O amor paterno em FFXIV: Dad of Light

Acho que é uma história bastante comum, mas meu primeiro videogame – um Mega Drive – era na verdade do meu pai. Diz a lenda que por volta dos meus dois ou três anos eu me apropriei completamente do console e nunca mais deixei ele jogar Altered Beast (literalmente o único jogo que ele jogava e que eu morria de medo). Às vezes ele pedia pra jogar comigo, mas aparentemente eu já era um mala sem alça naquela época e queria tentar as coisas sozinho, sob o suposto pretexto de que meu pai não sabia jogar. Talvez por culpa minha hoje em dia ele não jogue absolutamente nada, embora se interesse pelo que jogo de vez em quando. Final Fantasy XIV: Dad of Light, atualmente disponível no Netflix, me fez sentir um pouco culpado depois de assistir.

Dad of Light trata de um jovem que se lembra com grande carinho do dia que seu pai comprou Final Fantasy III e como pai e filho se viciaram no jogo e se divertiam jogando juntos. Passam uns 20 anos e seu pai de repente pede demissão do emprego, no qual tinha a perspectiva de se tornar chefe, sem avisar a família, o que faz o protagonista pensar no que houve exatamente entre ele e seu pai para que não soubessem mais absolutamente nada um sobre o outro.

Como é evidente pelo título da série, ela é sobre Final Fantasy XIV, então obviamente o protagonista é viciado (de forma saudável) no jogo e acaba elaborando o plano mais “série para marketear o jogo” que existe: planeja viciar seu pai no mundo dos MMOs e conhecer mais sobre ele por lá, sob o pretexto de não revelar a sua identidade até derrotarem o chefe mais difícil. A premissa é tão boba e atual que eu achava difícil não ser algo muito charmoso, e tenho de admitir que fiquei positivamente impressionado.

Primeiro quero começar pelo protagonista. Não assisto séries, muito menos japonesas, mas o protagonista é simplesmente condizente com o ano em que vive. Ele trabalha no setor de vendas de uma empresa, mora com os pais e joga com um personagem feminino dentro do jogo (com direito a mudança de dublador). Eu, no mínimo, esperava que o protagonista fosse adolescente com bastante tempo pra MMO. O fato que o produtor conhece bem o público com o qual está tratando já nos dá uma boa base para conseguirmos simpatizar com o protagonista. O seu pai, por outro lado, joga basicamente com o personagem padrão do jogo.

Curiosamente, a série foca menos no jogo do que eu imaginei que iria. De fato, há episódios em que eles estão dentro do mundo de Eorzea por não mais que cinco minutos, só porque tem que ter mesmo. Muito do drama que acontece é orgânico, não havendo, necessariament,e uma fórmula onde a lição aprendida no jogo serve pra progredir no mundo real e vice-versa; ambas cenas fazem parte e são importante para a vida do protagonista. Principalmente porque o foco quando eles estão jogando FFXIV ainda é muito nas pessoas reais que controlam os personagens; nada se fala da história do jogo e muito pouco de suas mecânicas. Há uma divisão clara de cenário entre trabalho, casa e FFXIV, e como cada assunto é tratado dentro deles, dando uma perspectiva diferente pra vida do protagonista.

A série fala mais de relação paternal do que sobre Final Fantasy em si. Cada episódio geralmente inicia com o protagonista lembrando de algo que ocorreu na sua infância com seu pai, seja bom ou ruim. Em muitos deles também se desenrolam problemas atuais que acontecem com ambos, com o pai geralmente buscando conselhos quanto ao jogo com o filho enquanto o jovem se segura pra não deixar claro que está jogando com ele esse tempo todo.

A série é bem curta, só 8 episódios, sendo o último uma recapitulação e umas cenas extras, mas acho que é o tamanho perfeito pra algo desse tipo. É confortável, cafona e bonito, tudo ao mesmo tempo. Acabei indo conversar com meu pai enquanto assistia – algo me tocou e de repente me preocupei de ter sido um filho horrível enquanto crescia (fui recebido com um bem intencionado “nunca sequer pensei nisso”). Admito que houve momentos que me emocionaram de verdade. Por mais que não esteja acostumado com a atuação duplamente exagerada e contida dos japoneses, há situações em que tudo acaba sendo real demais. O que era pra ser uma série que imaginei que seria bobinha, mas divertida, de um jogo que amo, acabou indo um passo além e virou algo que genuinamente gostei, indiferentemente do produto ligado a ele.

Mas calma lá. Enquanto escrevia por volta do quarto parágrafo, descobri que essa série é baseada em posts reais feitos em série no blog pessoal do protagonista da história, que aconteceu por volta de 2014. Não só isso, mas como os personagens do jogo que aparecem na série são exatamente os mesmos deles. Ainda estou maravilhado como a jogada de marketing não foi realmente uma jogada de marketing. Algum maluco realmente chamou o pai pra jogar FFXIV e elaborou um plano doido só pra mostrar pro pai o quanto gostava dele. Claro, muito dos dramas mais “pesados” da série foram criados para dar um início e um fim às histórias e arcos individuais : a pessoa na qual a história foi baseada morava longe dos pais, o pai gostava mais de games do que a série deixa entender (com uma passagem fantástica de como seu pai estava feliz por ter terminado MGSV: Ground Zeroes e Thief), entre outras coisas. Mas a premissa e muita das interações ainda são exatamente como aconteceram e é o tipo de história que fica melhor ainda você sabendo que foi verdade.

Final Fantasy XIV: Dad of Light pode não te convencer a adentrar no mundo de Eorzea e pagar 15 dólares ao mês, mas vai te dar um gostinho do poder real que um mundo desses pode ter sobre nossas vidas e como podemos nos conectar mais com quem amamos através deles.

Por favor, confiram alguns posts traduzidos do blog pessoal da pessoa em quem foi baseada a história, porque são muito bons. Não estão todos disponíveis ainda, mas dá pra ter uma boa idéia de como e por que ele começou, além de ver diferenças e semelhanças divertidas com a série.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
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