Comendo macarrão com um guaxinim

O que mais me atraía (e ainda atrai) para a ficção criada por fãs nunca foi a possibilidade infinita de casais, ou a modificação de pontos da história da obra original por coisas mais agradáveis, ou a continuação de aventuras em séries abandonadas, mas sim a construção da rotina. Enquanto no conteúdo oficial pessoal só sabe de lutar, malhar e afiar espada, no conteúdo de fã podemos ver, ou ao menos imaginar, o lado B das coisas. Sempre me foi muito especial as reuniões de final de semana na Casa de Touro, o dias preguiçosos na beira do Lago Hylia, os gestos casuais de entrega em meio ao tédio, e o que  menos importava era esses movimentos serem factuais ou não. Os personagens eram reais, suas ações eram concretas, então imaginar um meio termo entre esses dois espaços era mais uma questão de visualização do que de criatividade.

Fica evidente por que são os animes do gênero slice of life que acabam por entrar na minha agenda nada formal de “coisas para assistir”. Quando a melhor parte do produto de 35 episódios é aquele do roteiro filler em que os personagens vão para a praia comer melancia, a decisão mais sábia é mudar o espectro de interesses para o gênero em que isso é a norma. O conflito da narrativa, então, acaba se centrando não no embate entre grandes forças, que na verdade são só marionetes de um bem comum que às vezes nem lhes diz respeito, mas sim no embate de pequenas forças, forças particulares, que agem e reagem porque suas ações e os resultados correspondentes afetam diretamente seus destinos.

Um pouco como a vida real, pode-se dizer.

Slice of Life é não só um pedaço da vida, do cotidiano em si, mas também uma fatia da realidade do local onde o produto foi criado. E se espera que o que vemos dentro dessa fatia, quando bem observada, seja algo tão alien quanto o próprio alien, porque é o que diferenças culturais são. Mas a modernidade faz com que cada humano seja não só um espelho de si próprio, mas também do outro, em uma reflexão global que chega a ser assustadora. São aparências, ações e arrependimentos que, tirada a máscara da cultura, parecem tão inerentes ao Homo sapiens que chega a ser meio surpreendente que tenhamos deixado a vida nômade em troca de batatas.

O personagem principal de Udon no Kuni no Kiniro Kemari, Souta Kawara (ou Kawara Souta, se ficarmos de preciosismo idiomático), trocou a vida do campo pela vida moderna em Tóquio. Trabalha como web designer ao invés de ajudar o pai no negócio da família, um restaurante de udon caseiro, o que criou certa distância e os faz ressentidos um do outro. A morte prematura da mãe, ainda na infância dos filhos, só aumenta essa tensão sobre a figura paterna. Dada a morte do pai, Souta volta a Kagawa, a menor província do Japão, para colocar as coisas em ordem, vender tudo e seguir a vida. Segue-se a introspecção e a reflexão sobre suas escolhas de vida, sobre seu relacionamento com o pai, sobre seu real local no mundo e sua real vocação.

É só olhar pela janela: homem moderno nos mostra que a estacionariedade é tóxica dos 18 aos 30 anos, quando não conseguimos alcançar nossas expectativas nesse local que é estático. Então saímos do campo para a cidade; então saímos da barra da saia da mãe para apartamentos apertados onde não pega sol, mas supostamente conseguimos perseguir nossos sonhos. É um sentimento global, este da cidade grande ser maravilhosa e do pasto vizinho ser muito mais gostoso, e ignoramos os laços que machucamos quando abandonamos tudo e buscamos o mesmo que todas essas outras pessoas, trocando nossos 523 habitantes por quilômetro quadrado por esses 6354 habitantes por quilômetro quadrado sem nem pensar duas vezes.

Todos estivemos lá, em variáveis níveis e pesos: desgostoso com sua cidade e querendo ir para um local maior, uma metrópole movimentada e cheia de oportunidades; querendo ser sua própria pessoa ao invés de seguir os passos de um familiar, sendo esse caminho esperado de ser seguido ou não; ressentido de palavras trocadas com pessoas amadas, guardando mágoas pequenas ou grandes sobre conversas mal interpretadas e ações mal pensadas. E nos prendemos nessas decisões, nessas mudanças, e nos perdemos em remorso quando refletimos sobre o que fizemos ou deixamos de fazer em todas essas situações e que não podemos voltar atrás, porque o outro envolvido não está mais aqui. É impossível pedir desculpas, é impossível esclarecer erros, é impossível mostrar que hoje você entende que de repente essa situação aqui, essa cidade aqui, essa família bagunçada, não são tão ruins assim.

Quando Poco chega nas nossas vidas, no mesmo momento em que chega na vida de Souta, nos prendemos mais na sua estranheza do que o personagem principal. E o que cria essa sensação de receio é justamente o que quebra esse quadro global, essa modernidade inerente ao ser humano – ao apresentar o bakedanuki e torná-lo a cola de Souta com sua terra natal, Udon no Kuni se torna novamente cultural, novamente uma fatia do cotidiano que até então era normal, e de repente e torna alienígena de novo, e é ser tão absurdamente Japão o que torna a obra interessante, como entretenimento e como aprendizado.

Não requer muita criatividade, nem muito poder de visualização dos entremeios da vida dos personagens, para assistir Udon no Kuni no Kiniro Kemari. Faz parte do seu gênero já ser sobre a vida, mas nele existe uma riqueza de identificação humana tão forte que é até curioso o volante desses sentimentos sequer ser, realmente, humano também. Porque a palpabilidade dos acontecimentos, dos sentimentos e das razões dos personagens são tão reais que, como espectadores externos, como esponjas de uma cultura alheia a nossa, acabamos inicialmente duvidando da integridade das relações, desse jogo entre o homem e o sobrenatural. E é quando somos vencidos, quando enxergamos Poco de fato como uma criança, que entendemos um pouco não só do coração da cultura, mas do coração do povo que vive essa cultura.

Nem tudo se resolve quando Udon no Kuni, o anime, termina. Situações se concluem ou não, novas situações surgem sem muito alarde e ficam no ar e você, como espectador, não precisa realmente saber se elas se resolvem ou não, porque não é da sua conta. O conflito, essa sensação de vírgula que não tem seguimento, se amarra em um mar bom de sentimentos, porque a linha que costura essa mudança na vida do personagem principal toma ação e dá sentido para sua existência no anime. Poco é como uma âncora, não só de raízes, mas de responsabilidade. Ele é a dualidade entre o intrinsecamente cultural, por ser um yokai, e o intrinsicamente global, a ansiedade em se retomar o passado, em organizar as coisas, em fincar o pé e, sim, abandonar a vida nômade.

E que melhor maneira de passar essa mensagem, a “sua terra natal é boa, sua família é boa, a cidade grande nem é tudo isso” do que com uma animação de coração bom, com sentimentos felizes e relacionamentos familiares complexos? Udon no Kuni foi um anime muito comercializável, feito (especulo eu) para passar dentro dos ônibus de viagem que vão para a capital. Ele diz: “tudo bem Tóquio ser legal, mas olha como Kagawa é bonita, limpa, organizada, as pessoas que moram aqui têm boas famílias, também é possível empregos modernos sem precisar trocar de província, existe um espectro gigantesco cultural a ser aproveitado e absorvido, pra que exatamente sair?” É como um panfleto gigantesco de turismo, mas não para o mundo exterior, e sim para o próprio Japão. Cada episódio é um local diferente de Kagawa, destacando sua riqueza e suas possibilidades, e no encerramento de cada episódio o vice-prefeito imaginário de Udon no Kuni, portando um artefato local (comida, artesanato, o próprio Poco), vem nos contar como vai ser o próximo episódio. Venham para Kagawa; parem de sair de Kagawa; Kagawa é um lugar bom demais. Até o sobrenatural está fazendo as pessoas se amarrarem em Kagawa, então por que você não?

Udon no Kuni vale o tempo investido não só por ser fofinho, nem só por sua parte relacionável com nossa vivência, mas por ser esse buraco da fechadura que revela o que os produtos mainstream da indústria preferem deixar para a banda impressa. Não existe escada que ajude a nivelar o entendimento do cultural presente nos doze episódios,  talvez por não se esperar que houvesse qualquer adesão de um público externo. E é essa especificidade o faz uma enorme plataforma para quem nós, que somos de fora – você não quer aprender culturas externas a nossa pelas brochuras do Ministério do Turismo, mas sim pelos bilhetes trocados entre os atendentes dos guichês do metro sobre como esses estrangeiros são burros e não sabem contar dinheiro. Ao não entender buscamos entender de verdade, e ao sermos pegos pela mão pela semelhança natural entre homens, somos capazes de mergulhar na parte mais alienígena de outra cultura e saírmos de lá ilesos. Ou agredidos por bolas gigantes de Tanuki, mas vivos para contar a história.

Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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