando só para poderem ficar doentes de novo, ou você os mata e os poupa do sofrimento de uma vez.

A outra escolha é aprender a jogar tão bem que você não morre nunca a ponto de jamais precisar da ajuda dos outros, não criando memórias em ninguém e mantendo a sua existência pra si mesmo. Não morrer nunca, nesse sentido, talvez signifique jamais ter vivido já que nenhuma memória sua será injetada em ninguém.

Mas talvez a graça toda seja justamente pensar em qual decisão tomar. Até lá, continue apertando R1 para reviver. Uma hora você não precisará mais. Só guarde uma lágrima pra curar a todos antes de partir.

Neozao

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Não fique sentado esperando nada menos.
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