O vampiro que ri

In Papel, Texto by Maciel1 Comment

Suehiro Maruo nasceu em 1956, em Nagasaki. Podem faltar dados para afirmar, mas não faltam provas para inferir que sua obra deriva diretamente desse sentimento de destruição e reconstrução, da letargia que o pós-guerra injetou no Japão como uma praga. E não só isso — por mais que as aberrações do pós-guerra possam ser suficientes, os anos anteriores são carregados de obras sangrentas e baratas, permitidas existência pela popularização e acessibilidade da imprensa. A explosão das tais revistas pulp não se deram exclusivamente nos EUA, como fala toda e qualquer publicação sobre H.P. Lovecraft e a impopularidade de seus contos, tendo também sua representatividade japonesa. E entre 1920 e 1930 foi que o ero-guro nasceu, como reflexo de um modernismo estético niilista e imediatista que se infiltrava pelas brechas da reabertura do país ao mundo externo. Abraçando o estilo, as obras de Suehiro Maruo são feitas dessa mancha ocidental, que se faz ver em suas inspirações – Edgar Allan Poe, Sade, Rimbaud, Sófocles, Bataille -, e se intensifica quando dá de encontro com a grotesquidão do erótico histórico do muzan-e.

É como uma colisão frontal entre um Ford e um Toyota.

Mas existe algo além do que o acidente de carro nas histórias de Maruo. Ele faz em suas linhas exóticas um equilíbrio sensível entre o erótico, o grotesco e o bom senso, e, mesmo não sendo para o gosto de todos, é impossível não ver o belo no que lhe faz mais feio. A humanidade gritante no inumano não nos afeta somente pelo bizarro, como nos trabalhos de Shintaro Kago, mas pelo soco no estômago moderno que suas narrativas representam.

É fato que, no fundo, no âmago do interesse humano, o que queremos ver é o sangue e sofrimento do próximo e, com alívio, sabermos que aquilo não é com a gente. O conjunto social que habitamos é tudo isso, todo esse desleixo de vontades e necessidades que esticam a mão, que simulam ajuda, que se compadecem, mas somem quando o real problema existe porque o que importa é que nós, nós em específico, estejamos seguros, pelo menos daquele horror estampado na revista, e ainda bem que tem outro sofrendo isso para que eu possa assistir. E é isso que Suehiro Maruo faz: suas obras como um todo são uma perversão do que é considerado inteiro. Não só por seu foco temático mais conhecido ser o ero-guro, mas principalmente pelo seu contexto de criação.

E sua obra mais conhecida, Warau Kyuuketsuki é de uma imundície profunda que pode ser contada sem imagens. A história nos dá um Japão retorcido, apodrecido não só por simplesmente existir, mas pelo que o mundo contemporâneo o transformou. Apresenta personagens que vivem em um presente sem futuro, uma geração sem perspectiva ambiental, econômica ou política – uma existência por existir. Então agem sem consequência, com violência, na ânsia de saciar a necessidade mais imediata e então a próxima.

Colocados nesse cenário, os protagonistas existem em um constante desespero por serem peça fora da caixa, por não encontrarem no mundo adulto algo que lhes dê o descanso merecido dos abusos e maus tratos da fase da infância. Em uma sociedade em que causar dor e morte é ser forte e superior, em que o extermínio é justificado como um ato de bom-mocismo heróico, não lhes resta nada além de subverter sua irrelevância e se igualarem – vampiros como todos os outros.

Com mãos pesadas de traços finos e pretos intensos, é através da inclusão de imagens, da transformação da narrativa oral em mangá, que Maruo nos mostra que não existe mais espaço para histórias em que a dualidade impera – o bem contra o mal, o mocinho contra o bandido, a justiça contra a injustiça. Coisas ruins acontecem com pessoas ruins; coisas ruins acontecem com pessoas boas; tudo que nos desagrada ou não diz respeito é ruim; o que nos toca e eleva é bom. A ausência de propósito transforma a todos em uma zona cinza e dada sua absorção no todo da comunidade as linhas de tempo que formam a personalidade individual colapsam uma sobre a outra e sobra só o presente e a vida eterna. Não se morre quando se é jovem, afinal, e quando a juventude se torna infinita o mesmo se aplica para a mortalidade.

O horror não é somente o esqueleto da história, mas também sua estética. É como os quadros são compostos e as imagens são sobrepostas, como o abstrato visual é devorado pelo concretismo da palavra, como não é necessário desenhar a ação, porque seu início e resultado são claros. Ao se estabelecer o contexto inicial da causa e consequência da história, já não importa tanto o que acontece com os personagens – podemos virar as páginas sem ler um balão de fala sequer, somente vê-los movendo de um ciclo destrutivo para o próximo, e entender não só o todo, mas suas minúcias também — não porque podemos vê-las, mas porque as conhecemos do cotidiano, da noite, do sonho.

Maciel
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