Tatami Galaxy ainda não salvou minha vida (mas um dia vai)

contém fatos, spoilers e relatos sobre o anime Tatami Galaxy

Tatami Galaxy é um livro, escrito por Tomihiko Morimi, que virou um anime dirigido por Masaaki Yuasa. A maioria dos livros que viraram anime são bons. Animes baseados em livros sempre vêm com aquela curiosa pergunta: “Como que era isso aqui em forma de livro?”. No caso de Tatami Galaxy, não faço ideia. Parece que os planetas simplesmente se alinharam e o projeto foi parar pro melhor diretor. Ou, sendo mais lógico, obras excepcionais atraem outros artistas excepcionais para apreciá-las.

Tatami Galaxy é uma história da vida colegial de um jovem não nomeado. No caso, ele tem um nome, mas dificilmente alguém se refere na terceira pessoa quando está contando sua história de vida – entende-se que sabemos quem essa pessoa é e se torna redundante a revelação do próprio nome. Mas o fato de ele não ter seu nome pronunciado não significa que é um avatar pro público. Ele é ele mesmo, se você se identifica ou não é outra história.

É um anime que chama atenção indiferente da cena em que se pausar. Sua paleta de cores e sua expressividade são algo muito único, talvez porque, diferente de outros animes contemporâneos, foi feito primariamente em animação tradicional. Provavelmente haveria uma história tão excelente mesmo sem esse trabalho de direção, mas o fato de tudo se alinhar dessa forma dá a impressão que não havia outra maneira possível dessa história ser contada na televisão.

O protagonista é um jovem comum, que sonha com uma vida na universidade igual vemos projetadas por filmes e outras formas de mídia. Uma vida boa, com desafios legais e onde até os dramas e partes ruins só servem para que possamos crescer e evoluir. Confiamos que sabemos quem são os maus elementos da sociedade e evitamos cair em clichês, até porque os filmes já nos ensinaram tudo isso. Pra ser sincero, o colégio passa por uma embelezação mais radical ainda (como Hynx já escreveu sobre) em animes e jogos do que a vida universitária.

Há um outro livro japonês, escrito por um tal famoso chamado Haruki Murakami, chamado Norwegian Wood. Uma parte significativa do livro é sobre como a vida de universitário é uma bosta. Protestos, greve, DCE parando a aula pra fazer anúncio, professor e colegas que parecem ter saído diretamente de um buraco no inferno (e como saíram de lá ou passaram no processo seletivo nos tira o sono). Evidentemente, como tudo na vida, tem suas partes boas: matar aula pra beber num barzinho na frente do campus, ficar de bobeira na sala com sinuca do DCE, festa literalmente toda hora apesar de ter 20 trabalhos para terminar, fazer amizades depois de velho, etc. E outra: claro,  universidade não é pra todo mundo. Até no nosso país, onde ela é gratuita, acaba sendo um privilégio; no Japão, onde ela carrega um preço elevado, também não é fácil. Mas assim, pago ou não, é terrível. É uma época de frustrações, de inseguranças, de ataque de ansiedade quase todos os dias e de não saber que porra você está fazendo com a sua vida. De atrasar texto que era pra sair terça-feira porque, até lá, a faculdade ocupava 99% do seu tempo. com tarefas inúteis.

E você perde mais noites de sono pensando por que se submeteu a tudo isso.

Nem Norwegian Wood, nem Tatami Galaxy vão tão a fundo na tristeza e perrengue da universidade por motivo da universidade em si, mas sim no que acontece nessa idade dos 20 e poucos anos, sobre pessoas que conhecemos, oportunidades que perdemos e o que não podemos evitar. Vamos deixar o Haruki Murakami de lado, pois é aqui que acabam as semelhanças. O mundo que ele contou é um muito mais dramático e atípico que o do estudante comum; não que o de Tatami Galaxy seja normal, longe disso, mas o nível de drama e de situações inusitadas é mais parecido com o nosso.

O drama do protagonista gira em torno dos clubes universitários com que ele resolve se aliar: tênis, ciclismo, filme, esquemas de pirâmide, um grupo de operações de envergadura moral questionável, etc. Todos seguem um padrão: ele sonha com o que seria o clube ideal; a realidade bate e o clube obviamente não é o que ele tinha inventado na cabeça; ele se ferra tentando se enturmar; conhece uma menina chamada Akashi; conhece um moleque infernal chamado Ozu; cai mais e abraça o depravamento; se arrepende; pensa se outra opção não teria sido a melhor; repete.

Quando digo “repete”, é da forma mais literal possível. O protagonista volta para o início da sua vida universitária e escolhe outro grupo de pessoas com as quais se associar. Dá a se entender que isso é uma ferramenta narrativa, não algo que está acontecendo literalmente, embora os protagonistas façam referências a histórias passadas. Bom, ao menos até os últimos dois capítulos, onde o protagonista fica preso em um ciclo de multiversos dentro de seu quarto em consequência de uma fatídica, mas comum, decisão ruim: sempre tudo vai dar errado, então por que tentar?

Constantemente colocado em situações terríveis e inconvenientes, simpatizamos com o protagonista. Queremos que tenha sua vida boa na universidade, que encontre amor verdadeiro, que não tenha que sofrer com um mau elemento estragando sua vida. Sua vida vai ficando progressivamente mais bizarra na medida que os episódios avançam, mas é só no final que a verdadeira pergunta aparece: tem algo pior que não viver sua vida?

Desmotivado com a perspectiva de um mundo bom lá fora, o protagonista perde tanto tempo apenas em seu quarto não fazendo nada que fica literalmente preso em uma infinidade de quartos iguais ao dele, de certa forma realizando seu desejo. Por mais que não estejamos a fim de sair de casa, se não temos a possibilidade de ir e vir quando bem entendemos uma claustrofobia forte irá bater independente de quem você for. Tudo que o protagonista tem no quarto aparece no próximo: seu bolo de castela, dinheiro, comida e o espaço. Todos já passamos por isso. Se pudéssemos viver sem interação externa e comendo o que mais gostamos para sempre, viveríamos vidas plenas. Bom, pelo menos eu já pensei algo assim – obviamente estava incomodado com as situações externas da minha vida.

De repente, o bolo já não é gostoso, o espaço, apesar de infinito, ainda é composto de vários apartamentos apertados, o dinheiro é inútil para quem não pode sair para gastá-lo. Nesse meio tempo, o protagonista descobre a verdade dos quartos: cada um é seu alojamento na infinidade de caminhos que sua vida pode tomar: o quarto em que ele participa de uma sociedade secreta; o quarto em que ele fica entre a escolha de três mulheres; o quarto em que ele se especializa em estragar a vida amorosa de todo mundo no campus. Todos fazem parte da sua vida. O que então víamos como situações desagradáveis para o protagonista, agora são o seu desejo. Não existe uma vida perfeita na universidade, ou em qualquer pretexto. Não existe a melhor decisão, ou melhor, não há necessidade de se pensar nela. O simples ato de se viver uma vida “divertida”, “social”, em que coisas ruins acontecem, é melhor do que não vivê-la de fato. O protagonista quer comer qualquer outra coisa, quer sentir o sol na cara, quer conhecer essas pessoas magníficas que passaram pela sua vida e que agora só conhece pelas histórias que seus quartos contam. Inclusive o moleque que tem como objetivo de vida infernizá-lo para sempre. Ele, quem sabe, foi, em todos os caminhos possíveis, seu maior amigo.

Eu chorei no final. Ele não é especialmente dramático, na verdade é muito confortável e otimista, justamente o tipo de final que gosto. Mas senti algo ressoar comigo. Já tinha passado por algo parecido. Nunca me tornei, de fato, um “hikkikomori”, o famoso termo japonês para a pessoa que não sai nunca de casa, mas já passei por situações nas quais interação social era meu maior medo. Quando superei esse problema, senti uma sensação de libertação absurda, quando pensei nele em retrospecto. Sei que pode vir a acontecer de novo, não é algo tão incomum, afinal de contas, ainda mais quando começamos a desgostar do ambiente que vivemos, no meu caso a faculdade. Mas é uma lição, tanto passar por isso quanto relembrar assistindo Tatami Galaxy, e uma arma poderosa, que resgatarei sempre que me sentir no desespero.

Definitivamente há uma parte boa em viver isso tudo.

Luiggi

Luiggi

Me perguntam porque eu gosto tanto da Nintendo. Primeiramente meu nome é Luiggi. Segundo é que nunca tive motivo pra me decepcionar desde que jogava quando pequeno. Deve ser porque nunca comprei um Virtual Boy. Se bem que eu comprei um e-Reader, mas era legal até. Eu gosto de videogames num geral.
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