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Única opção é se juntar à espiral

Uma das facetas mais revoltantes do terror é aquela da complacência. É um padrão do gênero, de certa forma, essa ausência de compreensão do perigo e logo ausência de ação, mas existe um dado extra específico desse terror que Junji Ito faz que é realmente a complacência. Não a falta de compreensão da necessidade de ação, mas a ausência da ação pelo simples fato de que, ao agir, há destaque. Ao tomar uma decisão que quebre o ciclo de acontecimentos atuais, desequilibrar o cotidiano, sabe-se lá o que pode acontecer, e sabe-se lá quem vai ficar incomodado. Então a gente segue com a modelo bizarra dentro do carro, com a família que bebe óleo, com o pai esquisito colecionador de espirais.

しょうがない, o japonês diz, “é isso aí, não tem muito o que fazer não”. Shouganai.

Kirie, a personagem principal, sabe de começo que tem algo meio zoado na cidade. Um lugar ermo, bem numa região propensa a tufões, no meio das montanhas e da floresta. Tradicional e pacato. E Kirie sabe que quando seu vizinho começa a encarar caracóis, quando seu irmão começa a virar um caracol, quando a fumaça das cremações (constantes) da cidade toma vida própria, algo não funciona muito legal na cidade como um todo. Mas, se não aqui, onde? Se não assim, como?

Shuichi, seu namorado (que é a lata do Junji Ito, inclusive), sabe de começo que tem algo meio zoado na cidade. Ele quebra as regras e faz campanha, gritaria e incomodação de que sim, devem sair da cidade o mais rápido possível, ele e Kirie, e quem mais quiser vir, mas os dois principalmente. Insiste na fuga por bicicleta, por ônibus, a pé, mas é preso por toda a aura de しょうがない da sua família, da família de sua namorada, da cidade inteira.

Então permanecem, até que é tarde demais para sair, tentam sair mesmo assim, e descobrem que retornar pode ser ainda pior.

Em uma história que começa empurrando a percepção do erro até a morte por bacia de tomar banho, e termina empurrando a percepção de comunidade até a absorção pelo cataclisma arquitetônico que é o subsolo da cidade, a verdade é que nada acontece em Uzumaki. Não existe nenhuma ação, não existe nenhuma decisão, somente o destino cósmico catapultado sobre a cidade e o correr dos dias até que todos estejam sob a tal maldição.

Kirie e Shuichi, enfim, são absorvidos, como um, pelo mar não-humano que é a espiral em si. Porque não tem muito mais o que fazer além disso. Porque se não for isso, vai ser o quê? Lutar contra o destino não tem expressão coloquial no idioma; aceitar o destino, sim.

Maciel
Narrativas interativas e plantas mortas-vivas. Cansada demais para a internet, mas tentando sempre.

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