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A PONTE PRA LUGAR NENHUM

Um formulário? Tudo bem, posso responder sim.

Sabe, as alucinações que tomam conta dos sonhos febris da gente conseguem dar forma muito rápido aos piores tipos de realidade. Isso eu sei. Estradas vazias. Casas antigas que não parecem mais suas. Rostos que apesar de serem iguais habitam corpos diferentes. Como que dá pra afirmar a existência de algo fora do espectro do que é fixo ou transitório?

Desculpe, o jogo já começou, doutor?

Acho que sim. Começou na verdade talvez muito antes daquele acidente de carro.  A estrada vazia de noite. A neve. As cinzas? Tinha uma garota — a minha garota. Talvez duas, na verdade. Lembro de ter tentado desviar de alguém.

Não lembro muito, doutor. Sinceramente, não lembro.

Não havia ninguém.

Tudo era frio.

Lembro de ter encontrado um telefone e tentado fazer algumas ligações. Procurei por números em pôsteres e cartazes. Tentei ligar para a minha própria casa, mas não havia sinal. Lembro que uma policial tentou me ajudar, mas não lembro como ela era. Tem hora que lembro dela morena, como aquela detetive de Law & Order, sabe? Olivia Benson. Eu adorava essa série. Tem outras horas em que tenho alguns flashes dela loira e, perdão pela expressão, voluptuosa. É tudo confuso.

Outro teste? Tudo bem.

Sempre acho engraçados esses testes porque fico pensando em como minhas reações afetam alguma coisa. Se eu pintasse essa casa de rosa isso te diria algo diferente do que se eu pintasse de verde? Nessas horas a gente fica muito autoconsciente mesmo. Meio pragmático. Normal isso, né?

Frio. Mais testes. Até quando, hein?

Hm. Me acharia pedante se eu dissesse que um dia perfeito na escola teria aula de escrita criativa? Talvez. Eu me acharia. Posso comentar uma coisa? Eu não sei mais o que veio primeiro. Eu colori aquele desenho de rosa, mas não sei se é por que lembrei que a minha própria casa era rosa ou se só lembro dela assim agora porque pintei a do teste dessa cor. Confuso, né? Aconteceu de novo com essas matérias escolares desse teste. Escolhi essas matérias na lista e lembro agora de ter passado por essas salas enquanto eu procurava pela garota. Minha garota? Post hoc.

Não sei se posso confiar nas minhas memórias já que toda vez que puxo elas, elas se transformam. Existe a concepção básica de que o passado é fixo e o futuro que é mutável, mas por que eu não lembro? Ou pior, por que eu lembro agora depois dos testes? Eu sei muito bem o que fui fazer lá. Lembro. Certeza. Fui atrás da minha filha, minha bebê. Apenas 7 aninhos. 25? Não! O senhor se confundiu.

Frio demais.

Certo. Tá bom. Aconteceu o acidente, encontrei a policial, depois fui para casa, para a escola. Surgiram algumas mulheres, mas não sei bem descrevê-las. Dahlia, Lisa. Alguma delas é uma enfermeira, eu acho. Fui para uns apartamentos, passei num hospital. Acho que aconteceu um outro acidente numa ponte também. Desculpa, doutor. Eu estou ficando mais confuso ainda. Por que está tão frio aqui? Por que eu não consigo lembrar direito? Por que tantos rostos diferentes? Por que eu não consegui encontrar ela? Me diz? Por que eu não achei a minha filha?

Pra que tantos testes?

Quem sou eu? O que eu fiz? O que aconteceu? Qual é a verdade mais objetiva e mais real? Onde ela está? Ele. Onde ele está ? Por que ele não voltou pra mim? Não há como saber. Provavelmente nunca tenha tido como saber. Por que, doutor? Vim aqui pra você me ajudar e só me sinto controlado, analisado. Avaliado dos pés à cabeça. Ouvindo que tenho problemas pessoais, familiares e sexuais. Sentindo como se cada ação fosse um leve parâmetro pra me julgar. Parece que tudo que eu faço se envolve não numa resposta, mas em formas de me culpar. O passado ainda é o passado. Quanto disso tudo é a história certa? Quanto disso é mudado por você, pelos seus testes e as suas perguntas? Quanto disso é a minha experiência de verdade? Como alguém pode ter memórias objetivas e claras quando se é vivo e consequentemente subjetivo?

Doutor, não existe uma história precisa, completa e satisfatória, não é? Me diz a verdade, tal coisa não existe e não pode existir. Existem apenas fragmentos parciais, alguns melhores que outros.

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