Você não gosta de Star Wars

Eu não sou crítico de cinema. Na verdade, se você for pensar bem a fundo, eu não sou nem crítico de jogos: sou apenas o cara que faz malabares estruturais em forma de texto para tentar passar a impressão do quanto gostei ou não de algo. Então sei que não sou a melhor pessoa para dizer o que se deve ou não fazer quando se critica algo, mas existem coisas que realmente duvido que tenham algum propósito dentro da análise crítica.

Nós estamos em 2018 quase, o futuro que esperávamos tantos anos atrás, então vamos tirar um grande peso de nossas costas e deixar claro que toda análise é parcial. Não existe como nem porquê um texto analisando uma obra ser imparcial (seja ela um jogo, filme, livro, quadrinho, música, ou até mesmo comida e, por que não, Viagem de Uber). Quando você escreve ou fala sobre algo, o conteúdo pode ter qualquer quantia de embasamento técnico e conhecimento adquirido através de estudo ou observação, e mesmo assim continuará carregando o seu ponto de vista, a sua bagagem, os seus gostos e preferências.

A pessoa que lê seu texto ou vê seu vídeo opinativo também, no fundo, não quer realmente saber se a obra é boa ou não (quem sabe isso seja algo exclusivo para categorias como Viagens de Uber). Seu público quer saber o que você achou, sua opinião é importante para ele sob algum aspecto, e cada leitor por algum motivo único quer entrar dentro da sua cabeça e entender como você absorveu aquele conteúdo. Portanto, tanto você como criador está colocando sua parcialidade em sua crítica, quanto o público está buscando sua parcialidade como forma de conhecimento ou entretenimento.

Acredito que a grande maioria das pessoas que buscam passar sua visão crítica na internet de alguma forma já estão dentro desse barco. Entretanto, mesmo assim, ainda se cultua o famoso padrão do que se deve falar dentro de uma crítica. Exemplo: você vai assistir um filme, gosta demais, mas aquela cena no meio em especial você deu uma torcida de nariz. Não existe nada de errado em abordar na sua análise aquilo que te desgostou dentro de um todo que você amou, mas o problema é a obrigação em se fazer isso.

Não são poucas as vezes que eu leio uma crítica e vejo o famoso “mas nem tudo são flores” escrito de milhares de formas diferentes, apenas para apontar que você não está cego pelo seu gosto e que viu detalhes ruins na obra. Assim como também já vi diversas vezes pessoas comentando em críticas dizendo “ué, mas você não vai falar daquela parte ruim?”. O criador do conteúdo não quer abordar aquele ponto, por não ter feito parte da essência que ficou com ele após absorver a obra, mas se sente na obrigação de fazê-lo. O público, que busca a opinião do criador de maneira parcial, já sabe que esse ponto baixo existe e se sente na obrigação de cobrar essa lasca de imparcialidade. Não faz o menor sentido.

Note que eu estou falando até agora de análises onde o criador das mesmas tem uma opinião concreta sobre a obra. Caso ele esteja dividido, faz todo sentido discorrer sobre os pontos que ocasionaram essa dúvida na sua cabeça, claro. Mas caso seja favorável ou desfavorável, essa cultura de necessidade do “é bom mas não é perfeito” e “é ruim mas não é o pior do mundo” é ridícula. Hoje essa ideia extravasa pela internet, indo além das análises concretas e atingindo qualquer pessoa presente em redes sociais, onde a opinião individual acaba gerando uma pequena análise sobre tudo o que se consome.

Quanto mais consenso existe sobre uma obra e quanto mais aguardada ou falada ela é, maior é a tendência dessa atitude exibida acima tomar uma forma ainda mais vil. “Se eu percebi esses erros, então não faz sentido isso ser bom!” ou “Esses pequenos pontos bons aqui no meio dessa bosta claramente mostram que isso na verdade é sensacional!”. Buscam a eliminação da sua própria bagagem, da visualização do todo, para se focar em pontos isolados apenas para gerar uma opinião diferente da massa. Ir com o todo não soa tão especial e todos querem ser especiais.

Nesse ponto o leitor pode estar pensando, “Nossa Hynx, então quer dizer que ninguém pode discordar do consenso geral sem soar artificial?”, mas o grande problema é que as reclamações na maioria dos casos não colam. Esse texto eu estou escrevendo após ver umas bobagens muito absurdas sobre o novo Star Wars, filme que qualquer crítico ou espectador tem o direito de ter achado uma bosta. Só que não cola você achar esse filme ruim e dizer que qualquer outro da série foi bom.

Se você aprecia os filmes anteriores, sejam eles em qual grau ou número, qualquer reclamação que você tenha feito sobre o Star Wars atual (muito provavelmente) pode ser feita sobre qualquer um dos outros filmes anteriores se eles fossem lançados hoje e você estivesse com essa mesma mentalidade. Falhas de roteiro, clichés, momentos bregas pra caralho, cenas desnecessárias, todos os outros filmes da série estão lotados de tudo isso também; só que antigamente você se preocupava em como você saiu se sentindo após terminar de ver o filme e não de escarafunchar alguma coisa pra falar sobre o que assistiu.

Aquele sentimento de felicidade ou desgosto ao sair do cinema ou desligar o videogame era o que você carregava consigo em tempos mais simples. É como você desenhou e definiu os responsáveis por causar esses sentimentos em sua cabeça ao longo dos anos. Isso é algo que já tentei explorar em outro texto meu, “Um Telefonema Muito Importante”, que é aquela falta de capacidade de olhar pra trás e entender porque você gostava de algo no passado. Tentar ver que se algo não te apetece hoje, provavelmente não foi o objeto de discussão que mudou, mas você.

Uma pessoa qualquer pode não gostar de algum nicho e eu vou respeitar completamente. O próprio Neozao aqui do nosso site odeia filmes de super-herói e provavelmente cagaria montes enormes pra filmes que eu me preocuparia em escrever análises. Respeito isso, não é a praia dele. Mas Star Wars é apenas um exemplo entre muitos de um gosto popular que não é tão sensacional assim em contextos gerais como todo mundo pensa que é. É uma série de filmes absurdamente gostosa de assistir, com momentos que ficam na sua cabeça, personagens fáceis de se lembrar e identificar, e diversas outras qualidades que pessoas podem identificar facilmente para apreciar. Mas não é aquela excelência inquestionável que todo mundo guarda dentro do coração. Essa superioridade inabalável quem lapidou foi a gente com nossas antigas impressões, a obra tem apenas um pouco a ver com isso.

Entende a dualidade? Essas obras são blockbusters, filmes feitos para agradar as massas, para vender produtos, para fazer a turma vibrar no cinema sentado na ponta da cadeira, para ganhar dinheiro. Sempre foi assim. Entretanto o seu eu criança dos anos 80/90 não via dessa forma, mas como algo especial, uma obra prima descomunal. Hoje esse povo analisa com ódio e desgosto por tudo que esse tipo de filme é, mas esperando ver e sentir o que aquela criança experienciou antes. Não vai acontecer e a culpa é sua.

Nenhuma dessas obras “soberanas” da ficção é tão sensacional a ponto de tentarmos as firmar como sendo parâmetro de qualidade. Elas são tão boas quanto as coisas nas quais tentam achar furo hoje em dia pra fazer barulho na internet, só que ao longo dos anos que passaram esse tipo de crítico se tornou uma pessoa chata pra caralho que se importa mais em se conectar com a controvérsia do que com seus próprios gostos e reações. Foi perdida a magia em se descobrir, venderam ela toda em troca de palmas ou atenção na internet.

Toda propagação de ideia acaba partindo de algum lugar comum. Acredito que as críticas precisam voltar a ser mais sentimentais e mais escancaradamente parciais. A beleza principal está em conseguir expressar definitivamente a sua opinião e ela ser tanto entendida quanto apreciada de maneira gostosa de se digerir. Apontar aquilo que não faz real diferença para você apenas gera uma bola de neve enorme, que se propaga para fora da sua opinião, crescendo cada vez mais, que quando termina de rolar acaba parecendo algo maior do que você. Maior do que aquilo que realmente estava dentro de você.

Não tenha medo de se conectar com seu eu do passado, mesmo que seja para tentar explicar os motivos de acreditar que a sua versão atual é a correta. Você não gosta de Star Wars, de filmes da Disney, de Harry Potter, de filmes de ação mentirada, de comédias idiotas e politicamente incorretas. Seu eu antigo poderia gostar, mas isso não tem nada a ver com a qualidade nem com a análise da obra, pois quem deve definir isso na crítica é a sua parcialidade atual. Dizer que antigamente era melhor talvez seja apenas assumir que antigamente você era melhor.

Hynx

Hynx

Gosto muito de videogames, mas gosto ainda mais de ficar pensando qual a próxima metáfora idiota que eu vou criar para exemplificar enchendo linguiça meus pontos de vista que poderiam ser resumidos em um parágrafo ou dois. É um vício nojento, sim, mas no final das contas eu acho que fica bem legal. A galera gosta...
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