O complexo de Cloverfield

Spoilers em diversos níveis de Cloverfield, 10 Cloverfield Lane e The Cloverfield Paradox.

É isso, senhoras e senhores. O selo Cloverfield ataca mais uma vez, de novo carimbando filmes que nem eram pra ser Cloverfield até os quarenta e cinco minutos do segundo tempo, mas que agora fazem parte do supostamente estabelecido Cloververse. Por bem ou por mal, bem-vindos.

Sem o risco das sessões de cinema, sendo uma gosma jogada direto no colo da Netflix, The Cloverfield Paradox nasce e morre ligeiro, sem nem conseguir se alimentar direito antes de parar de respirar. É notável as partes que foram adicionadas posteriormente para conectar daqui pra lá, em uma coesão vaga da história do universo, mas o filme ser um horror não é culpa dessas partes, e quem dera se fosse. Se libertando de pré-concepções do que seria um filme aceitável ou não, The Cloverfield Paradox é ruim por se conformar em ser só um negocinho de terror passável, se prendendo na receita de bolo do gênero ao invés de extrapolar.

E essa será a defesa, de agora em diante: tanto 10 Cloverfield Lane quanto The Cloverfield Paradox são filmes fechados, completos, com seus próprios méritos, e julgá-los pela capa comercial Cloverfield é julgar o suco sem nem furar a caixinha com o canudo – e julgá-los como “se não fosse Cloverfield seria 10/10” é coisa de gente suja.

Mas antes disso, o Cloververse.

Não cheguei a acompanhar o hype eterno causado pelo material promocional de Cloverfield, em grande parte por conta da falta de acesso aos veículos relevantes, mas aluguei o DVD com certo fascínio quando ele foi liberado na locadora do bairro. Sem nenhum conhecimento de causa, consumi sem piscar não só o filme mas todos os extras, desde erros de gravação a curiosidades sobre a criação dos efeitos especiais. E, se não entendi na época, reassistindo com a cabeça no lugar é notável como o filme é íntegro, independente do quão desgastado o estilo POV câmera tremedeira estivesse ou está. Se odiamos os personagens não é porque foram escritos de forma pobre, mas porque foram escritos de forma odiável, e aquelas pessoas seriam tão ignoráveis na vida real quanto são na tela. Ver mas não ver o monstro é importante, porque estando ali, levando concreto na cabeça, veríamos mas não veríamos o monstro, seja por perspectiva ou pro choque – mas VER é o que faz a experiência ser realmente assustadora. O argumento de que “ao não ver não entendemos por isso nos assustamos e aí o cara vai lá, mostra o monstro, eu fico de boas” não tem pé nem cabeça, porque você não entende só porque vê, seguimos sem saber o que é, de onde veio, para onde vai, qual seu objetivo, e o medo vem do desconhecido complexo, não da simplicidade da visão. E aí é o fim, e o filme puxa suas últimas cordas e termina, e a ausência de contexto o faz ser brilhante.

Existe espaço para um outro filme Cloverfield? Talvez, se você quiser falar os quem/como/quando/onde/por que e estragar, aí de verdade, toda a atmosfera de medo. Outra possibilidade real  é, e foi suspeito por um tempo, de se ter simplesmente outra visão do mesmo acontecimento, na mesma cidade, como uma aventura desgraçada paralela de quando o exército dos EUA nukou Manhattan. Mas, quando uma história tem começo, meio e fim, independente das pontas abertas do seu universo, não existe real razão narrativa de se ter um segundo ou terceiro filme.

O que não quer dizer que seja uma surpresa 10 Cloverfield Lane existir, mas sim toda a história do seu nascimento.

Originalmente The Cellar, 10 Cloverfield Lane talvez realmente fizesse menção a alienígenas invadindo a Terra e de repente o personagem do John Goodman realmente fosse ex-militar, mas não existia um ponto final em “ah é, sou Cloverfield também, aqui os bichos ó”. Foi por estar sob a produção da Bad Robot e o seu J.J. Abrams ir lá dar pitaco que se retorceu um final desconhecido para o que se tem hoje. Você viu? Deveria ver, é um puta filme, e é importante de se notar que a forma como se conecta com o inexistente Cloververse não só não retira nada do filme “original” como é muito bem tratado, costurado de forma a A se referir a B sem precisar esfregar na cara de ninguém. Importava se realmente tinha algo lá em cima ou não? Não. O fato de ter é ruim? De maneira nenhuma. Acaba sendo um puxão de tapete inesperado, e é muito gostoso quando se nota que as ações da personagem antes e depois dos alienígenas não são destoantes – ela não se torna uma heroína combativa do nada, quando desde o começo ela tenta solucionar problemas da forma mais convoluta e inesperada possível, com pensamento rápido e frio nos segundos necessários. O comentário de “o filme todo é bom, exceto pelos últimos dez minutos” é de um materialismo tão tonto que me surpreende as pessoas conseguirem assistir filmes num geral. Não importa que “o filme não era Cloverfield antes mas agora é” se ele FOI lançado como Cloverfield. É o produto final, e ele é bom por inteiro, dez minutos inclusos. Mas também, ALÉM de ser um Cloverfield, ele pode ser visto como algo isolado e se mantém de pé como tal, por ser bem construído, por ter todas as estruturas de metal no lugar. Se as pessoas não soubessem que originalmente nem era pra ter aqueles últimos dez minutos, nem iam reclamar da forma como reclamam, ou desgostariam do filme por completo ou o apreciaram pelo que é, não pelo que acham que talvez pode ser que não se sabe mas dizem que poderia ter sido.

E então, assim como com 10 Cloverfield Lane, The Cloverfield Paradox não era um filme Cloverfield, até ser. E assim chegamos na discussão de por que é um filme bostíssimo enquanto o outro não é, porque isso não é culpa do, mesmo que zoadíssimo, Cloververse.

É um ano genérico em um futuro próximo e possível e a Terra não tem mais energia. Tá todo mundo muito puto, querendo fazer guerra, naquela esperança tonta de que se matarmos todos os russos, por exemplo, vamos conseguir roubar a energia inexistente deles. Uns astronautas são mandados pra estação espacial maluca pra testar um colisor de partículas na esperança de conseguir uma solução estável de geração de energia infinita que possa ser replicada na Terra. O negócio funciona meio torto, fenda temporal, universo paralelo, monstros na Terra, tem um cara da TV que tem uma arroba que não existe falando que “não pode ciência vocês estão loucos vai colidir as coisas demônios vão dominar a Terra esse aí é o paradoxo de Cloverfield”, conectando esse negócio todo, teoricamente. O Clover maior que o Everest no final também conecta o filme ao todo, teoricamente. Aí por estarem em um universo A e estarem no universo B, o universo A fica meio cabreiro e começa a querer destruir tudo do universo B, o que gera várias palhaçadas de filme de terror. No fim dá tudo certo todos voltam pra Terra certa felizes, aí cabeção do Clover, pampampam, acabou.

Filmes de terror precisam de duas coisas: sobriedade ou histeria. Em um filme soturno, em que o terror é apresentado de formas abstratas, se precisa ser muito formal com os personagens, os acontecimentos, a ausência de mortes grotescas. Em um filme slasher maluco, é preciso aplicar a histeria até o limite, fazendo com que um monte de coisas idiotas que levam os personagens ao sofrimento sejam tão fora do esperado que é um idiota bom, um idiota que entendemos como parte da atmosfera caótica do universo paralelo tentando consumir os aliens do nosso universo, por exemplo. E o filme é bastante aceitável de assistir quando as coisas idiotas legais estão acontecendo, mas se torna chatíssimo quando desistem da histeria e tentam mergulhar na sobriedade. Tudo se torna formulaico – uma coisa aleatória, uma descoberta, uma morte, repete, seguindo bem certinho aquela famosa curva narrativa. O conceito de duas realidades se chocando é só um veículo para uma história dramática mal escrita que ninguém liga, e a parte realmente bacana de se assistir fica perdida ali nos primeiros quarenta minutos. E aí as duas realidades se consertam, depois de um monte de gosma magnética e galera morrendo congelada, e a Terra está salva com energia. OU SERÁ QUE NÃO?

É ruim, mas, de novo, não é ruim por ser Cloverfield, e sim por não ter nem pé nem cabeça. Tenta ser risqué onde não precisa, aí joga seguro onde deveria extrapolar, avisaram só pro Chris O’Dowd que podia se divertir atuando então todo o resto do pessoal tá meio morto por dentro, o personagem brasileiro não toca UM sambinha nas partes em que estão relaxando jogando pebolim. Uma edição meia-boca de fã, retirando todas as partes “desnecessárias” do filme e o transformando em The God Particle de novo só revelariam que se nasce lixo, morre lixo, e não é o dinheiro da Bad Robot que vai fazer diferença aí.

The Cloverfield Paradox, como The God Particle, não receberia um marketing tão grande, provavelmente nenhum, porque seria só um filme lixíssimo de sci-fi tonto com efeitos ruins. The God Particle, como The Cloverfield Paradox, recebe ao menos isso, um selo que o faz significar algo, por menor que seja, e meia dúzia de bobos (como eu) vão lá assistir porque gostam das coisas anteriores. A prática zoada da propaganda semi-enganosa não compromete o filme, porque ele seria bom ou ruim de qualquer forma, só compromete quem acha que vai ser melhor ou pior pelo que a propaganda diz.

E, com agora dois filmes no mercado com o mesmo pretexto de “estamos criando um universo”, voltam-se as tochas e ancinhos em direção não só ao filme atual, mas ao anterior, e até ao próprio original. E o que cria esse julgamento é justamente essa mania de julgar as partes, o “poderia ser que”, ao invés de ingerir e digerir a obra como uma refeição completa. É injusto julgar ambos os filmes sob a marca do ferro em brasa Cloverfield como “zoados pelo franqueamento”. A cicatriz Cloverfield não agride em nada nenhum dos dois filmes. Se são bons, é porque são bons em seu próprio mérito, independente de sua relação com o monstro; se são ruins, é porque são ruins, e não é a adição de cenas com CG ruim ou explosões variadas que vai melhorar alguma coisa. Fazer parte do tal Cloververse acaba sendo somente uma via de duas mãos comercial, em que diretores e investidores tem seu filme viabilizado sob o nome da Bad Robot, e o produtor teoricamente cria algo novo e complexo, no qual pode encaixar mais quantos filmes quiser, enquanto compra um carro novo e ri das mentions no twitter.

Essa aliança estranha foi o que possibilitou a existência de um excelente filme, e o outro ser um lixo nuclear não retira do primeiro seu mérito. Já se falou, não faz muito, sobre como isso de julgar as partes como se fôssemos legistas do entretenimento é a coisa mais catastroficamente besta que se pode fazer, e se aplica aos jogos, se aplica ao cinema, se aplica ao PF da esquina. Enquanto discordar da ação de comprar filmes e dizer que são seus enquanto são só costuras para algo que ninguém quer é válido e moralmente correto, achar que precisa colocar fogo no trabalho inteiro de readaptação desses filmes para adequação ao encaixe no universo só porque “ain podia ser tão melhor” é achar que pode fazer melhor ao invés de só fazer.

Não assistam The Cloverfield Paradox, porque é bem ruim mesmo. Mas por ser mais um filme de terror tonto que não tenta ser nada além de algo pra ver ao mesmo tempo que se joga Minecraft, não porque não é o que deveria ser. Tem outros filmes vindo por aí, e é tortura psicológica consigo mesmo tentar adivinhar o que o presente teria sido se o passado fosse outro. O fim é o fim, e etc.

Maciel

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Aquarismo amador e narrativas interativas. Velha demais para a internet.
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