Monogatari Series: Disludo Fox, Part III

Este texto tem spoilers de Bakemonogatari, Nisemonogatari, Monogatari Series Second Season e Koyomimonogatari.

Tá, eu admito. Eu tava evitando o assunto até agora. Consegui postergar por 2923 palavras, mas infelizmente chegou a hora. Vamos ter que falar de fanservice em Monogatari.

E aí está. Essa cena aí é infame — Koyomi escova os dentes da própria irmã (Karen, falamos dela no último texto) e a situação escala do jeito mais, err. Qual é a melhor palavra pra usar nessa situação? “Lascivo”. Vamos tentar “lascivo”. A situação escala do jeito mais lascivo que poderia pra um anime sem putaria explícita. Do começo ao fim, é um negócio desconfortabilíssimo e que faz muita gente achar que Monogatari é coisa de doente.

E, realmente, a razão de eu ter evitado falar sobre isso até agora é que eu tenho que expor a ideia que quero expor sem parecer que quero justificar a objetificação renitente (“não!! Na verdade isso aí é uma coisa bem profunda!”), tergiversar (“mas isso não é tão importante pra linguagem!”) ou maquiar (“Mas também aparece homem pelado!”).

Realmente, a sacanagem gratuita é uma parte importante da série e não significa nada. Em Monogatari, você vai ver um monte de gente pelada, um monte de gente se aparecendo em posições que não condizem muito com a situação, um monte de cena que parece ter um duplo sentido, vai rolar calcinha com uma frequência maior do que a confortável. Nada disso pode ser explicado só com o fato de um dos grandes temas da série ser a adolescência, com tudo que isso implica — descoberta da sexualidade, hormônios malucos travando seu Nintendo e completo desarranjo do pinto —, porque a transcrição de temas pra uma linguagem audiovisual não é óbvia e é por isso que o que eu vou tentar fazer vai ser desvendar o processo, como acontece e por que acontece tanto.

Então, vamos resumir. A série mostra corpos sensualizados o tempo todo em função dos personagens, mas não para eles ou a partir da vontade deles. Tudo isso é pro espectador.

Mas faz parte de um processo maior, que acontece o tempo todo e não só com pessoas.

Essa cena aqui, do 5º episódio de Koyomimonogatari, Koyomi Wind, condensa vários pontos importantes. Primeiro, você tem a Nadeko falando “você fez mesmo uma festa!” e montanhas de pipoca colorida no chão. Não tem como eu te mostrar agora, mas a pipoca é o tema visual desse episódio: Nadeko chega na casa do Araragi e, entre uma fala e outra, temos uns planinhos pequenininhos de pipoca estourando. Aí eles vão pro quarto e, em alguns dos planos, tem um carrinho de pipoca estacionado. Quando eles começam a conversar sobre o motivo da comemoração (Nadeko ficou livre da maldição que lhe acometeu no arco Nadeko Snake), eles revisitam os acontecimentos pra tentar entender como o problema escalou tanto e a solução visual pra eles revisitarem é colocá-los pra assistir um filme sobre eles mesmos — comendo pipoca.

Então, retomando o assunto do primeiro texto, a gente vê que a pipoca é materializada pela voz pra ser o fio condutor da historinha, a manifestação da lógica da conversa. E, pra todos os efeitos, as montanhas de pipoca existem-não-existem, o carrinho de pipoca existe-não-existe, eles estão-não-estão vendo um filme. Mas o jeito como esse elemento toma conta de todos os cantos da tela ainda parece um pouco inexplicado.

Por que a pipoca vira o universo, dissociando-se completamente da sua função dentro da história de “comida”? Poderia muito bem ser um elemento só recorrente, mas ele extrapola completamente sua existência de objeto de cena para virar uma representação do conceito de pipoca. Assim, vira moldura, assume uma função de narrador capaz de dizer para onde vai a próxima cena em vez de elemento narrado.

E isso é muito idiota se a gente tá falando de pipoca. Mas, quando isso se aplica a lugares e pessoas, isso fica mais claro e eu pareço menos besta falando.

Monogatari: Ononoki Yotsugi A Doida

Toda vez que o anime mostrar alguém piscando, que nem acontece nessa cena da pipoca, a gente ouve um barulho de obturador de câmera. Toda vez. É um tique de Monogatari, assim como as quebradas de pescoço que ficaram famosas. E assim como planos próximos que reverberam a voz dos personagens, ecoando aquilo que a gente tava falando antes sobre o som pertencer ao plano, que nem essa última parte da Nadeko rindo.

E todos esses tiques são uma função da história, “operada” por todos os personagens, mas que não pertencem a eles e não são para eles. Eles não dão informações, também, como quando temos um plano próximo da risadinha malvada de alguém que a gente não sabia até aquele momento que era vilão. Eles estão ali para pontuar alguma coisa, sinalizar pro espectador que ele devia ter notado alguma coisa, que alguma coisa está estranha, que ele devia ter prestado atenção, que a próxima informação e/ou a anterior revelam algo não (só) sobre os personagens, mas sobre o tema.

Não que seja pra você pausar e voltar, ou tentar ler os letreiros que costumam aparecer depois de uma piscada. Não é uma questão de mistério, é uma questão de exposição. Monogatari faz uma dissecação completa e ao vivo da estrutura narrativa das cenas e da posição dos personagens em relação aos temas que o arco ou o episódio estão tratando. É tão próximo do conceito de gestus quanto uma obra não-marxista pode ser, porque é o uso de uma expressão do corpo para revelar para o público uma questão tanto externa quanto subjacente à cena. Os personagens devem até estar conscientes do que estão fazendo, mas o modo como isso é emoldurado e apresentado pro espectador é uma função puramente do universo.

Monogatari: É que não dá pra ver, mas é muito bom os disfarces da Senjougahara

Monogatari: Simplesmente mto bonito o filtro sépia Monogatari: Perceba que esses blocos também dizem respeito ao status de cada um, quem está com o "poder"

Essa dissociação de corpo e personagem também vale pra ambiente e lugar. O episódio dessas imagens se passa quase completamente num restaurante de aeroporto (bom, aqui tem uma pessoa, a garçonete, ao contrário do que eu falei no último texto. Mas é raríssimo, e mesmo o resto do restaurante e do aeroporto está vazio) e, de repente, a cor do restaurante, a camisa de Kaiki e o disfarce de Senjougahara mudam. Isso também é uma função do universo, sinalizando e expondo os blocos da história. Não mudam porque o tempo passou, mas para reforçar que o assunto da conversa progrediu até sua próxima parte.

Então, toda demonstração materializada pela conversa das pessoas toma conta da tela, sempre, não importando sua verossimilhança de tempo ou de espaço, e está tudo lá para que o espectador veja. Assim, toda representação é escandalizada, examinada, passada por três lupas, todo conceito é apresentado sistemática e pornograficamente. O banheiro da casa da família Araragi jamais caberia na casa da família Araragi, mas é a representação mais cândida que conseguiram do conceito de banheiro. Se o protagonista decidir falar sobre relógios, o anime vai brincar com o conceito de relógios e materializá-lo em todas as formas que conseguir imaginar.

Em todo lugar — do quarto das irmãs do Araragi à sala da casa deles, existem elementos que extrapolam suas funções ou estão cumprindo uma função não normalmente associada a eles para realçar, justamente, os propósitos da cena, como o fato de que as lâmpadas da sala da casa dos Araragi são holofotes de cinema. Quase como se fosse uma grande brincadeira de arquitetos e design de interiores.

Assim, quando o tema passa a ser um corpo, o anime se presta a objetificar e representar sensualidade corporal, e o faz até o ponto do absurdo. Ele tira a alma do personagem de seu corpo e explora o só o corpo, tirando tudo que “não importa” pra refinar a representação e extrapolar as coisas de suas funções. É assim que acontece o fanservice. Não tem um objetivo nobre, mas a lógica dos códigos de representação é essa.

E, nessa cena de agora, o anime usa o mesmo processo na ordem inversa: Monogatari frequentemente tira a alma do corpo do personagem e a coloca em objetos, que passam a ser o personagem por um tempo. Aqui, Nadeko encarna na árvore do lado de fora da casa (e mesmo essa versão é meio estranha. A que eu conheço é muito mais escandalosa, com a árvore chacoalhando inteira em vez de só dar uma farfalhada nas folhas). Essa dissociação destila a representação até que todos os objetos, corpos, lugares e tudo que não seja personagem, agente da voz e portanto narrador, extrapole sua função material dentro do universo.

Monogatari: Nadeko A Doida

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